A paisagem avistada desde a cumeada de rocha onde nos encavalitamos, a 400 metros de altitude, devolve-nos uma volta de 360 graus de infinito. Céu e terra ali estão, por inteiro, cosidos na linha de horizonte. Nas alturas, cavalgadas por ninhadas pouco convictas de nuvens, plana uma rapina. Próximo, o voo insistente das andorinhas antevê findo o verão. Tudo o mais é planície, áurea de estio, acolhendo sobreiros e azinheiras, oliveiras e mato. Longe, semelhantes a dunas alvas, espreguiçando na paisagem, as cidades de Évora, para oeste, Estremoz, para leste. Muito, muito distante Arraiolos. Perdendo-se nos cinzentos do “fim do mundo”, a grande Serra de São Mamede. Próximo, a poucos quilómetros, grande crista formada pela Serra de Ossa.

A brisa quente, avultando desde a planície abaixo, agita as giestas do monte, sobe o pano de muralhas e toca-nos, espetadores deste Alentejo interior. O kilt de Mitch, padrão azul axadrezado agita-se à aragem, enquanto o afável gigante, postado na beira do precipício se maravilha, uma vez mais, com a paisagem de que os seus olhos se tornaram guardadores desde 2013.

Evoramonte: Das alturas deste Alentejo apetece dizer: “O Mundo mora todo neste lugar”
O imponente Paço Ducal.

Não, não entrámos num mundo da ficção infantil com a apresentação do afável Mitch e a sua saia escocesa vivendo num castelo alentejano do século XIV. O nosso anfitrião nesta aventura em Evoramonte é um simpático sul-africano que, com a sua companheira, a escocesa Vicki, gerem uma casa que é a dois tempos, lar e alojamento local. Tem nome e uma história, “The Place at Evoramonte”. Já lá entraremos. De momento tomemos de assalto a fortaleza guiados por Mitch e pelos portuguesíssimos António Serrano, presidente da Junta de Freguesia de Evoramonte e Matilde Ruas, a explorar uma empresa turística local, a “Andar a Monte”.

É na estrada feita de retas rápidas que medeia entre Évora, capital de Distrito e Estremoz, sede de concelho, que primeiro descortinamos as alturas de Evoramonte. Não reparar na fiada de muralhas e na torre que delas sobressai é uma quase impossibilidade. Este assomo final (ou se quisermos inicial) da cordilheira de Ossa, é uma imposição nesta paisagem coleante. Um convite, aos espíritos curiosos, para subirem às alturas e descortinarem como será daí olhar o Alentejo. Foi o que Mitch e Vicki fizeram depois de correm mundo, como nos conta o sul-africano. “Já tínhamos visitado mais de 40 países, vivíamos em Londres e fizemos uma volta completa a Portugal. Quando aqui chegámos ficámos de boca aberta…como é possível um lugar como este!”, conta-nos Mitch, do alto dos seus mais de um metro e noventa de altura, completando o seu português de aprendizagem com mimica de mãos.

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Evoramonte. créditos: @The Place at Evoramonte

Em suma, o casal vendeu a casa em Inglaterra, adquiriu o imóvel onde agora gere o seu “The Place” e inaugurou uma nova etapa das suas vidas, arrancando com as obras. Um conto de fadas num antigo castelo, encimado por uma ostensiva torre? Nem por isso. Arrancar com uma vida por estrear no interior de Portugal, numa freguesia de dimensão modesta, não mais de 500 habitantes, apenas 20 intramuros, e com burocracia de tamanho colossal não é conversa para meninos, como veremos.

Um Paço que é marco neste Alentejo

Por agora, detemo-nos a poucos metros da casa de Mitch e Vicki. Calcorreamos os últimos metros até ao ápice de Evoramonte. A sua Torre, ou mais precisamente, o Paço Ducal. Edifício singular, um quadrilátero imponente, ornado com quatro torres semicirculares, assim mesmo fincadas para impressionar. Edifício, à sua escala, inspirado no Castelo de Chambord, em França, segundo se crê. Por fora, uma estrutura constituída por xisto, granito e pedaços de cerâmica grosseira, tudo ligado por argamassa de cal e areia, misturada com água.

