Os mitos populares têm vindo a comprometer os bons hábitos afetos ao sono do bebé e a sua consolidação desde cedo. A maioria destes mitos subestimam ou interpretam mal a capacidade de aprendizagem que, desde cedo, o bebé tem. Estes mitos têm viajado no tempo ao longo de décadas e gerações e causado algo, tão visível em Portugal, como a crise de sono que atualmente se observa em bebés e crianças, ainda que, obviamente, não seja esta a causa exclusiva.

 

Mito: “Deve ensinar-se um bebé a dormir sempre com luz durante o dia, para que saiba distinguir o dia da noite e perceba quando deve dormir seguido”.

 

É verdade que um bebé nasce com um relógio biológico de 24h a definir (em função dos ritmos de alimentação, atividade e sono) e que a definição dia/noite parte da vivência e dos hábitos que adquire no dia-a-dia. No entanto, mesmo com os melhores esforços (através deste mito), caso não se oriente o bebé num seguro e sólido desmame noturno (através de uma rotina ajustada que potencie a regulação de ritmos), a noite continua a ser “território de risco” relativo ao despertar (sendo a fome apenas uma das causas iniciais do enraizamento do hábito de despertar noturno).

Uma coisa é o bebé compreender a diferença entre a noite e o dia, que na verdade, o faz desde muito cedo através de determinadas referências (barulho exterior, luz natural, etc.) outra coisa é ser ensinado, de forma segura, a dormir a noite seguida, desde cedo sem retrocessos. Existem muitos pais que, mesmo conseguindo mostrar uma grande diferença aos seus bebés entre a noite e o dia (por exemplo, pondo sempre o bebé a dormir as sestas na sala, com barulho e muita luminosidade) podem não estar a ensinar de forma congruente os padrões da noite - como sendo um momento exclusivo onde nada deve acontecer, apenas dormir.

 

Claro que não se espera que um bebé recém-nascido tenha capacidade de dormir a noite seguida sem se alimentar, mas a preparação para que tal venha a acontecer, depende muito do padrão do sono diurno combinado com adequados ritmos de alimentação e atividade ajustados a cada fase. Então, o esforço de usar luz e estímulos como condições por excelência para por o bebé a dormir durante o dia, com a melhor das intenções, pode não ajudar à consolidação de noites sem despertares recorrentes. Para além disso, vai dificultar a capacidade do bebé aprender a dormir sestas (de tempo ajustado) durante o dia.

 

A distribuição, duração e tipologia do sono diurno está diretamente relacionado com a qualidade e até continuidade do sono noturno. Cada sesta diurna é uma oportunidade de ouro para ensinar e consolidar aprendizagem neste campo. A noite não é território de aprendizagem por excelência, mas sim o momento de por em prática, de forma mais continua, o que se exercitou várias vezes durante o dia - dormir.

Os bebés aprendem o que esperar, seja de dia ou de noite, com um conjunto de referências e respostas dependentes de uma boa regulação dos ritmos de alimentação, atividade e sono durante o dia, uma rotina diurna ajustada, que trabalhe referências e ensine a cadência, sequência de eventos e que facilite um claro entendimento do que deve acontecer de dia e, quando este chega ao fim, qual a postura esperada de noite. E reforço que à noite não deve haver “acontecimentos” - mudanças de local, ou respostas que baralhem o bebé do pretendido, que será dormir apenas. Mas se à noite, e a partir de certo peso, não se deve acordar um bebé, será necessário compreender a importância que poderá ter acordar um bebé que dorme demais e de forma seguida durante o dia, a par da sua correta regulação do relógio biológico, o que protege também a noite.

Não sugiro “breu” e absoluto silêncio desde cedo, pois não é real, mas um ambiente protegido a partir de certa idade, ou para certo tipo de temperamentos, é a melhor forma de consolidar os esforços na aprendizagem de dormir sestas de tempo necessário. É disso que o bebé mais precisa - de se habituar, como aprender a reconhecer e adaptar-se às referências de redução de estímulo, acalmar e abstrair, melhorando a sua capacidade de perceber quando é hora de ir dormir e não hora de actividade.

 

A partir de certa idade os bebés começam a influenciar-se mais com o ambiente envolvente, o que é óptimo sinal, mas a tarefa de adormecer e continuar a dormir por três ou quatro ciclos circadianos (em cada sesta), será dificultada, em especial caso haja demasiadas referências a actividade e hábitos enraizados nesse sentido.

 

Um bebé precisa estar calmo para adormecer de forma mais autónoma, e se tipicamente o recém-nascido adormece sozinho com luz e muitos estímulos à sua volta, à medida que está mais desenvolvido, precisa de ser protegido visualmente de estímulos. Há mesmo uma idade/fase de desenvolvimento que só com escuro o bebé consegue adormecer (não esquecendo que a produção de melatonina aumenta com menos luminosidade). Caso se tenha perdido meses a insistir que o bebé durma com luz, na sala (por exemplo), é a isso que o bebé se habituou - não só o bebé terá razões para resistir ao ser posto num quarto meio escuro sem alusões a brincadeira, como a sua associação directa ao sono tem mais de agitação do que uma postura que beneficie a calma e a abstracção. Eventualmente nessa altura, já passaram meses em que não se consolidaram sestas de tempo ajustado e o bebé poderá estar habituado a dormir menos do que precisa (do que o necessário para o seu metabolismo), influenciando a noite, mas também o número total de horas de sono necessárias à sua fase de desenvolvimento.

O sono do dia (sestas) tem uma enorme importância no sono da noite e assim, compensa ensinar a dormir de dia com as referências certas (e que não se prendem apenas com o local e com a luz). Deve-se sistematizar a aprendizagem de acalmar, mudar de ritmo e de referências, (que desde cedo, facilitam o auto-controlo), não pressupondo silêncio absoluto e o escuro como breu, mas sim uma protecção do ambiente enquanto o bebé consolida esta aprendizagem. Depois, com meses de consolidação, o bebé terá a capacidade de por em prática esta aprendizagem noutros ambientes (se lhe for dada essa oportunidade) e, como o trabalho mais importante, o treino da postura de abstração e calma (no adormecer) já está sólido, será mais fácil para o bebé, mediante alguns sinais e ações dos pais, dormir por exemplo, num carrinho, na praia, ou noutro qualquer ambiente.

 

Carolina Nogueira Albino
Especialista em Ritmos de Sono do Bebé