Por Carolina N. Albino

Especialista em Ritmos de Sono do Bebé

 

Dia após dia, adormecer tranquilamente pode tornar-se difícil sem também uma prevenção de cólicas. É a partir daqui que o sonho de ensinar o bebé a dormir sem artifícios pode “cair por terra” para muitos pais, em especial ao final do dia.  A imaturidade digestiva é uma realidade, no entanto, não é sempre a causa da continuidade das cólicas, especialmente em bebés de termo. Ainda assim, as cólicas no início de vida de um bebé são a causa número um para se começar como não se deseja continuar, no campo do sono.

 

É uma predisposição humana, a de acumular cansaço e fome ao final do dia. É a altura do dia onde o nosso corpo está em maior desgaste, quando mais envelhecem as nossas células; quando, por exemplo, perante uma ligeira condição febril, ela se tende a agravar, e uma ligeira dor tende a intensificar-se e quando por exemplo, o leite materno assume menos concentração calórico-nutritiva. O mesmo (e até maior) desgaste verifica-se nos bebés. Com a agravante que são mais sensíveis e ainda não dominam o autocontrolo físico e emocional.


Os bebés cansam-se 66% mais que um adulto, o que inevitavelmente tem as suas consequências especialmente ao final do dia. O período de maior desgaste começa a observar-se a partir aproximadamente das 17:30h, sendo entre as 18h e as 20:30h o pico do maior desgaste observável (podendo intensificar-se cada vez mais, caso o bebé não esteja a descansar entretanto ou a alimentar-se). Isto é algo observável tanto nos bebés recém-nascidos através das aparentes cólicas, como em bebés mais crescidos através de rabugice e mais estados de choro, dificuldade em acalmar para dormir, bem como nas crianças através de birras e desconcentração. No entanto, à medida que vão crescendo vai diminuindo a sua necessidade de horas de sono, o que também os vai fortalecendo face ao excesso de cansaço acumulado típico do final do dia. Daí que sem outras medidas, só por essa razão, as cólicas tendem a melhorar ou a ganhar outro significante.

 

No entanto, é comum os pais verem as cólicas melhorar dia após dia ao ponto de desaparecerem completamente quando orientam o bebé numa rotina adequada que respeite o seus “timings” de limite, antes do desgaste de extremo - dormir no momento certo e na duração certa, e alimentação reforçada, num intervalo menor, ao final do dia.

 

Eis a combinação de duas recomendações para prevenir e/ou extinguir as cólicas:

 

1 - Rotina de intervalo reduzido ao final do dia

Sesta de final do dia – “Reboost de equilíbrio”:

Mesmo tendo dormido as sestas supostas e de tempo ajustado durante todo o dia, inevitavelmente o bebé vai acumular cansaço neste período. É por isso recomendável que o bebé possa fazer uma sesta, ainda que rápida que o prepare para terminar o dia, sem excesso acumulado de cansaço - um “reboost” (e pode bastar pouco mais que um ciclo de sono - 45m, a máximo 1h). Afinal estas cólicas não eram mais do que um “inesperado” acumular de cansaço (e também inesperadamente, de fome). Ao fazer uma sesta do final do dia vai conseguir-se:

 

- Proteger o excesso de cansaço que inevitavelmente se acumula - agitação, tensão, consumo rápido de energia e acréscimo de fome;

 

- Promover uma alimentação de maior qualidade e quantidade (depois de dormir esta sesta o bebé estará mais calmo para mamar mais, melhor e engolir menos ar);

 

- Vai promover a calma necessária para poder adormecer mais tranquilamente quando for dormir à noite (o sono potencia o sono). A calma que provém de ter estado a dormir, vai evitar que a situação se descontrole quando for novamente acalmar para dormir, após mostrar os sinais de sono;

 

- Vai evitar o descontrolo físico e emocional, a espiral de choro e a tensão abdominal.

 

O intervalo de tempo acordado em qualidade, sem cansaço, após esta sesta, para um bebé pequeno é menor do que a maior parte das pessoas imagina. O bebé cansa-se mais depressa neste período, ou seja vai do cansaço à exaustão em menos tempo. Será importante que se possa proteger o bebé de superestímulos nesta fase do dia.

Intervalo reduzido entre refeições no final do dia: “Cluster Feeding”

Se, por exemplo, o intervalo durante o dia tem sido de 4 horas entre refeições, ao final do dia deve ser reduzido de forma a evitar o extremo de desconforto gerado pelo inesperado acumular de fome do final do dia. Ao encurtar o intervalo vai evitar que o bebé esteja num extremo de fome e mame/se alimente sem “sofreguidão”, evitando assim o engolir de ar. Promove-se que possa mamar assim, com mais concentração, tranquilidade e maiores quantidades - essenciais para a preparação da noite. Muitas vezes os pais desconhecendo esta predisposição, poderão atrasar a alimentação para o esperado intervalo de alimentação típico, contribuindo involuntariamente para uma complicação na capacidade de o bebé estar calmo para comer (e comer menos e pior), e mesmo depois para adormecer ou se manter a dormir.

 

2 - Identificar e tratar de eventuais contraturas intrauterinas e extrauterinas (impercetíveis aos olhos dos pais mas que também podem passar despercebidas a alguns Pediatras)

 

A maior parte das pessoas ainda desconhece a existência destes pequenos “desequilíbrios” da estrutura músculo-esquelética muito típicos nos recém-nascidos. A sua estrutura física é muito maleável e os bebés podem nascer com pequenos “entorses”, pela posição intrauterina, ou mesmo ganhá-los passado pouco tempo depois de nascerem, pela tendência de certas posições. Num corpo pequeno basta um ligeiro torcicolo para gerar cólicas ou intensificar o bolsar em especial uma intensificação neste período referido de maior desgaste. As contraturas mais visíveis são a tendência do bebé virar a cabeça mais para um lado que o outro, por exemplo, mas existem mais. O recurso a um Osteopata Pediátrico será o recomendável como prevenção e estabilização destas tendências musculares desconfortáveis, que podem afetar a eficiência e qualidade da amamentação assim como geram desconforto físico e cólicas.

 

Uma rotina de sono ajustada durante o dia (na distribuição e duração certa em especial para o período crítico do dia), combinada com uma redução do intervalo de alimentação ao final do dia, pode bastar para extinguir completamente as “cólicas” (mas apenas se o bebé dormiu o suposto durante as sestas do resto do dia, de outra forma a rotina específica neste período pode não bastar pois o bebé poderá ter mais cansaço acumulado que o normal). Após a adequada e harmoniosa aplicação destas medidas, caso se confirme o aparente desconforto físico, sugere-se a consulta de Osteopatia (Terapia manual que permite detetar a causa de uma destabilização musculo-esquelética, restaurando a capacidade de auto-reparação do bebé).

Fins de dia sem cólicas são uma realidade possível se combinar de forma adequada estas recomendações sugeridas. Torna-se viável começar bem no campo do sono e não criar de início, hábitos indesejados afectos ao sono e sua continuidade desejada, que os pais não vão querer ver no futuro, a médio ou longo prazo.

 

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