É certo que as urgências têm estado às moscas. A afluência caiu a pique. Motivada pelo medo? Talvez. Motivada pela quebra franca das cadeias de transmissão de outras doenças? Seguramente.

Vamos recapitular. Estamos em abril, um mês primaveril particularmente chuvoso, que, em circunstâncias normais, levaria um enorme número de crianças com sintomas respiratórios ao serviço de urgência. Entre os sintomas de doença alérgica, motivados pela polinização das árvores e plantas e as doenças respiratórias infecciosas, venha o diabo e escolha.

Por isso estaríamos assim: elevada afluência diária, a esmagadora maioria de doentes não graves, sem necessidade de recurso à urgência hospitalar.

Com a pandemia causada pelo vírus SARS-CoV-2, tudo mudou. As pessoas estão efetivamente em casa. O contacto com alergénios caiu e a transmissão de vírus respiratórios que não coronavírus também. Os miúdos estão menos doentes. Sobretudo o grupo das crianças abaixo dos dois anos de idade, cuja imunidade ainda está em fase de ampliação e que, atualmente, estão protegidos dos infantários.

Curiosamente, não é apenas a patologia respiratória que sofreu uma quebra. Os acidentes também: as pessoas não andam tanto de carro, as crianças brincam menos no recreio, há menos patins e bicicletas sem capacete, há menos brincadeiras não vigiadas. Logo, menos cabeças, lábios, queixos e braços partidos. Por isso vos digo, só vantagens, meus senhores!

Esta realidade deveria servir para discutir de forma séria o que pretendemos da saúde infantil em Portugal. Que recursos são realmente necessários? Até que ponto as urgências hospitalares não são depósitos de problemas que nós, enquanto sociedade, criámos? O que é que queremos? Filhos doentes com tempos de permanência na escola que atingem as 12 horas por dia? Ou queremos pais com horários flexíveis, escolas com horários radicalmente reduzidos e uma população infantil mais saudável?

Se há coisa que não poderemos deixar de fazer enquanto sociedade é refletir sobre a adequação do esquema atual das nossas vidas, em que trabalhamos horas incontáveis, em funções desnecessárias, com uma política de presentismo obtusa, para recebermos parcos rendimentos, que gastamos em creches e colégios para receber os nossos filhos com menos de 3 anos (não há resposta pública), que, porque estão expostos, adoecem mais.

Temo bem que o risco de uma segunda onda pandémica não esteja a ser acautelado

O momento atual é de grande clarividência: não só percebemos que temos um sistema de saúde naturalmente à beira do colapso, como percebemos que ficar em casa faz muito bem à saúde.

Por isso mesmo, é com algum ceticismo que assisto à possibilidade de reabertura das creches em maio. Percebo a ideia: crianças pequenas têm pais com menos de 45 anos, logo, um grupo etário com menor risco de COVID-19 grave. Vamos então apostar na imunidade de grupo, garantindo que as pessoas acima dos 70 anos permaneçam resguardadas. Faz algum sentido.

Em relação ao uso de máscaras por crianças na creche, depois de rir sem parar durante aproximadamente 17 minutos, acho que pode ser uma óptima estratégia para não perderem a chucha. Ver pelo lado positivo... Ou tentar! No entanto, temo bem que o risco de uma segunda onda pandémica não esteja a ser acautelado. E mesmo que essa onda não se verifique, vamos ter uma inversão da situação nas urgências: vamos voltar às urgências cheias de miúdos ranhosos, sem doença grave. Porque têm ranho, as creches vão mandá-los para casa e não vão aceitá-los de volta a não ser que sejam COVID-19 negativos. Consequência? Vamos testar mais, os pais ficam em casa com filhos doentes, os pais adoecem, temos absentismo laboral na mesma, mas com agravamento dos subsídios de incapacidade ou de assistência familiar. Ou seja, medida perfeitamente inútil do ponto de vista económico, agravamento dos gastos da segurança social e aumento da afluência às urgências... E tudo isto para quê? AHHHHH, já me lembro, pela imunidade de grupo!

