As estatísticas preocupam. Um terço dos idosos portugueses apresenta um diagnóstico de malnutrição. A perda de apetite e do paladar, a incapacidade na preparação de refeições, a dificuldade de ingestão de alimentos e o envelhecimento natural do aparelho digestivo problemas dentários e cognitivos, são alguns dos fatores que podem contribuir para essa situação, caraterizada pela carência de nutrientes adequados.

Como consequência, os problemas de saúde mais comuns em idosos, relacionados com uma alimentação pouco variada e equilibrada, são a magreza e a desnutrição e doenças como a diabetes, as doenças do coração, a arteriosclerose e doenças osteoarticulares, como a osteoporose, muito comum nesta fase. O desenvolvimento de certas doenças pode, inclusive, muitas vezes, colocar o doente em risco de vida.

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A malnutrição afeta, também, por exemplo, as funções cognitivas. O idoso malnutrido poderá ser incapaz de responder a questões simples sobre si próprio, revelando défice de memória e sintomas de irritabilidade. Em entrevista à edição impressa da revista Prevenir, a dietista Célia Lopes enumera os principais erros que os idosos mais cometem, sugere alterações que podem prevenir o aparecimento de doenças, aborda o problema da polimedicação e da influência que podem ter no organismo de uma pessoa maior e comenta os alegados benefícios do presunto e do queijo na alimentação da população sénior.

Os idosos portugueses alimentam-se bem? Quais as principais falhas que tem detetado a este nível?

Estudos revelam que os idosos portugueses fazem em média apenas quatro refeições por dia e que o número de refeições tende a diminuir à medida que envelhecem. A redução do número de refeições diárias, aliado à falta de apetite e à recomendação de dietas restritivas e desnecessárias baseadas na crença de que o idoso deve comer menos, faz com que não seja possível alcançar as suas necessidades nutricionais diárias.

Não se conseguem colmatar apenas com a alimentação corrente. Este facto é comprovado pelos dados estatísticos que têm vindo a ser apresentados que sugerem que mais de metade dos idosos portugueses realiza uma dieta desequilibrada. As principais falhas relacionam-se com o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e alimentos açucarados, e ao consumo pouco frequente de fruta e produtos hortícolas.

Se tivesse de o definir, como definiria o perfil de alimentação dos idosos portugueses?

O perfil de alimentação dos idosos portugueses pode ser descrito pelo baixo consumo de alimentos essenciais a uma dieta variada, como o peixe, leite e derivados, fruta e vegetais, associado ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas e alimentos açucarados. A ausência da refeição do pequeno-almoço, fundamental para repor os níveis de energia após o jejum nocturno, é também frequente na população idosa.

A este perfil alimentar alia-se a ausência de exercício físico diário adaptado à capacidade individual do idoso, essencial para a melhoria da função muscular e autonomia funcional e para a diminuição do risco de quedas.

Como é que um idoso se deveria alimentar de forma correta? Pode sugerir um número mínimo de refeições considerado ideal e sugerir alimentos que devem ingerir e outros que não devem ingerir?

As necessidades nutricionais diárias do idoso são similares à de um adulto saudável, pelo que a alimentação no envelhecimento deve ser igualmente equilibrada e variada, de acordo com as recomendações da roda dos alimentos.

Comer de tudo, variar, exercício físico e beber água diariamente, são alguns dos princípios fundamentais da alimentação no envelhecimento. Igualmente importante é não ficar mais do que duas a três horas sem comer, ao longo do dia, e não exceder as oito horas de jejum nocturno.

Quais os fatores que podem contribuir para situações de malnutrição no idoso?

A malnutrição afeta principalmente a população idosa, uma vez que as alterações associadas ao processo de envelhecimento tornam o idoso mais susceptível ao desenvolvimento de desequilíbrios nutricionais. Estima-se que um em cada três idosos se encontre em risco nutricional.

As causas da malnutrição são diversas, relacionando-se principalmente com factores psico-sociais, como a solidão e o isolamento, a depressão e a pobreza, com fatores fisiológicos, como as alterações naturais do envelhecimento do trato gastrointestinal, alteração do paladar e olfato e falta de dentição e com factores clínicos, como a polimedicação e a presença de doenças crónicas.

Todos estes fatores, isolados ou em conjunto, podem levar à perda de apetite, que se traduz na diminuição da ingestão alimentar. O aporte proteico inferior às necessidades origina diminuição na força e função muscular, o que aumenta o risco de quedas e diminui a mobilidade, que está diretamente associada à manutenção da qualidade de vida.

Essa malnutrição pode dar origem a uma série de doenças e até agravar outras. Quais são as mais preocupantes?

A presença de doença é um dos principais factores de risco para o desenvolvimento de malnutrição no idoso. A malnutrição associada à doença é um estado de insuficiente ingestão alimentar que resulta na perda de peso rápida e que poderá estar associada a um pior resultado no desenvolvimento da doença ou no seu tratamento.

Mais ainda, interfere na capacidade funcional, o que pode conduzir ao aumento da morbilidade e mortalidade, tendo como consequência o aumento dos custos de saúde.

