Basta sorrir para ser mais feliz e até um sorriso amarelo o fará sentir-se melhor. A tese é defendida por uma nova investigação levada a cabo na University of South Australia, em Adelaide, na Austrália, tornada pública pela publicação especializada Experimental Psychology. "Se os seus músculos lhe indicarem que está feliz, terá tendência a ver o mundo que o rodeia numa perspetiva mais positva", garante Fernando Marolejo-Ramos, especialista em conhecimento humano e artificial, um dos autores do trabalho científico.

Não é o único. Há estudos que comprovam que as pessoas felizes são mais produtivas, têm casamentos mais longos, mais amigos, revelam níveis mais baixos de stresse e sentem menos dor. São, ainda, mais criativas, ativas, autoconfiantes e controladas, possuem uma maior capacidade de adaptação e vivem mais. A boa notícia é que a felicidade não se sustenta apenas em parâmetros de riqueza, saúde e educação. Ela radica também em atitudes perante a vida. E sobre isso qualquer um de nós pode atuar.

As dúvidas de sempre

Nada mais natural que andarmos todos obcecados com a felicidade, garante Daniel Nettle, professor de psicologia na Universidade de Newcastle e autor do livro "Happiness: The science behind your smile". "É inevitável. Fomos naturalmente programados para procurarmos um ambiente óptimo para vivermos e tendemos a usar a felicidade como indicador", garante. Seria eu mais feliz se fizesse isto ou fosse para ali ou tivesse aquele tipo de relação? São muitas as vezes em que enfrentamos esta dúvida.

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Bem vistas as coisas, as dúvidas em torno do tema não são de agora, como demonstra o testemunho de Nicholas White, professor de filosofia na Universidade da Califórnia, autor do livro "A brief history of happiness". Quando lhe perguntámos o que mudou na busca da felicidade desde o tempo de Platão, a resposta foi perentória. "Os filósofos gregos tendiam a acreditar que estabelecemos, desde uma idade precoce, um conceito definitivo, estático, de felicidade a que depois se tentava corresponder. Inversamente, hoje acreditamos que o nosso conceito é dinâmico. Evolui ao longo do tempo, muda no decurso da nossa vida", refere.

Platão ou Sócrates também estavam longe de imaginar que a felicidade é em boa parte, cerca de 50%, determinada pelos nossos genes, capazes de influenciar aspetos fulcrais como a nossa mestria em lidar com o stresse. Significará isso que estamos programados para sermos felizes ou infelizes? Longe disso! A maioria dos investigadores que estudaram o assunto ao longo das últimas décadas acredita que cada um de nós possui, intrinsecamente, um determinado nível de felicidade que pode ser dilatado ou encolhido.

A(s) essência(s) da felicidade

Martin Seligman, ex-presidente da American Psychological Association e o grande propulsor da psicologia positiva, é exatamente um dos maiores defensores da ideia de que está ao nosso alcance esticar, de forma consistente, o bem-estar. No seu site, explica que a felicidade está segmentada em três domínios cientificamente mensuráveis e sobre os quais podemos (e devemos) arquitetar a nossa vida:

- O primeiro, "The pleasent life", é o mais frágil de todos. Trata-se de uma fatia de felicidade assente na vivência do máximo de emoções positivas possíveis.

- O segundo domínio, "The engaged life", pressupõe a descoberta das nossas forças, talentos e virtudes, assim como o empenho em áreas como o trabalho, as relações sociais e os afetos.

- O terceiro, "The meaningful life", prende-se com a capacidade para nos entregarmos e servirmos algo que acreditamos ser superior a nós mesmos.

O segredo de uma vida genuinamente feliz, Martin defende Seligman, encontra-se exatamente na nossa habilidade de conjugarmos cada um destes pilares e de adotarmos estratégias tão simples como recordar à noite três acontecimentos positivos que nos aconteceram durante o dia. Se o fizer, para além de estar a exercitar o cérebro, tenderá a adormecer com memórias prazerosas, daquelas que vai gostar de guardar para mais tarde recordar, assegura o reputado especialista norte-americano, nascido em 1942.

O perfil das pessoas felizes

A essência da felicidade também se descobre olhando para os outros e seguindo o seu exemplo. O que podemos nós aprender com os felizes? Segundo os cientistas que passaram as últimas décadas a debruçar-se sobre o assunto, podemos aprender e muito. Antes de mais, a importância de cultivar um elevado grau de envolvimento com os outros e a capacidade de se autoavaliarem sem caírem na tentação de se compararem compulsivamente com quem está ao lado são duas realidades que (n)os influenciam.