E em cima disto tudo, há doentes graves na mesma. Doentes mesmo doentes. E esses são duplamente prejudicados: pela pandemia e pelo aumento de transmissão de outras doenças infecciosas. Habitualmente estes doentes chegam a urgências lotadas (esse é o contexto habitual). No entanto, em pleno contágio da COVID-19, chegam à urgência do hospital e vêm-se enredados numa teia de suspeição que em nada facilita a tomada de decisões diagnósticas e terapêuticas que necessitam. A pior coisa que pode acontecer a um doente grave é ser suspeito de COVID-19. Mesmo que no fim não se concretize. O doente precisa de fazer uma TAC? É suspeito? Lá começa o relambório para o levar à TAC. E se habitualmente seria assunto para estar terminado em 20-30 minutos (reparem, a TAC em si demora 5 minutos, se tanto), agora temos aqui assunto para duas pequenas horinhas.

Somos uma grande omelete, com muito queijo, fiambre, tomate e cebola, mas pouquíssimos ovos. E sem ovos não há como segurar a omelete

Não conseguimos ser tão ágeis como antes. Isto é ponto assente. Se isto tem um impacto nos doentes? Tem sim. Se isto vai ter ainda mais impacto, quando as creches abrirem e ficarmos com mais doenças não COVID-19? De certeza.

Da mesma forma que as mulheres que engravidaram entre julho e agosto de 2019 não tinham qualquer ideia que se veriam privadas de acompanhantes na hora do parto ou, caso se infetassem com uma doença que ainda não existia, seriam separadas dos seus bebés nos primeiros dias/semanas de vida, também os doentes graves não têm culpa que esta pandemia esteja a dificultar os cuidados que merecem. Digo dificultar. Mas em algumas situações, esta pandemia compromete mesmo os cuidados a estes doentes. Abrir ao contágio uma franja da população, que apesar de baixo risco, vai entupir o sistema lentificado parece-me um contrassenso.

E não, o sistema lentificado não é culpa dos profissionais de saúde. Os equipamentos, os cuidados com os circuitos, a limpeza e desinfeção são protetores e não devem ser nunca postos em causa. Mas nós somos os mesmos a acudir a dois fogos. Não nos multiplicámos. Haverá espaço para fazer melhor, mas acredito que no Serviço Nacional de Saúde (SNS) não há espaço para fazer mais. Somos uma grande omelete, com muito queijo, fiambre, tomate e cebola, mas pouquíssimos ovos. E sem ovos não há como segurar a omelete. Estamos a viver uma pandemia enxertada em anos – décadas – de desinvestimento de algo que é de todos nós, para todos nós. Se é para segurar isto, então, precisamos de mais ovos. Se é para segurar isto, com os ovos que temos, mas com as creches abertas, acho mesmo que precisamos de um pequeno milagre.

Por isso, sinto a necessidade de alertar que há vida – grávidas, mães, partos, bebés, transplantes, hemodiálise, cirurgias oncológicas, trauma, doentes crónicos que precisam de ser compensados - para além da COVID-19 e que não podemos recuar na celeridade e qualidade dos cuidados que oferecemos, pelo risco de morte colateral e injustificável. Porque pior que morrer de COVID-19 é morrer da mesmíssima doença de sempre: à espera de cuidados.

Um artigo da médica Joana Martins, pediatra na Unidade de Cuidados Intensivos de Pediatria no Hospital D. Estefânia, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central.

Série

- Episódio 1: Os preparativos

- Episódio 2: Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão

- Episódio 3: Calor, nevoeiro, chichi, comichão... Enfim, parece tortura chinesa

- Episódio 4: A pandemia pôs o dedo na ferida (sem luvas)

- Episódio 5: Somos todos heróis, mas há uns mais do que outros

- Episódio 6: Sem ovos não há como segurar a omelete

- Episódio 7: Nós, os profissionais de saúde, também temos medo

- Episódio 8: O problema dos bebés que nascem de mães suspeitas ou confirmadas para a COVID-19

- Episódio 9: Os meus vizinhos são uns loucos irresponsáveis. Denuncio-os?

- Episódio 10: E ao fim de 63 dias, as creches reabrem

- Episódio 11: Estaremos preparados para a maratona COVID-19 que aí vem?

- Episódio 12: Máscaras "à la mode" para todos os gostos. Qual é a sua?

- Episódio 13: Sem vacina à vista, infetarmo-nos faseadamente será a solução?

- Episódio 14: Que sociedade é esta que só para por causa de uma pandemia?

- Episódio 15: Trabalhamos ataviados como apicultores. Qual o impacto do vírus na prática médica?

- Episódio 16: O que sabemos sobre a vacina da BCG na COVID-19?

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