A capa de “Encontros e encontrões de Portugal no mundo”, livro do jornalista Leonídio Paulo Ferreira, faz-se com um planisfério apinhado de apontadores. Em cada um deles cabe a esfera armilar e o brasão de Portugal. Querendo contá-los, vamos encontrar 52 destes apontadores no mapa. Cada um, representa o rasto de um português e o seu contributo para a nossa história de séculos. Breves narrativas com intervenientes que, entre si, partilham uma mesma comunidade, a da cultura portuguesa. Sem desmerecer em figuras como Eça de Queirós, Catarina de Bragança ou Pêro da Covilhã (também os vamos encontrar nas páginas do livro), o autor traça-nos, por exemplo, memórias de Berengária, uma rainha “má” portuguesa, neta de D. Afonso Henriques, ainda sobrevivente nas lendas dinamarquesas, ou a aventura do primeiro carteiro do Canadá, no século XVII, o lisboeta Pedro da Silva.

Leonídio Ferreira, com uma carreira de 30 anos no jornal Diário de Notícias, na área da política internacional, visitou em trabalho, mas também em lazer, dezenas de países em cinco continentes. O seu livro é um périplo global, o das muitas voltas que dá a vida. Entre os encontros do autor (muitos) e os encontrões (não tantos), o jornalista colige histórias, algumas de pés postos no cantinho luso, como quando conviveu com dois butaneses a viverem no nosso Alentejo e com uma afeição especial pelo Benfica. Noutras, os horizontes alargam-se para encontrarmos o autor em cenários de guerra, como o encontro com o sargento Carlos Barry, no Afeganistão, num veículo blindado em patrulha nas poeirentas ruas de Cabul.

Há, ainda, neste “Encontros e encontrões de Portugal no mundo” (edição Desassossego), narrativas para enleios de séculos, com o autor a reabilitar protagonistas quase esquecidos. É o caso de Jan Rodrigues, do século XVII, o primeiro habitante não índio de Nova Iorque, filho de pai português, criado na comunidade portuguesa do território da atual República Dominicana. Leonídio Ferreira teve encontro marcado com Jan num mural de Harlem River Park, na Big Apple. Desse encontro, como de tantos outros, nos dá conta nas linhas que se seguem.

Leonídio Ferreira, é fácil encontrar a matéria-prima para um livro com mais de 50 histórias de portugueses, muitas delas ainda pouco contadas? 

É fácil encontrar matéria para um livro com as características de “Encontros e encontrões de Portugal no mundo”. O nosso país tem uma história de 900 anos. Sobretudo, nos últimos 600 anos é, claramente, uma história que ultrapassa as nossas fronteiras, é uma epopeia mundial. Os portugueses são pioneiros nas viagens à América do Sul, a África, à América do Norte, em chegar por mar à Índia e à China e, em termos absolutos, fomos os primeiros europeus a ir ao Japão. Tivemos muitos encontros, no bom sentido, mas também encontrões. Nos séculos XV e XVI, Portugal era uma potência mundial e, muitas vezes, não chegávamos de forma branda. Muitas das histórias que conto, são verdadeiros encontrões de culturas.

Dos butaneses com paixão benfiquista, à nossa rainha “má”. As crónicas de muitos “encontros e encontrões”
O autor de "Encontros e encontrões de Portugal no mundo" com crianças na Guiné Bissau.

Uma parte substancial das histórias que nos conta no seu livro, partem de recolha direta nos lugares onde são narradas. É um grande périplo mundial.

Sou jornalista do Diário de Notícias há quase 30 anos e sempre na área da política internacional. O livro resulta dessa experiência, das viagens e pessoas que fui conhecendo, dos livros e jornais que leio e onde sobressaem referências a portugueses. Uma das histórias que está no livro, a do Jan Rodrigues, narra um português do século XVII sobre o qual encontrei uma referência na revista New Yorker, quando estive em reportagem em Nova Iorque. Quem é este homem? É filho de um português e de uma angolana que nasce naquela que é hoje a República Dominicana. Começa a trabalhar para os holandeses que lhe chamam Jan. Em determinado momento, arranja um problema com o capitão de um navio holandês e é abandonado junto a Manhattan, conhecida pelos índios locais como Mannahatta. Jan Rodrigues começa a caçar animais e a traficar peles. Casa com uma índia local. Quando os holandeses fundam nova Amsterdão, a futura Nova Iorque, recorrem a Jan que conhece as línguas locais. Volvidos quase 400 anos existem em Nova Iorque vestígios importantes deste português. Fui a esta cidade americana em reportagem, em busca das pistas de Jan. Fui ao Harlem River Park onde há um mural dedicado a figuras afroamericanas, como a ativista Rosa Parks ou Martin Luther King. Também está o “nosso” Jan. É reivindicado como o primeiro afroamericano de Nova Iorque.

