Por Ana Amaro Trindade, Psicóloga Clínica
Carolina N. Albino, Especialista em Ritmos de Sono do Bebé

 

O bebé nasce com diversas competências que se vão desenvolvendo. Sabe-se hoje em dia que a acuidade visual do bebé recém-nascido é máxima a uma distância de cerca de 20 cm, a que separa o rosto da mãe do bebé quando está a mamar, e que mostra, desde o nascimento, preferência pela voz da mãe, porque a ouviu enquanto esteve na barriga. Estas competências, entre outras, facilitam a ligação entre a mãe e o bebé e promovem o estabelecimento da relação entre ambos, que é a base da aprendizagem para o bebé.

 

No início, o bebé precisa que a mãe (ou cuidador principal) lhe “filtre” o mundo, pois a primeira forma do bebé pensar é “sintonizar” com o que a mãe lhe transmite. Os afetos e as emoções coconstroem-se - é a partilha de afetos na relação mãe-bebé que vai permitir que o bebé forme a sua vida afetiva e emocional pessoal, como afirma Bernard Golse, Pedopsiquiatra e Psicanalista. Assim, não é possível pensar na questão das emoções do bebé sem pensar na interação que tem com os seus pais. Daí a importância da postura destes enquanto cuidam do bebé – é transmitindo calma e segurança que o bebé interioriza estas emoções.

 

De que forma podem os pais ensinar o seu bebé a acalmar-se autonomamente? Através de medidas como:

 

- Ouvir o bebé quando chora, compreender o desconforto associado ao tipo de choro, para poder responder de forma adequada, não agindo por impulso e não se deixando guiar pelas suas próprias emoções – ansiedade, frustração, etc.;

 

- Responder ao mal-estar do bebé de forma previsível, regular e também lógica. Por exemplo, se o bebé já se acalmou não faz sentido continuar a dizer que está tudo bem incessantemente. Por outro lado se o bebé está a chorar não faz sentido imitar o tom do choro;

 

- Mostrar-se tranquilo, otimista e confiante, estando atento à expressão facial que transmite e à postural corporal que demonstra, respirando de forma profunda, calma, fazendo longas inspirações e expirações, e valorizando o bebé quando imita este comportamento;

 

- Evitar perturbar o bebé com movimentos bruscos, agarrando-o de forma confortável e segura (não abanando);

 

- Falar-lhe de forma serena e espaçada. A voz é uma chave importante para acalmar o bebé, quando o tom favorece a calma. Pode ser um método ainda mais poderoso que qualquer outra solução física para acalmar.

 

É importante que os pais se consciencializem que acalmar um bebé pressupõe fazê-lo de modo que o bebé não tenha dificuldade em reproduzir esse comportamento no futuro, caso contrário não estará a aprender a acalmar-se. Alguns exemplos comuns que não ensinam um bebé a acalmar-se autonomamente são abanar/embalar/agitar o bebé (vê o mundo aos pulos, o que aumenta o estímulo visual), ser distraído com um brinquedo, ou pô-lo a ver televisão/iPad/telemóvel.

 

As nossas vivências atuais estão a empurrar os pais a usar aparelhos de tecnologia para substituírem o mais importante. Mal o bebé nasce já está a ser entregue a estratégias robotizadas de acalmar, que não passam por um aprofundar da relação, um aprofundar do laço de confiança com os pais. Usam-se sons digitais, cadeiras trepidantes, imagens luminosas num iPad ou telemóvel, secadores de cabelo, aspiradores, etc. No entanto, o bebé não consegue desenvolver a articulação destas estratégias sozinho, e precisa de saber como se faz para acalmar o batimento cardíaco para conseguir adormecer.

 

O bebé tem uma tendência natural para a procura de homeostasia, ou seja, para adquirir mecanismos de regulação que lhe permitam manter-se num estado isento de tensões. No entanto, todos os bebés são diferentes e nem todos se acalmam da mesma maneira ou com a mesma facilidade. Não existe uma fórmula única que resulte com todos os bebés. Cabe aos pais descobrirem quais as metodologias que melhor se adaptam aos seus filhos, tendo em conta as características individuais destes.

 

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