"Todas as pessoas felizes têm em comum o facto de não serem reféns do prazer, de controlarem os desejos, de conseguirem transcender a razão através da imaginação e serem suficientemente fortes para fazerem face ao sofrimento que marca a vida de qualquer um", respondeu-nos, há uns anos, Richard Schoch, docente de história da cultura na Universidade de Londres, autor do livro "The secrets of happiness: Three thousand years of searching for the good Life", publicado originalmente em 2008.

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A verdadeira felicidade, conclui o especialista, "é feita da noção de que, embora não sejamos capazes de controlar os acontecimentos ou a forma como os outros se comportam, podemos sempre controlar as nossas reações", defende. De facto, investigações conduzidas por Sonja Lyubomirsky, professora na Universidade de Standford, concluíram que as pessoas felizes reagem aos acontecimentos e às circunstâncias de forma mais positiva e adaptada. "As infelizes tendem a remoer acontecimentos negativos, o que afeta as atividades cognitivas e pode reforçar a infelicidade", adverte. Um ciclo vicioso, portanto. Não há como o negar.

A realidade é mesmo essa. Acaba por haver um ciclo vicioso que nos envolve, tanto nos pode empurrar mais para a felicidade ou para a infelicidade. Não é por acaso que Tal Ben-Sahar, professor de psicologia positiva na Universidade de Harvard, nos EUA, aborda o tema da gratidão nas suas aulas. Dados deste ramo da psicologia revelam que indivíduos que exprimem gratidão regularmente são mais otimistas, têm uma saúde mais robusta, sentem maior bem-estar e avançam facilmente para os seus objetivos.

Aliás, estudos liderados pela investigadora Sonja Lyubomirsky, revelados há uns anos pela revista Time, demonstraram que manter um diário sobre aspetos pelos quais nos sentimos gratos é um verdadeiro rastilho da felicidade, recomendando a escrita de um. Um outro trabalho científico levado a cabo pela mesma investigadora, envolvendo mais de 275.000 pessoas, põe em causa a ideia de que é o sucesso que conduz à felicidade. Vire antes a frase ao contrário. As pessoas felizes alcançam mais facilmente o sucesso.

"Um estudo realizado pela Universidade UC Davis [na Califórnia] demonstra que os mais bem sucedidos cientistas e artistas também foram os que falharam mais vezes", sublinha Tal Ben-Sahar. No campo dos afetos, investigadores da Universidade de Cornell, em Nova Iorque, nos EUA, também chegaram à conclusão que, quanto mais forte for o compromisso que assumirmos numa relação amorosa, mais felizes seremos. Esta teoria é defendida por muitos outros especialistas e investigadores um pouco por todo o mundo.

O problema do falso contentamento

Sabia que uma vida recheada de atividades que desafiem as nossas capacidades, que nos façam perder a noção do tempo e nos ajudem a libertar a mente de preocupações, seja a fazer tricô ou a tocar piano, será, concerteza, uma vida mais feliz? No trilho da felicidade existem, ainda assim, muitos becos sem saída. "É um mito acreditar que a felicidade é o mesmo que prazer, que é algo a que temos direito, algo que recebemos e não algo que criamos", afirmou mesmo Richard Schoch em declarações exclusivas à revista Prevenir.

"Da mesma forma, é um erro pensar que conseguirmos aquilo que ambicionamos nos tornará pessoas mais felizes a longo prazo ou que a mudança das nossas circunstâncias [seja uma casa maior, um carro mais potente ou mais dinheiro, só para darmos três exemplos] fará alguma diferença", alerta Daniel Nettle. A verdade, escrita por Richard Schoch, é que, "primeiro, o nosso vistoso Jaguar concede-nos muito prazer mas, passado um tempo, não nos atrairá mais do que o nosso antigo Volvo", exemplifica o cientista.

A satisfação versus a realização

A realidade está à vista. O ser humano é um indivíduo, por natureza, insatisfeito e tende, por norma, a cansar-se (muito) rapidamente das coisas. Também é o seu caso? Pare para refletir sobre isso! De facto, os estudos demonstram que as atividades que nos concedem felicidade instantânea, como ir às compras, não se traduzem em realização pessoal a longo prazo e que os níveis de felicidade de quem ganhou a lotaria, o Totoloto ou até mesmo o Euromilhões voltam, em média, ao seu ponto de partida no espaço de um ano.

O trabalho de Daniel Gilbert, psicólogo e autor do grande êxito literário "Stumbling on happiness", permitiu constatar que calculamos mal o tempo durante o qual seremos felizes ou infelizes após um evento marcante. Para o bem e para o mal, esperamos que os acontecimentos tenham um impacto mais drástico e duradouro ao nível da felicidade do que realmente acabam por ter. Com a agravante de insistirmos em não aprender com os erros destas previsões. O que, acreditamos, vai deixar de acontecer depois deste artigo...

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