Quais os benefícios e as consequências?

A situação que, atualmente, vivemos faz-nos pensar em filmes e livros de ficção científica. Remete-nos para um imaginário criado por alguém e faz-nos questionar: “e se isto realmente acontecesse?”. O facto é que está a acontecer e não se trata de nenhum cenário ficcional e, sim, de uma realidade que está a quebrar todos os paradigmas a nível pessoal, social, relacional e laboral. A mudança promove a necessidade de uma adaptação célere e que colmate as necessidades que se impõem. E este é mais um desafio com que nos deparamos no presente.

Hoje reflito sobre a necessidade que, devido à pandemia do COVID-19, tem afetado grande parte das empresas: a necessidade do teletrabalho e da educação virtual. A China foi dos primeiros países a aplicar este método de trabalho, como estratégia imediata, face às enormes implicações económicas que o país viria a sofrer com a pandemia. Grande parte das suas empresas continuam a funcionar remotamente, com os funcionários a trabalharem em contexto de home office.

É certo que o mundo do trabalho tem evoluído significativamente nas últimas décadas e que o teletrabalho não é uma novidade para muitas empresas. Na verdade, espera-se que esta venha a ser a modalidade de trabalho predominante no futuro, devido às vantagens que apresenta.

Uma delas é que promove uma maior autonomia e flexibilização do trabalho por parte do trabalhador. A organização e gestão de horários permite que se mantenha motivado, aumentando a produtividade e evitando o desgaste emocional associado à pressão de horários impostos e a deslocações recorrentes e cansativas, sobretudo quando em hora de ponta. Por consequência, isto diminui os gastos das empresas em viagens e tem também um impacto positivo no ambiente.

Trabalhar em casa também permite eliminar barreiras geográficas, porque se pode trabalhar para qualquer empresa, podendo esta estar sediada em qualquer parte do mundo. Assim, as próprias técnicas de recrutamento de recursos humanos ampliam o seu campo de atuação, por forma a escolherem perfis de pessoas mais talentosas e de enorme potencial para a empresa, que não necessitam de estar no mesmo espaço geográfico e de fazerem mudanças drásticas nas suas vidas. A independência, nestes casos, é tanto para a empresa como para os colaboradores.

Todavia, este método de trabalho pode deteriorar a esfera social do indivíduo, podendo também ter repercussões que passam, por exemplo, pela ausência de contacto físico e interação presencial com colegas de trabalho, falta de estímulo intelectual e sentimentos de solitude. As reuniões online passam a caracterizar as outras pessoas como presenças meramente funcionais e abstratas. De igual forma, os problemas familiares também podem acabar por interferir no trabalho e vice-versa.

O teletrabalho e a educação virtual serão o futuro?

No momento atual, o teletrabalho não é apenas uma opção, é antes uma obrigação, uma necessidade para a sobrevivência económica e financeira de muitas empresas. Contudo, nem todas as profissões são passíveis de terem esta modalidade de trabalho.

Muitos de nós fomos obrigados a fazer uma mudança de um dia para o outro, criando protocolos, sistemas e plataformas adequadas e diretrizes de ação o mais claras possível, para criar a sensação de controlo face à urgência da situação. Fomos apanhados desprevenidos e, por isso, ainda há uma certa resistência a novos modelos, mesmo sabendo que eles não são, de todo, uma novidade.

Creio que a maioria de nós ainda está na fase experimental do teletrabalho e que, apesar de ter resultados positivos, pelo menos a curto/médio-prazo, é necessário polir o método e os processos para potencializar todas as vantagens que lhe são inerentes e mitigar os efeitos negativos do mesmo. Há, ainda, muitos ajustes a fazer, em que a psicologia das organizações e demais ciências sociais poderão ser úteis. Por exemplo, a criação de linha telefónica de cuidado psicológico para os colaboradores com vista à literacia em saúde psicológica, prestação de suporte emocional e estratégias para lidar com o isolamento, adaptação à mudança e com situações de crise.

Dentro do mesmo panorama pandémico, na área da educação existiu, em poucos dias, uma redefinição daquilo que é o ensino à distância e de que forma pode ser instrumentalizado para garantir o sucesso da aprendizagem em moldes semelhantes ao sistema tradicional, com aulas presenciais. Há muito que existe a modalidade e-learning, como método alternativo de ensino, que veio a promover a aprendizagem ao ritmo do próprio indivíduo e a criar oportunidades democráticas de acesso a formações. Dispormos de sistemas de ensino baseados exclusivamente nesta modalidade, ainda que temporariamente, levanta a questão: o que se pode aproveitar daqui para o futuro?

