Podemos, seguramente, afirmar que a mentira é tão antiga quanto a humanidade e que a difusão de notícias falsas tem sido documentada ao longo de toda a nossa História. No entanto, é inegável que os recentes avanços tecnológicos e o aparecimento da internet reduziram as barreiras existentes entre quem propaga informação e quem a recebe, permitindo uma disseminação global de notícias, sejam elas fidedignas, ou não.

As redes sociais, como o Facebook e o Twitter, estão repletas de artigos e links para sites que alegam partilhar a “verdade” sobre uma panóplia de temas, sejam eles a pandemia Covid-19, a guerra na Ucrânia, ou, mais recentemente, a guerra no Médio Oriente. Por outro lado, são essas notícias, facilmente acessíveis e atrativas pelos títulos e imagens provocatórias que os representam, que vão, não raras vezes, determinar as nossas opiniões e posicionamentos sobre estas temáticas tão centrais na atualidade. É, assim, imperativo que consigamos discernir entre as fontes de informação fidedignas e as falaciosas, garantindo que temos uma opinião devidamente informada e fundamentada sobre o mundo.

Consideremos desinformação toda a informação falsa que é espalhada na sociedade e que influencia a opinião pública acerca de um dado tema. Exemplos de desinformação incluem rumores (peças cuja veracidade ainda não foi confirmada), teorias da conspiração (que, por definição, não são confirmáveis e tendem a ser espalhadas por quem nelas mais acredita) e farsas (em inglês, os chamados “hoaxes”, construídos propositadamente para enganar os leitores de forma humorista ou maliciosa e que recorrem, frequentemente, a fontes fidedignas de informação, tornando-se, assim, mais credíveis). A desinformação tem sido politizada nos últimos anos, ganhando o título de “fake news”, que pode ser definida como qualquer notícia propositadamente falsa, espalhada por motivos financeiros ou ideológicos, com o objetivo de enganar os leitores e levá-los a acreditar numa determinada ideia.

Mas porquê espalhar desinformação? Muitas pessoas espalham-na porque acreditam, efetivamente, na sua veracidade, devido a enviesamentos, pois as pessoas gostam de depender de padrões simples, que reduzem a necessidade de pensar de forma crítica e, no caso de notícias, tendem a acreditar em informação que confirme crenças pré-existentes. Outras pessoas espalham desinformação para ganharem um estatuto e aceitação social. Podemos identificar quatro fatores que levam a que pessoas acreditem em desinformação:

  1. A consistência da mensagem: a mensagem é consistente e vai ao encontro de crenças prévias da pessoa.
  2. A coerência da mensagem: a mensagem é plausível e bem apresentada.
  3. A credibilidade da fonte: se o autor tem credenciais, formação ou experiência prática no tema.
  4. O nível de aceitação: quantas pessoas aparentam acreditar nessa informação.

A partir do momento em que se acredita na desinformação, é muito difícil alterar estas crenças e, aliás, tentativas de argumentar contra estas tendem a perpetuar as crenças erróneas, sobretudo em grupos ideológicos (grupos com ideologias políticas ou religiosas marcadas).

Como podemos, então, verificar a veracidade do conteúdo online? Devemos, em primeiro lugar, olhar para o conteúdo da notícia, em si. Tal inclui características do texto, das imagens e a fonte da notícia. O recurso a imagens chocantes e que invocam raiva, apesar de muitas vezes contribuir para que as pessoas acreditem mais na notícia, surge frequentemente para enganar as pessoas e, como tal, pode servir para ajudar a identificar notícias falsas.

O recurso a software especializado na verificação do conteúdo também poderá ser uma estratégia eficaz para garantir a veracidade da informação. Websites como o Politifact.com e o Factcheck.org são especialmente úteis para verificar informação política, ainda que estejam exclusivamente em inglês. Em Portugal, o Polígrafo [https://poligrafo.sapo.pt/] desempenha um papel semelhante, servindo de ferramenta prática para determinar a veracidade de notícias da atualidade. Analisar a fonte de informação também é um passo fundamental. Trata-se de um órgão de comunicação social? Ou trata-se de um website sem credenciais? Dar resposta a estas questões é fulcral para determinar a credibilidade da fonte e, consequentemente, a credibilidade da informação partilhada.

Os sociólogos Robert Ackland e Karl Gwynn construíram um método para auxiliar leitores a determinar a veracidade de informação partilhada online. Para tal, podemos questionar:

  • As estatísticas ou factos apresentados são fundamentados pela evidência científica ou por outras fontes não credíveis?
  • Qual é a importância da estatística ou facto que não foi verificável? Ele tem um impacto moderado ou severo na validade do artigo?

Assim, estatísticas ou factos não fundamentados e que estão na base de alegações e conclusões de relevo sobre uma temática deverão ser questionados de forma crítica e investigados com maior rigor.

Por fim, os Psicólogos Sander van der Linden e Jon Roozenbeek propõem uma aplicação da “Teoria da Inoculação” a esta problemática: ao avisar as pessoas sobre a ameaça da desinformação e ao refutar essa desinformação logo, à partida, as pessoas estão mais dispostas a resistirem a esta informação falsa, motivando-as a proteger a informação verdadeira. Tal exige, certo é, que a disseminação da informação verdadeira seja pronta e rápida.

Não caia na armadilha da desinformação. Procure fontes fidedignas.

Um artigo dos psicólogos clínicos Mariana Moniz e Mauro Paulino, da MIND | Instituto de Psicologia Clínica e Forense.

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