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Rua da Convenção, antiga Rua Direita, em Evoramonte.

É nas sombras frescas do interior do edifício datado do século XVI que descortinamos a sua função. “Não teve um objetivo militar, nem de defesa. Pensa-se que terá sido um pavilhão de caça e, conta-se mesmo, que nunca terá sido habitado”, refere Matilde. Fará o leitor a mesma pergunta que o viajante que assome à Torre, lhe sobe os vários andares, lhe vê a arquitetura com pormenor e percebe o objetivo estratégico de um colosso aqui fincado, a mais de quatro centenas de metros de altitude. A pergunta é. Porquê então construi-lo?

É António Serrano que nos explica, com uma máxima histórica, “Depois de Vós, Nós”. Traduzindo, “Nós, a Casa de Bragança, Vós, o Rei. A posição cénica do Paço Ducal tinha um objetivo, o de afirmar os Bragança como a segunda Casa mais poderosa do Reino”. Uma casa que podemos visitar por apenas 2,00 euros e que nos devolve, para além da História e da paisagem, salas com exposições temporárias, de artistas locais e não só.

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Exposição temporário no interior do Paço Ducal.

“Temos perto de dez mil visitantes ao ano na Torre”, esclarece o autarca. Número que António Serrano crê, irá crescer. Argumentos paisagísticos, culturais e históricos não faltam à localidade. Peguemos num exemplo. Não precisamos de grande périplo deste a Torre. A pouco mais de 30 metros, uma casa modesta, na antiga Rua Direita, desta também antiga sede de concelho, vê inscrita uma placa que faz marco de uma viragem na História de Portugal.

De Rua Direita à Rua da Convenção

A Rua Direita perdeu o seu antigo topónimo. Chama-se hoje Rua da Convenção. Assinala o ano de 1834, o dia 21 de maio, e uma assinatura, a que encaminhou o nosso país para a paz, após anos de uma guerra civil brutal, entre liberais e absolutistas. “A casa pertence ao município de Estremoz e irá ser, em breve, já em 2019, transformada num centro de interpretação”, esclarece o edil.

Mitch mantém o entusiasmo, enquanto calcorreamos o empedrado da artéria que, como espinha dorsal, ladeada de casario branco, serpenteia o miolo da muralha. O nosso anfitrião encaminha-nos o olhar para o lajedo escuro, onde a espaços nascem apontamentos de cor. Mais de cem pedras da calçada de Evoramonte foram minuciosamente pintadas com motivos alentejanos. Um trabalho onde se percebe amor pela terra e que nos encaminha para o estúdio e casa de artesanato de Inocência Lopes.

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Mitch e Vicki.

Há 14 anos que Inocência, nascida aqui mesmo, em Evoramonte, abre as portas do seu comércio na Rua da Convenção, a casa “Celeiro Comum”. “Há três meses descobri uma vocação e comecei a pintar pedras que vou encontrando nos campos. Comecei por pintar as pedras da rua”, confidencia-nos a alentejana de gema. A artesã apadrinha a sua criação, as “Casas da Sensa”. Já pintou 43, todas elas numeradas, assinadas e registadas. “São como filhas, mesmo quando saem não lhes perco o destino”. Em Singapura, Toronto, Suíça, Bélgica, ente outros países, vive um pedacinho de Alentejo em formato de casinha tradicional.

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Inocência Lopes e as suas pedras pintadas à mão.