Isto é na Rua 135. Continuei a subir Manhattan, até à rua 167 e, de repente, a Broadway, a grande avenida de Nova Iorque, passa a chamar-se avenida Juan Rodriguez. Porquê? Porque a comunidade dominicana também o reivindica como o primeiro hispânico daquela cidade.

Aqui está o exemplo de uma figura que se “cruzou” comigo nas páginas de uma revista e que deu aso a uma reportagem.

A nossa história é de uma riqueza enorme. Por exemplo, uma rainha dinamarquesa, Berengária, neta de D. Afonso Henriques, ainda sobrevive nas lendas dinamarquesas. Foi a segunda mulher de Valdemar II e não querida pela primeira que, no leito de morte, terá procurado convencer o monarca a não casar com Berengária. Ainda hoje, no imaginário dinamarquês, subsiste a lenda da loura rainha boa, a da morena rainha má.

O nosso país tem uma história de 900 anos. Sobretudo, nos últimos 600 anos é, claramente, uma história que ultrapassa as nossas fronteiras, é uma epopeia mundial.

Falamos do passado, mas o Leonídio também se cruzou presencialmente com muitos dos protagonistas do livro, certo?

Sim, inúmeras pessoas aqui retratadas, conheci-as em contexto de reportagem. Por exemplo Carlos Barry, um comando português que conheci no Afeganistão, quanto aí estive em 2005 numa reportagem com as tropas portuguesas naquele país. Fiz um périplo com ele por Cabul. Passados dois anos, estava na redação do jornal e vejo nas notícias que ele estava a ser atacado pelos Talibãs em Candaar. Aqui está, não foi só nos séculos XV e XVI que os portugueses andaram pelo mundo.

Dos butaneses com paixão benfiquista, à nossa rainha “má”. As crónicas de muitos “encontros e encontrões”
créditos: Edições Desassossego

Estas são histórias que, em certos casos, também se fizeram com algum risco?

Os jornalistas quando estão em reportagem não são figuras bem-vindas nos locais. Tal como referi, estive no Afeganistão. Na viagem para a Ásia, a bordo de um avião Hercules C-130 da força aérea portuguesa, uma das coisas que mais impressão me causou foram os sacos para corpos. Na guerra pode morrer gente e, na realidade, iriam mais tarde morrer dois portugueses. Ao chegarmos ao Afeganistão, percebemos que o Hercules fazia um voo irregular e a disparar ondas de calor, para desviar misseis. Quando aterrámos deram-nos coletes à prova de bala. Aí, percebemos que não estamos num filme. Quando estávamos a dar volta por Cabul nos carros blindados, os militares portugueses aceleraram para voltar para o quartel. Tinha havido um ataque a militares alemães. Quando cheguei a Portugal e escrevi a reportagem, chegou a notícia de uma baixa portuguesa. Um daqueles blindados onde viajei tinha sido destruído por uma mina. Ou seja, os perigos e os riscos existem mesmo que os jornalistas tenham a vantagem de estar só umas horas ou dias.

Quando aterrámos deram-nos coletes à prova de bala. Aí, percebemos que não estamos num filme. Quando estávamos a dar volta por Cabul nos carros blindados, os militares portugueses aceleraram para voltar para o quartel.

Sim, e muitas vezes em territórios menos prováveis. Quer dar-nos alguns exemplos?

