Tenho notado, e considero importante a possibilidade da minha observação resultar de um viés de observação, que existe uma faixa etária de jovens adultos que se debatem com questões de ciclo de vida desafiantes e que devem ser um desafio também para todos aqueles que se interessam pelo seu bem-estar.

As suas idades situam-se entre os 25 e os 35 anos e são jovens adultos que se debatem com problemas reais de procura de emprego, estabilidade e autonomização. São esforçados, fizeram o percurso que acreditaram que os haveria de levar a bom porto, e deparam-se com a dificuldade imensa de saber como prosseguir numa sociedade que não responde às suas necessidades. Ora vejamos (e reservo-me o direito de contar a história que congrega todas as dificuldades): terminaram os seus estudos – superiores ou não – e com maior ou menor facilidade encontraram um emprego. Não têm experiência, são mal pagos e trabalham muito para provar o seu valor. De repente, a possibilidade de socialização, de manter o necessário lazer, é interrompida pela dificuldade de conciliação de horários com o grupo significativo. Até porque, o mais provável, será estarem todos a lidar com o mesmo: a trabalhar mais, com menor disponibilidade. A maior ou menor resiliência de cada pessoa determinará o impacto que esta mudança terá na sua vida. E até pode ser que o processo corra bem e permita uma adaptação razoável. Continuemos então.

Ultrapassada esta dificuldade, é legitimo que estes jovens adultos ambicionem a autonomia, que na maior parte das situações, tem a sua concretização com a saída da casa dos pais. E este passo consiste numa nova tarefa complicada de conseguir atualmente.

Quando há uma relação amorosa estabelecida é frequente que a união do casal facilite a transição e permita que economicamente seja possível. No entanto, mesmo assim, existem variados fatores que poderão complexificar o processo: o desemprego de um dos elementos, a diferença de remuneração entre eles, a disponibilidade que conseguem ter para a relação além do âmbito funcional, entre muitos outros.

Quando essa relação amorosa não existe, pode iniciar uma cooperação negativa entre a necessidade de autonomia e a necessidade de uma relação. Ou seja, quando o jovem adulto, com emprego, esforçado, a trabalhar grande parte do seu tempo, pensa realmente em sair de casa dos pais, acaba por perceber que dificilmente o conseguirá fazer sozinho. Impõe-se a necessidade de encontrar alguém para partilhar a vida e as despesas. A necessidade psicológica relacionada com a fase de ciclo de vida, acaba por transmutar-se também numa necessidade prática, que se traduz na constatação de que sozinho, financeiramente, não irá ser possível. E se a pressão social de se estar numa relação já existia, parece-me que a pressão prática de encontrar alguém que partilhe contas e permita avançar para a vida autónoma tem-se tornado cada vez maior. Este fenómeno, em si, pode ser um forte entrave ao estabelecimento de relações saudáveis e bem fundadas. Assim como cada vez maior poderá ser a angústia de estar preso num ciclo que se afigura difícil de desfazer.

É fácil de perceber que se pode começar a instalar alguma descrença e desespero. E é fácil também, cada um destes jovens pensar que está sozinho nesta escalada difícil para uma fase diferente da vida. Não me parece que sejam fenómenos individuais. É um desafio relacionado com a vida que levamos atualmente. É, por isso, muito importante poder entender tudo isto como um fenómeno mais abrangente do que individual, de forma a adquirir algum distanciamento e capacidade de escolha. Não é fácil pensar fora das expectativas criadas ao longo de tantos anos (da própria pessoa e dos outros à sua volta) e criar novas formas de ultrapassar estes desafios (que são dificuldades reais). Também é importante que os que se relacionam com as pessoas nesta situação - quer sejam pais, empregadores, comunidade – percebam as dificuldades e sejam aliados na criação de soluções e não de manutenção do problema.

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Catarina Janeiro - Psicóloga Clínica

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