É acolhedora a terra e sem necessidade de calcorrear estafante estamos à porta da “Andar a Monte”. Um projeto que nasce de um grande amor de Matilde Ruas a par de sua mãe por Evoramonte. Juntas estão a dinamizar o território. “Queremos que as pessoas venham conhecer o nosso Alentejo, a cortiça [em Azaruja], a olaria [no centro oleiro de São Pedro do Corval], ouvir o canto das cigarras. Queremos fazer o nosso azeite, propiciar a degustação de uma sopa de labaças [erva do campo conhecida também como catacuz], de uma sopa de tomate”. Para já, os passeios nas imediações de Evoramonte já são uma realidade, assim como também o são as águas florais, um destilado associado a uma marca, a Banha da Cobra. “Porque se calhar com a verdade me enganas, mas também porque achamos que azeite biológico, mel e cera não purificados, plantas aromáticas plantadas e colhidas com consciência e destiladas por nós, não podem prejudicar ninguém, e até podem trazer muitos benefícios”. Assim lemos na folhinha que Matilde nos deixa em mãos.

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No “The Place”, com um pato e abóbora

Antes do dejejuo, ainda tempo para conhecemos outra história de empreendedorismo neste interior. A Antiga Casa da Câmara serve, agora, dupla função. O edifício do século XVIII alberga uma galeria de arte e a casa Silveirinha, gerida por Sofia Nogueiro, mostra e venda de produtos nacionais, dos vinhos de carácter e feição alentejana, ao “Sal da Terra” ribatejano, aos sabonetes “Nabia”, às especiarias “Um Grama”, aos produtos da “Terrius”, dezenas de referências que nos mostram que em Evoramonte não há capelinhas e que Portugal e bem-vindo.

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Jogos de luz e sombra nas fachadas de Evoramonte.

Almoço e com ele o convite, já aceite, de nos sentarmos à mesa com Mitch e Vicki no “The Place”. Terraço tocado pelas sombras, protegendo-nos como ilha de calmaria da canícula que faz justiça ao estio alentejano. Falamos de comida “quando chegámos a Portugal não percebia porque se fazia compota de abóbora. Depois descobri que é ótima e quando a juntei ao requeijão, ainda melhora”, confidencia-nos o sul-africano, encaminhando a prosa para um dos temas (se não mesmo O tema) preferido dos lusos pátrios, a comida.

Igreja de Santa Maria, século XVI.
Igreja de Santa Maria, século XVI.

Pois saiba o leitor que no “The Place” os anfitriões assumem por inteiro uma cozinha não alentejana. “Porque vou eu fazer a cozinha do Alentejo quando vocês a fazem maravilhosamente e há ótimos locais para a comermos”. Desta forma, dos tachos desta casa acolhedora, de quatro quartos, chegam à mesa petiscos produzidos pelo próprio Mitch. Provamos o seu “famoso” pato, assado lentamente durante quatro horas nos seus sucos e servido com “um molho com 16 ingredientes. A ideia chegou depois de uma viagem à Tailândia”. E sim, tem segredo. Mitch não o revela.

The Place at Evoramonte
Um Alentejo inscrito nas pedras da calçada.

Já sobre a sua paixão ao Alentejo, o nosso anfitrião não faz segredo. “Todos os dias vejo esta paisagem mudar. É incrível o que vocês aqui têm ainda impoluto. Num outro país tudo isto estaria repleto de lojas de mau gosto.  Olho para Evoramonte e vejo-a como o ponto central para descobrir dezenas de outros locais, Borba e Vila Viçosa, Monsaraz, Évora, Estremoz, Arraiolos, tudo a menos de uma hora de viagem”.

The Place at Evoramonte

Rua de Santa Maria, 26, Evoramonte

Contacto: Tel. 927 603 884

Um conto de fadas que teve a sua bruxa má (tem sempre). Do enamoramento ao enlace final com Evoramonte, com a abertura de portas do “The Place”, volveram três anos, muitas agruras burocráticas, batalhas pela salvaguarda do património, adaptação ao Alentejo e ao viver português. “Um dia vou no carro e ouço berrar M80. Que raio é M80?”, graceja Mitch que, atualmente, já sintoniza na frequência desta estação de rádio. Baixinho, porque este casal aprecia os silêncios de fim de tarde, e as manhãs cálidas e pacificadoras.

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No aconchego de um dos quartos.

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