Confia nos produtos que compra e que anda a ingerir? É melhor ler as linhas que se seguem! Um estudo publicado no British Medical Journal, também conhecido pela sigla BMJ, voltou a (re)lançar a questão sobre o que andamos a comer e as conclusões são preocupantes. Ao comparar o risco de cancro e alimentação, os investigadores que o levaram a cabo identificaram uma relação entre a ingestão regular de alimentos ultraprocessados e um aumento de risco de cancro de até 12%.

Anthony Fardet, engenheiro agro-alimentar e investigador francês, doutorado em nutrição humana, autor do livro "Halte aux aliments ultra transformés! - Mangeons vrai", "Acabe com os alimentos ultraprocessados - Coma verdadeiro" em tradução literal, publicado pela editora Thierry Souccar Editions, aponta o dedo às (muitas) armadilhas atuais em entrevista exclusiva à revista Saber Viver, criticando os alimentos ultraprocessados e a dieta baseada na composição alimentar.

Para este especialista, a prevenção das doenças crónicas atuais não está nos nutrientes mas, sim, nos alimentos autênticos. Numa época marcada pelas fake news, o especialista gaulês alerta para outro fenómeno que põe em perigo a saúde, a fake food. "Muitos produtos ultraprocessados são vendidos com mensagens de marketing que referem que integram cereais integrais ou que são enriquecidos em ómega-3 que nos levam a crer que são bons para a saúde", adverte o engenheiro agro-alimentar.

Quando se fala em alimentação, englobam-se, habitualmente, os alimentos que são bons e os que são maus para a saúde. A sua visão não é, no entanto, essa?

Essa perspetiva é cientificamente falsa. A visão dualista dos alimentos resulta de uma abordagem reducionista que considera os alimentos como uma mera soma de nutrientes. É preciso ver que comemos alimentos e não nutrientes. O todo é superior à soma das partes. A única perspetiva válida é a intervenção a dois níveis, a quantidade consumida e o grau de transformação.

Isso significa que não há alimentos maus?

Há que interiorizar uma coisa... Qualquer alimento, seja de origem vegetal ou animal, ingerido em excesso e ultraprocessado, torna-se nocivo para a saúde.

Uma dieta baseada nessa visão dualista comporta riscos?

Sim, claro! Todos os regimes com uma abordagem por nutriente ou baseados na ideia dos alimentos bons e maus estão errados. A prova disso é que as doenças crónicas continuam a aumentar. Não será apenas um alimento ou um nutriente isolado que poderá proteger-nos das doenças crónicas mas, sim, um estilo de vida que inclua um regime alimentar complexo e equilibrado.

Que problemas de saúde é que podemos evitar com os alimentos certos?

A maioria das doenças crónicas como a diabetes de tipo 2, obesidade, doenças cardiovasculares e certos tipos de cancro como o colorretal, a perda óssea ou muscular rápida, o declínio cognitivo e a depressão. É certo que a alimentação não resolve tudo, porque são doenças multifatoriais, mas continua a ser o motor mais poderoso e aquele que é mais rapidamente acionável.

O que é que distingue um alimento natural de um processado?

A primeira categoria, a dos alimentos naturais, inclui os alimentos no seu estado bruto e aqueles que são descascados, cozinhados, mas sem a adição de ingredientes. Já os alimentos processados são aqueles aos quais se adicionam ingredientes, nomeadamente manteiga, azeite, sal ou açúcar. Estes incluem todos os preparados culinários caseiros, conservas e produtos fermentados, como o pão, o queijo, o vinho e a cerveja, só para mencionar alguns a título de exemplo.

Nestes casos, a tecnologia está ao serviço do alimento para melhorar a conservação, o sabor e/ou a digestibilidade, mas são alimentos verdadeiros. Nos ultraprocessados, é o alimento que se coloca ao serviço da tecnologia para reduzir custos de produção e obter lucro. Isto marca a passagem dos alimentos verdadeiros aos falsos, digamos assim. Esta transição nutricional ocorreu provavelmente nos anos da década de 1980 e coincide com a explosão da prevalência de doenças crónicas.

Os alimentos ultraprocessados são falsos? Podemos defini-los assim?

Um produto ultraprocessado é uma formulação industrial com inúmeros ingredientes e/ou aditivos de origem unicamente industrial que melhoram o sabor, a textura e a cor. Tenta-se imitar os alimentos verdadeiros com aditivos que funcionam como cosméticos.

Estamos rodeados destes produtos. Como identificá-los?

Leia a lista de ingredientes e aditivos e se não os reconhecer, porque são usados só pela indústria alimentar, desconfie... Os ingredientes a evitar são os açúcares adicionados escondidos, a frutose, a sacarose, o xarope de milho… São, muitas vezes, responsáveis, se consumidos em excesso, pela diabetes de tipo 2 e pela obesidade. Três em cada quatro pratos confecionados industrialmente contêm este tipo de açúcares...

Quais são as principais armadilhas alimentares?

Pensar que ingere nutrientes e referir-se à composição nutricional. Muitos produtos ultraprocessados são vendidos com mensagens de marketing a indicar que contêm trigo integral ou que são enriquecidos com ómega-3 ou com fitoesteróis, que levam a crer que são bons para a saúde, quando são produtos reconstituídos e ultraprocessados.

Qual das suas descobertas é que mais o marcou até agora?

A relação entre a ideia reducionista, os alimentos ultraprocessados e as doenças crónicas. Os três estão intimamente ligados. Este elo levou-me a desenvolver o conceito de alimentação holística e a estudar o seu impacto ético e benéfico na alimentação. Outra grande descoberta é o efeito matriz dos alimentos...

E que efeito é esse?

Dois alimentos com a mesma composição em nutrientes, mas com matrizes diferentes não têm o mesmo efeito na saúde e, por isso, nem todas as calorias são equivalentes. Ingerir 500 calorias de alimentos pouco processados não é o mesmo que consumir 500 calorias de alimentos ultraprocessados.

Quais são os benefícios da alimentação holística que mencionou há pouco?

Vê-se o alimento no seu todo e considera-se que a complexidade dos alimentos verdadeiros é melhor para a saúde do que as partes isoladas, os nutrientes. Por exemplo, para perder peso é preciso regressar aos alimentos pouco processados. Não se perde peso com produtos ultraprocessados light. Por outro lado, a matriz interfere na sensação de saciedade e na velocidade de digestão e de absorção dos nutrientes, dois parâmetros essenciais para prevenir a diabetes de tipo 2 e a obesidade.

Comer bio, vegetariano ou até vegan tem vantagens?

Sim, para o meio ambiente e para o bem-estar animal, mas para a saúde é preciso evitar os produtos ultraprocessados, mesmo de origem vegetal. A ciência mostra que os produtos bio têm mais compostos protetores, nomeadamente antioxidantes, mas ainda há poucos estudos. A ciência mostra que os vegetarianos não têm um risco de vir a ter doenças adicionais. Já no que se refere à dieta vegan, há menos dados científicos.

Como podemos comer de forma verdadeira?

É preciso comprar alimentos verdadeiros e substituir os pratos confecionados industrialmente pela comida feita em casa com alimentos reais.

Como é que antevê que serão as nossas compras em 2050?

Imagino um cesto de compras flexitariano ou semivegetariano, no qual o elemento principal serão os produtos vegetais. Os alimentos de origem animal passarão a ser um acompanhamento esporádico.

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