A educação virtual há muito que tem sido explorada, mas ainda tem um longo caminho a percorrer. Trará, com certeza, muita desconfiança e não substituirá o ensino presencial, podendo antes ser um suporte ou um suplemento. Mas enquanto existirem realidades como a não equidade de meios tecnológicos acessíveis a todos, esta possibilidade ainda está longe de ser implementada com total sucesso.

Há ainda outras questões que se levantam com o teletrabalho e que se prendem com a remuneração, o número de horas de trabalho, a conjugação do trabalho com crianças em casa, o isolamento social e a imersão em ambientes virtuais que, uma vez mais, nos levam a pensar em filmes onde a realidade virtual e a inteligência artificial emergem. Qual será realmente o nosso papel no futuro? Quantas horas trabalharemos? Quanto receberemos? Que alterações estruturais o novo modelo económico trará para as nossas vidas? Continuarão as profissões, que hoje conhecemos, a existirem? Parece que o futuro está a bater-nos à porta. Estamos preparados para abrir?

Poderá o teletrabalho ter mais benefícios do que desvantagens? A resposta dependerá da direção que tomarmos e dos objetivos que temos em mente.

Como estar preparado para o teletrabalho?

O teletrabalho, além de ser uma tendência é uma necessidade atual. Não se trata apenas de uma mera oportunidade de facilitar a flexibilidade profissional, mas é talvez, umas das únicas formas de manter os negócios ativos em tempos de crise. No entanto, é preciso refletir sobre alguns pontos para que esta prática seja eficaz e lhe traga mais resultados positivos do que negativos.

Da mesma forma que o teletrabalho promove uma maior autonomia, também exige um protocolo de ação, uma estratégia definida e monitorização constante. Caso contrário, será fácil haver instabilidade e incumprimento de prazos, assim como se desenrolará um estado emocional que lhe afetará o rendimento. Deixo-lhe algumas dicas:

1. Defina um horário e cumpra-o

Quer a empresa lhe defina um horário fixo, quer seja você a defini-lo, organize-se de forma a delimitar claramente o tempo de trabalho e o tempo familiar. Estabeleça rotinas fixas e trace objetivos. Cumpri-los irá ajudá-lo a gerir o tempo. Não se esqueça de fazer pausas, para recarregar energias e conseguir manter a concentração por períodos de tempo renovados.

2. Tenha um espaço exclusivo para o trabalho 

Tenha uma divisão que não seja partilhada pelos restantes membros da família, para evitar interrupções constantes. O espaço deve ser o mais clean possível para que não de distraia e mantenha o foco. O teletrabalho implica disciplina e dedicação, portanto deverá ser um espaço com o maior conforto possível, já que passará aí muitas horas.

3. Não caia na tentação de andar de pijama, roupão e fato de treino

Vista-se de forma confortável, mas cuidada, porque irá ajudá-lo a diferenciar psicologicamente as horas de trabalho das horas de lazer.

5. Defina os canais de comunicação com os chefes e colegas de trabalho

Se for o chefe, terá de ter um plano de ação muito bem definido. Ocupe-se a fazê-lo com diligência, sabendo que embora o possa refinar com o tempo, deve antever qualquer emergência. Tem múltiplas plataformas ao seu dispor. Escolha apenas as que serão úteis à sua empresa.

6. Quando terminar o trabalho, desconecte-se digitalmente

Silencie o telemóvel, desligue o computador ou o tablet. Desative qualquer notificação. Os dispositivos tecnológicos podem ser uma grande fonte de stresse, pelo que devemos aprender a usá-los com inteligência e nos momentos certos.

Apesar do isolamento social que nos está a ser imposto por uma pandemia inesperada e com enormes implicações, não faça do seu home office uma ilha isolada. Se estiver sozinho em casa, ligue à sua família e aos seus amigos. Oiça as vozes deles, interaja tanto quanto possível. Diminua a distância, mas nunca os afetos. Porque estes podem não se refletir em beijos ou abraços agora, mas as palavras gentis terão o mesmo efeito.

O teletrabalho é o regresso ao futuro. Se estamos preparados para ele ou não, é uma questão de tempo. Uma coisa é certa: não devemos esquecer a nossa condição de humanos. Por muito que a tecnologia nos facilite o trabalho e a vida de uma forma geral, não podemos descurar a nossa natureza intrinsecamente social, nem o importante contributo da Psicologia para esta fase.

As explicações são da psicóloga Laura Alho, da MIND – Psicologia Clínica e Forense.

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