Este livro tem narrativas em mais de 50 países. Há países como os Estados Unidos onde é fácil coligir inúmeras histórias. Outros, nem tanto. Já depois de ter concluído o livro fui ao Cazaquistão e aí apresentaram-me um piloto da Air Astana, a companhia aérea oficial daquele país, que é um antigo andebolista do Vitória de Setúbal, o Marco Quadrado, um alcochetense, tornou-se piloto de aviões e acabou por ir parar à Ásia. Se fizesse um novo livro, ele teria de aparecer. Também posso falar do Adelino Silva, o nosso embaixador do Cazaquistão, em Astana, capital daquele país. Foi convidado para ir abrir a embaixada porque é casado como uma cazaque. A filha, a Alma, de quatro anos, fala em português com o pai para aprender a nossa língua. Tal como muitos casais de nacionalidades diferentes, procuraram um nome que fizesse sentido nas duas línguas. Alma em português é o que sabemos e em cazaque designa maçã. Os cazaques reivindicam que as primeiras macieiras no mundo estão no seu território. Aqui temos um encontro, não um encontrão [risos].

Encontros e encontrões
Na muralha da China, numa das vezes em que o jornalista esteve em trabalho naquele país asiático.

Podemos dizer que aquilo que traz para as suas narrativas são pequenas histórias com grandes personagens?

Há figuras que foco e que são conhecidas. Por exemplo, Catarina de Bragança que no século XVII leva a tradição do chá das cinco para a corte inglesa. Mas, por exemplo, também falo de, Luísa Todi uma figura mais ou menos conhecida em Portugal e a aventura desta cantora lírica na Rússia onde chegou a contactar com a czarina Catarina a “Grande”, que admirava a voz de Todi.

Mas também escrevo sobre Pedro da Silva, um lisboeta que no século XVII emigra para o Canadá, para a Nova França, o atual Quebeque. Aí, Pedro da Silva torna-se o primeiro carteiro do Canadá, entregando as mensagens onde fosse necessário e a pé, de carroça, de barco. Há muitas figuras destas menos evidentes. O próprio Jan Rodrigues de quem já falei é uma figura obscura da nossa história. Duvido que faça parte da história de Portugal. Mas representa um tipo de português que quis incluir neste livro. Como critério para a obra, entendo que portugueses são aqueles imbuídos da cultura portuguesa. E muitos deles não nasceram em Portugal, nem mesmo os pais deles. O nosso império criou portugueses por todo o mundo. O próprio José Vaz, missionário nascido em Goa no século XVII, e que o Papa Francisco fez santo recentemente é um goês educado na língua portuguesa, católico, que depois vai para o Sri Lanka. Contra as perseguições budistas e dos holandeses calvinistas, acaba por ter um papel importante na catolicização de parte daquele território. Muitas vezes aparece descrito como Joseph Vaz, um santo indiano. É discutível porque a cultura dele e dos pais já era portuguesa.

Dos butaneses com paixão benfiquista, à nossa rainha “má”. As crónicas de muitos “encontros e encontrões”
Na Turquia, a leitura de um jornal local. Nos jornais, revistas, livros, uma das fontes de inspiração para as crónicas de Leonídio Ferreira.

Há inclusivamente nas suas histórias o episódio em que a armada inglesa obriga a Grécia a pagar a dívida de um português. Quer contar-nos?

Sim, é um episódio curioso e que fica conhecido na historiografia britânica como o “Don Pacífico Affair”. Conto brevemente: deparo-me com a história há uns anos, na época da grande austeridade na Grécia. Comprei um livro sobre a história daquele país que trazia um episódio no século XIX e que envolvia o Reino Unido, uma dívida externa e a obrigação da Grã-Bretanha a pagar. Um episódio causado por David Pacífico, um judeu descendente de portugueses, nascido em Gibraltar. David Pacífico aproveita o Liberalismo em Portugal para regressar ao país dos seus antepassados. É uma figura que entra para a diplomacia, também para o comércio, e que se torna nosso cônsul em Atenas. Certo dia, há uma proibição na Grécia, negando a queima da figura de Judas durante a Páscoa. Terão sido os banqueiros judeus, financiadores da nova nação helénica a formular o pedido. A população não gostou, culpou David Pacífico pela proibição, com base em rumores, e saqueia-lhe a casa. Este, por ter nascido em Gibraltar, deu-se como cidadão britânico e pediu ajuda àquele país. Inglaterra que estava no auge do seu poderia militar enviou uma esquadra para obrigar a Grécia a pagar a casa saqueada de David. Esta parece uma história saída de um livro do escritor John Le Carré.

