Em tempos de guerra, toda a humanidade se encontra em luto.

Por processo de luto entende-se o processo de adaptação ao mundo após experienciar uma perda significativa, a qual deixa um enorme vazio que é acompanhado por sentimentos de tristeza e desamparo.

Desta forma, o processo de luto não é apenas originado pela morte de familiares e pessoas próximas, mas também por todas as perdas simbólicas que envolvem um contexto de guerra: perda da liberdade, da sensação de segurança e proteção, da estabilidade, das expectativas e planos para o futuro, da cultura e da própria identidade.

A vivência de uma perda num contexto de guerra encontra-se associada a sentimentos de revolta, zanga, impotência e frustração, os quais são acompanhados de imagens traumáticas (por exemplo, corpos de pessoas, momento da morte de uma pessoa próxima, destruição da própria casa). Inclusivamente, para as pessoas que deixam tudo para trás e que não estão em contacto direto com as imagens da guerra, existe um risco elevado de construírem imagens mentais ainda mais violentas e traumáticas (por exemplo, pensar que o familiar foi assassinado, devido a dificuldades de contacto, e que ficou em agonia durante horas).

Em poucas palavras, existe um risco elevado de ser desenvolvido um luto traumático. As mencionadas imagens traumáticas surgem de forma automática, facilitando que a pessoa em luto sinta que está a enlouquecer e que perdeu o controlo sobre a sua própria vida, bem-estar e saúde mental. São igualmente prevalentes sentimentos de culpa (“Será que eu o poderia ter salvo?”) e raiva (“Porquê ela? O mundo é tão injusto!”).

O risco de não existir um momento de despedida e rituais fúnebres é elevado e, por sua vez, o risco de uma pessoa em luto entrar em negação e recusar-se a acreditar que a pessoa perdida morreu. Em particular, no que remete para os rituais fúnebres, a literatura da especialidade aponta que estes são importantes por três fatores, nomeadamente:

  1. São o momento de confronto com a realidade, veracidade e irreversibilidade da perda.
  2. São uma oportunidade para receber afeto, estar em contacto com a dor e expressar as emoções.
  3. Facilitam um momento de homenagem e despedida.

Surge assim um processo de luto ambíguo, frequente no caso de pessoas desaparecidas, em que os familiares não possuem “um corpo para chorar”. São comuns pensamentos como “Será que ele ainda está vivo?” e sentimentos de culpa por não procurar exaustivamente a pessoa perdida.

A nível individual, as imagens traumáticas, os sentimentos de culpa e raiva e a tendência a negar a realidade e veracidade da perda dificultam a aceitação e integração da perda na identidade, fomentando o risco de serem desencadeadas complicações no processo de luto e desenvolvidas patologias como a Depressão e Perturbação do Stresse Pós-Traumático.

Contudo, como já partilhado, não são apenas aqueles que perderam pessoas próximas que se encontram em luto, mas toda a humanidade. Neste sentido, a perda da fé, da esperança e da confiança na bondade humana vivida por pessoas de todas as partes do mundo (e não somente por aqueles que rodeiam a região em guerra), faz com que estejamos a viver um luto coletivo.

E é, em parte, esta vivência de uma experiência negativa comum que nos aproxima durante um momento de tamanha fragilidade e facilita os atos de caridade e ajuda humanitária.

Se sentir que o sofrimento causado pelas perdas reais (perda de pessoa próxima) e simbólicas (perda das expectativas para o futuro, perda de uma relação) está a impedir o seu bem-estar, peça ajuda especializada. Vivemos tempos de incerteza e medo que poderão intensificar possíveis vulnerabilidades, mas não está sozinho(a).

As explicações são de Sofia Gabriel e Mauro Paulino da MIND | Instituto de Psicologia e Forense.

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