Mais de 1000 mortes em Portugal por COVID.
Mais de 1000 mortes em Portugal por COVID.
Mais de 1000 mortes em Portugal por COVID.

Parece que temos de repetir várias vezes para acreditar, para enfrentar com esta realidade. Aquilo de que muitas vezes tentamos fugir ou não ver, impôs-se nos nossos dias, desafiando o nosso tempo e capacidade de reação. Atualmente, os números de mortes entram nas nossas casas e parecem colocar-nos perante a possibilidade mais real e próxima que tanto tememos – a morte.

Mas nem por isso o luto é amplamente reconhecido como um direito de quem perde alguém. Nas perdas por COVID impõem-se várias contingências que vão, naturalmente, condicionar de forma única e singular os processos de luto. São várias as alterações decorrentes desta pandemia, nomeadamente, o aumento das questões relacionadas com o fim de vida, situações de perda inesperada ou precoce, alterações dos rituais fúnebres e um grande risco para ocorrências de experiências de luto sentidas como desautorizadas.

Desautorizadas, pela imposição das medidas sociais que velam o abraço, o colo, o aconchego e a partilha da dor com os outros, pela impossibilidade de fazerem o funeral como lhes faria sentido ou como acreditam que a pessoa que morreu gostaria. Por não poderem constatar diretamente que a dor que sentem é comum, mesmo que vivida de forma individual por cada um. Por lhes ter sido negado o momento de homenagearam a pessoa que amam e de testemunharem nas lágrimas e palavras dos outros o impacto que o seu familiar ou amigo teve nas vidas de tantos. Por não poder ser tão evidente que os outros estão lá, para consigo sofrer a dor da perda.

Os rituais de despedida representam atos simbólicos, que permitem a expressão de emoções perante uma perda e ajudam a pôr ordem num estado emocional naturalmente mais caótico. São estes rituais, pelo contacto com o corpo, com a nossa dor e a dos outros, que nos abrem a porta para a tomada de consciência da realidade da perda. A perda em qualquer circunstância é muito dolorosa, mas nestas circunstâncias é ainda mais.

Por outro lado, para muitos a sua perda é sentida como só mais uma entre as estatísticas que todos os dias recebemos e pode haver tendência para a sua desvalorização perante a dimensão das circunstâncias atuais. Se a pessoa que morreu foi considerada de grupo de risco, pode ficar a ideia de que já seria uma morte de alguma forma esperada. Para a pessoa em luto esta perda pode ser sentida como súbita, pela evolução muito rápida da doença, e precoce, fora do seu tempo, quer o familiar tenha morrido aos 40, 50 ou 70 anos.

Ficará sempre tanto por viver: a avó que não poderá ver os netos crescerem, os netos que não poderão privar com a avó; a filha que já não poderá ter o seu pai consigo em momentos-chave da sua vida, para dar aquele colo intemporal e sem idade.

Para tantos outros, a permissão para reconhecerem o impacto da perda pode vir de dentro. Como me posso permitir a sentir a saudade e a ausência se estou inundado de culpa, de sensação de impotência? Amamos de forma ilimitada mas não podemos proteger quem amamos de forma ilimitada. A cabeça não pára, refazem-se os passos de forma a imaginar como terá sido contagiada.

A nossa mente é invadida de perguntas constantes para as quais não se encontra resposta: Terá sofrido? Terá tido dor? Será que estava sozinha quando faleceu? Saberia o quanto a amávamos? Saberia o quanto gostaríamos de estar ao seu lado? Que difícil é aceitar que não se pôde ver, tocar e cuidar de quem se gosta. Sabem que não o puderam fazer, por amor, por imposições de medidas que fogem ao seu controlo.

Mas o que fazem por amor ao outro é também aquilo que os desafia no processo de luto: fica-se confinado a ausências – ausência da presença, ausência do toque, do sentir como é que o outro está, do falar. E também ausência da possibilidade de reparação de uma relação que poderia precisar de ser reparada. Resta-lhes imaginar e fantasiar como terá e teria sido.

Pode ainda não existir espaço para a tristeza e saudade, pelo medo e ansiedade que prevalecem perante as circunstâncias atuais. Se a morte já lhes tocou uma vez quem garante que não volte a acontecer? A hipervigilância predomina. Por outro lado, pode haver a crença de que permitir-se a sentir retira forças para cuidar dos que de si dependem, dos que há que proteger. E se sentir que não posso contar com mais ninguém, não me resta alternativa. Ao mesmo tempo, neste processo tantas vezes solitário, pode haver tendência para adiar o processo de luto e contacto com a realidade da perda, como meio para diminuir o sofrimento.

A pessoa morre sozinha, e sozinhos e isolados podem ficar os enlutados no seu processo de luto. A segurança de que os outros estão lá, para consigo sofrer a dor da perda, pode ser tão protetora que é penoso conceber e vivenciar a sua ausência. E para os que os rodeiam, é difícil saberem qual a melhor forma de apoiar. Se para a própria pessoa em luto as suas necessidades podem não estar claras, dificilmente o estarão para os que estão em seu redor. Por outro lado, para estarmos com a dor de alguém, implica também confrontarmo-nos com o nosso sofrimento e os nossos lutos, e para muitos tal pode ser insuportável.

É urgente legitimarmos as perdas por covid-19 como perdas tremendas, merecedoras de serem vividas sem que a culpa, solidão e desamparo prevaleçam. Que possamos ter a capacidade de escutar, tomar iniciativa no apoio ao outro, sem julgar, sentindo o impacto dessa perda. Afinal, os mais de mil mortos por COVID eram filhos, mães, amigos, primos, tios, avós de alguém. E esse alguém precisa de fazer o seu processo com amparo, no seu tempo, no seu ritmo, na sua individualidade.

Autoria: Sara Albuquerque e Margarida Teixeira, Psicólogas Clínicas
Consulta do luto e acontecimentos de vida do Centro Clínico PIN - em todas as fases da vida

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