Dos butaneses com paixão benfiquista, à nossa rainha “má”. Crónicas de “encontros e encontrões de Portugal no mundo
No Irão, ao serviço do Diário de Notícias.

Mas há outras figuras fascinantes. Como Gracia Mendes Nasi, uma figura com a qual me deparei num livro da escritora Catherine Clément. A obra chama-se “A Senhora” e trata a história de uma judia portuguesa, lisboeta, que foge para o Império Otomano, para evitar as perseguições aos judeus no século XVI. Ainda em Portugal, Nasi tinha casado com um tio, grande banqueiro. Mais tarde, com 25 anos, fica viúva e torna-se uma das mulheres mais ricas da Europa. Depois de várias peripécias pela Europa, já no Império Otomano, Gracia acaba por financiar sultões muçulmanos e reis cristãos. Torna-se muito influente, manda construir várias sinagogas e financia o primeiro projeto para levar os judeus para Israel.

Decidi ir a Évora conversar com os dois butaneses. Estavam fascinados com o nosso país. Tinham acabado de descobrir que os primeiros estrangeiros a chegar ao Butão eram dois portugueses, um deles alentejano.

Há histórias bem mais recentes, sem grandes epopeias, mas que nos tocam, como a dos butaneses que vivem em Portugal e admiram o Benfica…

Certo dia leio numa notícia que a Universidade de Évora tem dois butaneses a estudar. Nunca estive no Butão, um país fechado, embora aberto ao turismo, mas ao qual limita muito o acesso. Decidi ir a Évora conversar com os dois butaneses. Estavam fascinados com o nosso país. Tinham acabado de descobrir que os primeiros estrangeiros a chegar ao Butão eram dois portugueses, um deles alentejano. Perguntei-lhes o que mais gostariam de fazer no nosso país e dizem-me que queriam ir ver um jogo do Benfica. Lá está, a notoriedade de um país faz-se de diferentes formas.

No Cazaquistão, um senhor de alguma idade perguntou-me as horas. Digo-lhe que sou português e que não percebo o que me diz. Fala-me em Cristiano Ronaldo. Mas diz-me, “mas o Eusébio era muito melhor” e acrescenta: “foi muito injusta a meia final que perderam contra Inglaterra em 66”. Depois, conta-me que quando tinha nove anos, tinha seguido aquele mundial de futebol e que não se esquecera de Portugal a jogar contra a Coreia do Norte e o facto do jogo estar três a zero, a nosso desfavor, e passar para cinco a três, a nosso favor. Também não se esquecera de Eusébio a chorar com a perda contra Inglaterra e com a equipa Soviética a jogar connosco para o terceiro e quarto lugares e a perder.

encontros e encontrões
Em Israel.

O Futebol dá grandes histórias…

Falando ainda no futebol, a única referência que faço no livro à Guiné Bissau é a de ter constatado, quando lá estive, a forma entusiasta como vivem o futebol português. Quando fomos campeões da Europa em 2016, o golo foi de Eder, nascido guineense. Naquele dia Bissau festejou a vitória como se fosse uma cidade portuguesa. Entretanto, quando lá fui perguntei se havia uma casa do Benfica. Disseram-me, “claro que há”. Vou ao local indicado, uma casa gasta pelo tempo e apresentaram-me fotografias do Benfica. Entretanto, apareceu um miúdo vestido com uma camisola do Sporting. Mais uma vez perguntei-lhes se havia uma casa deste clube. E havia, bem próximo. Estava facilmente identificada, com dois leões de gesso à porta e um grupo de miúdas da equipa feminina de Bissau. Não havia uma casa do Porto, mas disseram-me, e esta é uma coincidência incrível, que havia um antigo médico do Futebol Clube do Porto que estava em Bissau e que, no dia seguinte, ia a um orfanato oferecer camisolas dos infantis, juniores e juvenis de anos anteriores. Estive presente e, de repente, começo a ver dezenas de miúdos `à Porto´ em Bissau.

Leonídio, para finalizarmos, querendo resumir o que o levou a concretizar este livro, como o apresentaria?

Trata-se de um livro escrito por um jornalista e que procura ser um livro de jornalismo. Todos as crónicas foram escritas para serem publicadas num jornal, em qualquer momento. Todas elas são intemporais e uma forma de entrarmos na história de Portugal e na nossa relação com o mundo.

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