Habituámo-nos, desde pequenos, a esperar pelo último mês do ano e a sonhar com o Natal, nem que fosse pela expetativa de abrir os presentes, um comportamento que gera nervosismo, stresse e ansiedade. E se não houvesse Natal? Sim, se fosse apagado das nossas agendas, da nossa memória, das nossas referências culturais e espirituais? Seriamos nós mais áridos e menos stressados do ponto de vista emocional e psicológico?

Nesta frenética contagem decrescente para o dia 25, do último mês de todos os anos, alguma vez pensou nisso? Talvez não, mas alguns americanos já refletiram sobre o tema e, segundo um inquérito divulgado pela revista Newsweek, são muitos os que defendem que esta é uma época basilar para a existência e prática de alguns valores, que vários estudos confirmam até ter efeitos positivos práticos em termos do nosso bem-estar.

Do nosso bem-estar, da nossa saúde mental e até da nossa saúde física, nomeadamente cardiovascular. Mas vamos aos números que comprovam esta tese. Cerca de 61% dos inquiridos estão convictos que, se Jesus Cristo não tivesse existido, seríamos menos bondosos e são vários os estudos internacionais que asseguram que ser simpático e solidário tem efeitos benéficos em termos de saúde mental.

Perto de 47% não têm dúvidas de que haveriam mais guerras no mundo, 66% garantem que a caridade e a solidariedade estariam em decadência e 58% dizem que haveria menos tolerância. Concorde-se ou não com as respostas dos inquiridos, podemos juntá-las e sintetizá-las numa só expressão, que é precisamente... espírito de Natal! Este foi tema da conversa que tivemos com Vítor Rodrigues, psicólogo.

A metáfora que norteia a alma humana

Ponhamos de parte as nossas convicções religiosas e a hiperatividade consumista em que mergulhamos por esta altura, que provoca anualmente situações de ansiedade e stress, para interpretar o espírito de Natal, do ponto de vista simbólico, através dos olhos da psicologia. "O nascimento de Cristo pode ser encarado como o símbolo da expansão da alma humana, do interior do ser humano", refere Vitor Rodrigues.

"Nesse sentido, o Natal é uma época de otimismo e generosidade", sublinha o especialista. O psicólogo afirma ainda que «o nascimento de Cristo acontece num local humilde e recatado que simboliza o trabalho interior profundo do ser humano em busca da sua própria alma. A gruta e o parto, que implica calor, recato e recolhimento, podem ser interpretados da seguinte forma", analisa Vítor Rodrigues.

"Para o ser humano se encontrar a si mesmo, no seu princípio espiritual mais profundo, tem de recolher-se interiormente", acrescenta o especialista. Mas o que é que acontece na prática? Vivemos a antítese do princípio da introspeção. De acordo com o psicólogo, "embora muitas pessoas consigam preservar o espírito de Natal, o ambiente atual é espaventoso, de exterioridade e opulência".

Um ambiente onde o stresse e a azáfama das compras deixadas para a última da hora, os preparativos para uma festa que reúne familiares que nem sempre se dão e as muitas solicitações sociais de jantares, lanches e cafés de Natal encontra o ritmo ideal para se instalar, com todos os efeitos nocivos para a saúde que este problema acaba por gerar e que, em muitos indivíduos, acabam por se acentuar nesta altura.

Como lidar com o stresse natalício

Tempo de interioridade. Assim se pode traduzir o Natal no seu estado mais puro. No entanto, como refere Vítor Rodrigues, "em boa medida não se está a tornar uma época de maior generosidade, de humildade ou dádiva pura, mas de interesse e stresse", refere. "Por debaixo da aparente dádiva, há muita frustração e sensação de território invadido", realça ainda o especialista, um observador atento da (nova) realidade.

Aliás, segundo um inquérito realizado pela American Psychological Association, questões ligadas ao dinheiro estão no topo da lista de motivos que mais stresse causam nesta fase do ano, destacando-se também a pressão para comprar prendas, falta de tempo e endividamento com o cartão de crédito. O primeiro passo para não nos deixarmos contagiar por esta pressão é, contudo, mais simples do que possamos pensar.

Passa por tomar consciência do que está a acontecer, "o que implica sabermos filtrar os estímulos excessivos a que estamos sujeitos", defende. Este despertar pode ser conseguido através do recurso a técnicas de interiorização, meditação e relaxamento. A esta estratégia junte ainda o planeamento de objetivos realistas, passe a encarar esta fase do ano como uma oportunidade para se (re)ligar à família e amigos.

As vantagens do amor e da generosidade

Falemos agora de generosidade, um valor exultado nesta época e muitas vezes confundido com a febre dos presentes. Como nos lembra o psicólogo Vítor Rodrigues, "a generosidade é um dos comportamentos típicos do amor". "Implica dádiva, implica irmos ao encontro do outro, tentar compreendê-lo e perceber o que ele precisa", refere. Mas sabia que não são só os outros que ganham quando somos generosos?

Estudos científicos têm vindo a comprovar que a prática do amor, na qual se insere a generosidade, promove não só o equilíbrio psicológico como o físico. Segundo o psicólogo, "há muito que temos a noção de que a privação do amor tem efeitos absolutamente devastadores na formação e equilíbrio do ser humano e sabemos que o amor, quando recebido e partilhado no seio de uma família, promove autoconfiança".

E também "capacidade de autoafirmação", garante o especialista. "Agora, também se sabe que o amor melhora a saúde física", acrescenta o especialista. "Está demonstrado que passar cinco minutos a sentir ou a pensar em amor podem fazer com que o sistema imunitário atue de forma mais eficaz durante várias horas", acrescenta ainda o psicólogo, habituado a lidar com este tipo de problemáticas.

A recompensa do perdão

Outro valor subjacente a esta época é a boa vontade, o perdão, que tantos defendem e apregoam nesta época festiva. E, mais uma vez, não são apenas os outros que beneficiam do facto de sermos capazes de os perdoar. Possivelmente é quem perdoa quem tem mais a ganhar. Como refere Vítor Rodrigues, "o perdão representa um processo necessário à liberdade do espírito humano e à expansão da sua consciência".

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"Se não perdoamos os outros ou não nos perdoarmos a nós próprios, ficamos aferrolhados à nossa memória, a ressentir-nos perante acontecimentos passados e isso aprisiona-nos", refere.

Estagnamos. Não evoluímos. Calculamos que por esta altura esteja a pensar, "pois, sim, tudo isto é muito lindo mas como é que, na prática, se pode perdoar outra pessoa?", questiona o especialista. Não vamos afirmar que seja fácil, mas digamos que o ato de perdoar passa por uma espécie de processo de transferência.

Segundo o psicólogo, implica "compreender que o outro é muito mais parecido connosco do que a nós nos parece. Temos de ter a coragem de mergulhar no nosso interior e de encontrar aqueles aspetos mais obscuros que, com as circunstâncias apropriadas, se crescessem ou se se exteriorizassem podiam fazer de nós iguais ou piores às pessoas a quem não perdoamos". Este Natal, pelo menos, experimente pôr-se na pele do outro.

Texto: Nazaré Tocha com Vítor Rodrigues (psicólogo clínico)

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