Mafalda Carvalho preparava-se para sair de casa. Ia para um evento quando, de repente, uma forte dor abdominal a levou às urgências do hospital mais perto de sua casa. Inicialmente pensou, tal como o médico que a assistiu, que seria uma cólica renal. Vários exames depois, incluindo análises ao sangue que revelaram uma anemia ferropénica grave, foi-lhe diagnosticada a doença celíaca. Esse diagnóstico aconteceu nos primeiros anos da década de 2010.

Nos dias que correm, Mafalda Carvalho, presidente da Associação Portuguesa de Celíacos (APC), tem uma vida perfeitamente normal e saudável. Teve sorte, como afirma, pois conseguiu ser diagnosticada em poucos dias, o que raramente acontece. "Estamos perante uma doença que está subdiagnosticada. Em Portugal, há cerca de 15.000 casos conhecidos, mas estima-se, a nível mundial, que a prevalência seja de 1% do total da população", afirma.

Afinal devemos ou não excluir o glúten da nossa alimentação?
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Mas o que é afinal esta doença, que, segundo diversos estudos científicos publicados ao longo dos últimos anos, pode demorar, em média, cerca de nove anos a ser descoberta? Segundo Paulo Oliveira Ratilal, médico gastroentrelogista, é "uma patologia crónica, autoimune, que surge em indivíduos geneticamente suscetíveis e que se caracteriza por atrofia das vilosidades do intestino delgado na sequência da ingestão de glúten, presente no trigo, na cevada, no centeio e na aveia". "É diagnosticada em crianças e adultos, com predominância no sexo feminino, na razão de um para dois ou três", acrescenta sainda o especialista.

O glúten, uma substância viscosa e azotada que resulta da combinação de duas proteínas presentes nestes quatro cereais, desencadeia, por parte do sistema imunitário, uma resposta inflamatória no intestino delgado, originando a progressiva destruição da mucosa e das vilosidades responsáveis pela absorção dos nutrientes. Como resultado temos uma absorção deficiente, o que conduz a uma série de problemas relacionados com a falta de nutrientes.

O que tem vindo a mudar na perceção da doença

Até há alguns anos, esta patologia estava mais ligada ao conhecimento pediátrico. O glúten era introduzido faseadamente na alimentação dos bebés e, se houvesse reações adversas, diagnosticava-se a doença. Contudo, cada vez mais por fatores ambientais, como a própria exposição excessiva ao próprio glúten, têm vindo a mudar o paradigma. Atualmente, as variedades de trigo mais consumidas são diferentes das que eram ingeridas antes.

Têm uma percentagem muito superior destas proteínas que ainda estão ainda presentes em praticamente todos os alimentos processados pela indústria. Em função disso, os adultos descobrem, muitas vezes, em idades tardias, esta grave intolerância. "A doença celíaca tem uma predisposição genética, que nasce com o indivíduo, mas apenas uma pequena porção destas pessoas se tornam celíacas ao longo da sua vida", sublinha o médico gastroentrelogista.

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"A dada altura, na presença da ingestão de glúten e face a fatores ambientais ou a determinados estímulos, ainda desconhecidos, do sistema imunitário, parece que desperta e torna-se sintomática. Os sintomas poderão aparecer de forma mais ou menos evidente, mais rápida ou mais lentamente", refere. Paulo Ratilal explica ainda que, sobretudo na criança, a doença celíaca manifesta-se mais frequentemente na sua forma clássica, através de diarreia crónica, distensão abdominal, emagrecimento, sintomas associados a má absorção intestinal e a carências nutricionais diversas.

Porém, "além dessa forma clássica, pode ainda surgir na forma atípica, com quadro clínico que passa totalmente despercebido durante a idade pediátrica, manifestando-se quase silenciosamente na idade adulta, podendo assim passar décadas antes de um correto diagnóstico", afirma. Segundo este especialista, são exemplos disso casos de anemia crónica ligeira, de osteoporose precoce e de uma ou outra alteração isolada nas análises sanguíneas.

É o caso de ferropénia, de um aumento isolado das análises hepáticas ou de uma deficiência de vitamina B12 ou de ácido fólico, enumera ainda o especialista. "A doença celíaca pode ainda revelar-se com manifestações insuspeitas noutros órgãos, como na pele através de dermite herpetiforme, na tiroide através de tiroidite autoimune ou no sistema nervoso através de ataxia ou neuropatia periférica", acrescenta Paulo Ratilal, médico gastroentrelogista.

Diagnóstico tardio agrava o problema

Como vimos, um adulto, se apenas registar sintomas ligeiros, ou mesmo quase inexistentes, pode conviver tranquilamente muitos anos com a doença sem que dela tenha conhecimento. No entanto, o diagnóstico tardio acarreta complicações ao nível da saúde do doente. Como refere Paulo Ratilal, "está provado que, neste período de tempo, a qualidade de vida relacionada diminui substancialmente e pode implicar maior gravidade dos sintomas".

Outro problema é a possível "existência de situações irreversíveis, como a osteoporose" ou ainda "uma associação com outras doenças autoimunes, como a da tiroidite, além de uma maior frequência de alguns tumores, por exemplo, no intestino delgado", adverte o médico gastroentrelogista. A boa notícia para estes doentes é que basta uma dieta isenta de glúten, para toda a vida, já que não há, por enquanto uma cura, para fazer regredir a patologia.

Dieta isenta de glúten é a cura

Para que os sintomas comecem a desaparecer e se inicie uma regressão da doença, é imperativo seguir uma dieta isenta de glúten. A parte mais difícil foi chegar ao diagnóstico, como refere Paulo Ratilal. E ainda são muitos os portugueses que vivem na ignorância. "A partir dessa altura, a manutenção de uma dieta sem glúten permitirá, ao longo do tempo, a recuperação intestinal, a remissão das queixas e a recuperação da sua qualidade de vida", garante.

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"Mesmo a esperança média de vida volta a comparar-se com a das pessoas saudáveis não-celíacas", assegura o especialista. Fora do menu destes doentes ficam alimentos como pão que contenha os quatro cereais proibidos, bem como bolos, bolachas, biscoitos, massas, iogurtes com cereais não isentos, sopas de pacote, panados, salgados, pizas, lasanhas, canelones e cerveja. Em todos os alimentos que contêm farinhas proibidas é possível substitui-las por outras isentas de glúten, como a de arroz, de milho, de mandioca, de quinoa, e muitas outras. Há depois um conjunto de alimentos considerados perigosos devido à sua composição.

Por conterem glúten em alguns ingredientes menos claros, nomeadamente aditivos, também devem ser abolidos. As crianças celíacas aprendem rapidamente a lidar com a dieta. O ensino disciplinado ao longo do tempo permite-lhes controlar a sua própria dieta com segurança e torna-as, frequentemente, o melhor veículo de informação e de divulgação da doença celíaca. Contudo, é reconhecido que a adolescência representa um período de maior risco.

Nesta fase de rebeldia natural, o incumprimento tende a ser maior, pelo que os educadores devem estar (mais) atentos. Para Mafalda Carvalho, é possível ter uma vida perfeitamente normal, mantendo a sua vida social e fazer refeições fora de casa. Aliás, é até desejável, já que nos primeiros tempos, os celíacos tendem a isolar-se, o que não é positivo para a sua recuperação. Alguns chegam a entrar em depressão devido à falta dos nutrientes que não absorvem.

Texto: Helena C. Peralta

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