Num discurso pessoal, por vezes humorístico, a pediatra Joana Martins conta-nos como é o dia a dia de uma profissional de saúde em plena pandemia do vírus SARS-CoV-2. Este é o décimo primeiro episódio:

Um pouco por todo o lado proliferam os relatos de profissionais de saúde apreensivos sobre a atual mudança de estratégia. Retomar, faseadamente, a vida tal como ela era não se faz sem algum nível de apreensão e ansiedade.

O meu exemplo não é propriamente o mais espetacular, ou o mais ilustrativo, mas gostava de relatar as maiores dificuldades que senti nestes últimos dias. Somos uma família de profissionais de saúde, os dois médicos, com especialidades diferentes e temos dois filhos, um com 4 anos e outro com quase 2. Com o encerramento das escolas, combinámos os nossos horários para nos mantermos a trabalhar.

No início, senti que estava a tomar a decisão errada. Muitos dos meus colegas optaram por separar-se dos filhos, pelo medo do contágio. Fui talvez egoísta, porque sinceramente não consegui prescindir do meu oásis de bem-estar no meio da tempestade. É também pelos miúdos, os meus, que faço o que faço. Eles dão sentido à minha vida profissional. Separar-me deles seria um preço demasiado alto. Não sei se conseguiria manter a sanidade mental no meio disto tudo.

À medida que os turnos se foram acumulando, percebi que trabalhar de noite, passar os doentes, correr para casa, render o marido e permanecer acordada com os miúdos, alimentá-los, brincar com eles, ensinar-lhes alguma coisa engraçada, foi o maior desafio que já enfrentei. Uma noite, faz-se. Duas noites, fazem-se com custo. Três noites na mesma semana, bem, cá vos digo, uma pessoa arrasta-se. E não sou só eu que faço isto.

Centenas, milhares de profissionais de saúde têm vidas assim. O problema é que com a adrenalina de reorganizar tudo, enfrentar tudo, segurar todas as pontas dentro da lógica de preparação para a catástrofe, tudo se faz, tudo se organiza, tudo se aguenta. Mas as medidas de confinamento tomadas pela tutela mudaram o jogo. Controlaram o contágio e conseguimos efetivamente aplanar a tal curva que tanto falámos. Mas a verdade é que, com o aplanamento da curva, deixámos uma corrida de velocidade, para nos instalarmos numa maratona. E a preparação não é a mesma.

O que temos pela frente serão largas semanas de circuitos separados, doentes COVID-19 positivos e doentes COVID-19 negativos, hospitais a funcionar a dois níveis, com a agravante de termos de retomar, progressivamente, a atividade normal. E não preciso de repetir: antes da pandemia provocada pelo vírus SARS-COV-2, os recursos já eram escassos. Andávamos a trabalhar nas lonas há anos: se alguém adoece, se alguém engravida, se alguém se desvincula, são tudo golpes que amparamos com o corpo... E agora, este serviço já no limite da sua função, tem de se preparar para semanas da maratona COVID-19. Com que capacidade? Que medidas foram realmente tomadas pelo Ministério da Saúde para nos preparar para os próximos meses? Que reforços estarão programados?

Não, não falo de encaminhar os doentes que precisam de uma resposta do SNS para o privado. Falo mesmo de uma reestruturação que permita dar uma ótima resposta aos doentes, sem subcontratar a preço de ouro. Quantos profissionais de saúde foram efetivamente contratados?

Li recentemente num artigo de opinião que a forma mais fácil de não garantir os direitos de um grupo de profissionais é transformá-los em heróis. Os heróis não têm medo, os heróis não reclamam melhores condições para executar as suas ações heróicas... Uma boa ação de um herói não é obviamente remunerada. Eu não sou nenhuma heroína, na mesma medida em que não sou mártir. Eu aguentei um mês de sprint, 11 noites de trabalho seguidas de 11 dias de babysitting sob privação de sono (decisão minha, não desminto).... Fora os dias que acabavam depois das 22h00 em que chegava a casa e os miúdos já estavam na cama, sossegados, a dormir.

Têm sido dias difíceis, semanas difíceis, mas temo bem que caminhamos para meses muito difíceis. Quantos de nós vão aguentar a este ritmo?

Um artigo da médica Joana Martins, pediatra na Unidade de Cuidados Intensivos de Pediatria no Hospital D. Estefânia, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central.

Série

- Episódio 1: Os preparativos

- Episódio 2: Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão

- Episódio 3: Calor, nevoeiro, chichi, comichão... Enfim, parece tortura chinesa

- Episódio 4: A pandemia pôs o dedo na ferida (sem luvas)

- Episódio 5: Somos todos heróis, mas há uns mais do que outros

- Episódio 6: Sem ovos não há como segurar a omelete

- Episódio 7: Nós, os profissionais de saúde, também temos medo

- Episódio 8: O problema dos bebés que nascem de mães suspeitas ou confirmadas para a COVID-19

- Episódio 9: Os meus vizinhos são uns loucos irresponsáveis. Denuncio-os?

- Episódio 10: E ao fim de 63 dias, as creches reabrem

- Episódio 11: Estaremos preparados para a maratona COVID-19 que aí vem?

- Episódio 12: Máscaras "à la mode" para todos os gostos. Qual é a sua?

- Episódio 13: Sem vacina à vista, infetarmo-nos faseadamente será a solução?

- Episódio 14: Que sociedade é esta que só para por causa de uma pandemia?

- Episódio 15: Trabalhamos ataviados como apicultores. Qual o impacto do vírus na prática médica?

- Episódio 16: O que sabemos sobre a vacina da BCG na COVID-19?

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