Muitos idosos tomam medicamentos. Fazer medicação quando se tem uma alimentação deficiente pode reduzir o efeito dos medicamentos ou esse fator não tem grande influência?

A polimedicação é uma das causas de desenvolvimento de malnutrição no idoso, devido aos efeitos ao nível do trato gastrointestinal que os medicamentos provocam. Determinados fármacos podem originar secura da região oral, náuseas, obstipação e diminuição do apetite, o que compromete, ainda mais, o estado nutricional do idoso.

A depleção do estado nutricional tem impacto na toxicidade associada ao fármaco e interfere na eficácia do tratamento, sendo um exemplo, o caso de pacientes oncológicos a realizarem quimioterapia. Cada fármaco poderá ou não ter efeitos no estado nutricional do paciente, pelo que deverá procurar sempre aconselhamento junto do seu profissional de saúde.

A toma de suplementos alimentares pode suprir as carências de uma alimentação errada ou deficitária ou nem por isso?

Os suplementos alimentares constituem fontes concentradas de determinados nutrientes e destinam-se a ser tomados em quantidades reduzidas, devido aos efeitos adversos da sua ingestão em excesso. Da rotulagem deve constar a indicação que não devem ser utilizados como substitutos de um regime alimentar variado, já que não constituem fontes nutricionais completas, contendo apenas vitaminas, minerais, fibras e/ou extractos de ervas, entre outros.

Por outro lado, os suplementos nutricionais destinam-se a uma alimentação especial com fins medicinais específicos, com o objectivo de satisfazer as necessidades nutricionais de quem não as consegue alcançar apenas com a alimentação habitual, quer seja como fonte alimentar única ou como suplemento das refeições diárias.

Estes devem ser consumidos sob supervisão médica e constituem, habitualmente, fontes nutricionais completas, contendo energia, proteínas, glícidos, lípidos, vitaminas e minerais. Os suplementos nutricionais são, desta forma, os indicados para quando o idoso não come o suficiente, seja porque apresenta malnutrição associada ou não a doença, por falta de apetite ou impossibilidade de ingerir os alimentos por via oral.

Existem alimentos que rejuvenescem, como muitas vezes revistas e especialistas sugerem? Se sim, quais?

Os alimentos são constituídos por nutrientes, nutrientes estes que possuem diversas funções no nosso organismo. O envelhecimento é comum a todos os seres humanos, no entanto envelhecemos a ritmos distintos. O que devemos promover é a manutenção da qualidade de vida e manutenção da capacidade funcional, ao longo do processo de envelhecimento.

Mais do que restringir a dieta a determinados alimentos, devemos recomendar a ingestão diária de todos os grupos alimentares, para que o idoso possa manter-se activo e envelhecer de forma saudável.

Há quem defenda que o presunto protege o coração e reduz o colesterol, desde que não seja excessivamente gordo nem demasiado salgado. Concorda?

Uma fatia de presunto contém em média 43 calorias, 4 gramas de proteína e 3 gramas de gordura, da qual mais de 30% é gordura saturada, 13 gramas de colesterol e 514 miligramas de sódio. Desta forma, é um alimento com elevado teor lipídico, ronda os 54%, o que não apresenta benefício, pelo contrário.

Uma dieta com elevado teor lipídico e em sal é um factor de risco para o desenvolvimento ou agravamento de doenças cardiovasculares. O presunto pode, sim, ser incluído na dieta alimentar, mas não deverá ser consumido em excesso. Para além do mais, esta alegação de saúde deverá estar aprovada pela Comissão Europeia e constar da lista de alegações permitidas, o que não é aplicável neste caso.

Uma alimentação estritamente vegetariana é recomendada nesta fase ou uma alimentação deste tipo pode ter contraindicações?

Como referi anteriormente, a alimentação no idoso deverá ser completa, variada e equilibrada, pelo que se recomenda a inclusão dos diferentes grupos alimentares na dieta. No entanto, o plano nutricional deverá ser elaborado de acordo com as preferências alimentares do indivíduo e, se for o caso, uma dieta vegetariana bem calculada e monitorizada por um profissional de nutrição, poderá adequar-se às necessidades do idoso.

O consumo regular de queijo pode ajudar a reforçar o sistema imunitário na terceira idade? Existem estudos que o defendem...

O queijo deverá ser parte integrante de uma dieta equilibrada e variada. Relativamente aos diversos estudos existentes, devemos ser críticos relativamente à sua metodologia e resultados apresentados, pelo que aconselho que confirmem sempre este tipo de informação junto do seu profissional de saúde. Por exemplo, está comprovado que micronutrientes contribuem para o normal funcionamento do sistema imunitário.

É o caso da vitamina B12, da vitamina A, da vitamina B6, da vitamina C, da vitamina D, do folato, do ferro, do cobre, do zinco e do selénio, o que permite manter a integridade das nossas defesas naturais contra agentes externos que causam danos no organismo. O seu profissional de saúde pode ajudá-lo a atingir as necessidades diárias destes micronutrientes com a recomendação de uma dieta variada e completa.

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