Onde nos idos do século XVIII Lisboa espairecia no Passeio Público, artéria murada que se espreguiçava para norte, desde a Baixa Pombalina, haveria de nascer com o século de novecentos a Avenida da Liberdade. Os 1100 metros que medeiam entre a Praça dos Restauradores, a sul, e a Praça do Marquês de Pombal, a norte, fizeram-se parte indissociável da história da cidade de Lisboa. À Liberdade, tornada avenida, bastar-lhe-iam para a fama as qualidades cénicas, misto de jardim e de urbano, onde subsiste algum do casario histórico que emoldurou em séculos anteriores a artéria.

Mas a Liberdade fez-se mais. É casa de escritores, representados nas estátuas de Almeida Garrett, Alexandre Herculano e António Feliciano de Castilho, tornou-se símbolo popular, com as marchas antoninas; ganhou, mais recentemente, estatuto de avenida de luxo, com a presença de marcas de moda de estatuto mundial. À Liberdade também não se lhe subtrai a feição de boa mesa, misto de restaurantes históricos, como o inevitável Gambrinus e de uma nova leva de casas de boa ementa.

Na Avenida onde vive a Liberdade a cervejaria não se acomoda aos lugares-comuns
Queijo de ovelha Monte da Vinha. créditos: Daniela Costa

No rol de restaurantes com memória há que incluir uma cervejaria que, não obstante ter cartão de cidadão com data de nascimento a apontar ao ano de 2017, traz na genealogia um passado com algumas dezenas de anos. A Cervejaria Liberdade, instalada no Hotel Tivoli Avenida, embora com acesso direto pelo exterior, herdou o espaço e também alguma da linhagem na ementa da anterior Brasserie Flor, restaurante que ali a antecedeu. E, não esquecer, na mesma morada habitou, antes, o restaurante Beatriz Costa (em homenagem à atriz que viveu por largo tempo no hotel) e, anterior, o restaurante Zodíaco.

É de presente que falamos. Especificamente de uma casa que, não obstante ostentar no nome o termo cervejaria, se afirma com uma assinatura própria. Ambiente cuidado, decoração sóbria, onde impera a larga estante, mostruário de referências vínicas de diferentes origens. Presenças com personalidade, a grande tapeçaria em exposição numa das paredes, o largo balcão e as janelas, unindo chão e teto, miradouros sobre a avenida da Liberdade.

Na Avenida onde vive a Liberdade a cervejaria não se acomoda aos lugares-comuns
Ostras da Ria Formosa. créditos: Daniela Costa

No que toca aos lugares-comuns das cervejarias, com aquários em jeito de mostra de mariscos e cerveja a debitar de torneiras, este é cenário que não se acomoda à Cervejaria Liberdade. Os tanques com o marisco moram na cozinha e a carta de cervejas foi substituída por uma robusta carta de vinhos. Já os comestíveis, aconchega-se ao que temos como os inseparáveis do cardápio cervejaria.

Nesta nossa visita, optamos pela prova do Menu Executivo Completo. As sugestões, que incluem entrada, prato principal e sobremesa (25,00 euros), mudam diariamente, de segunda a sexta-feira, e com amplitude para não fomentar monotonia à mesa. Entre os pratos, sublinhe-se, como entrada, as Gambas salteadas com alho, nos principais, o Robalinho grelhado e o Bacalhau à Brás e, a fechar, o Pudim Abade de Priscos.

Na Avenida onde vive a Liberdade a cervejaria não se acomoda aos lugares-comuns
Creme de marisco. Daniela Costa

À mesa, depois de um par de entradas com o espanhol Presunto Joselito e um nacional queijo de ovelha Monte da Vinha, proveniente do Alentejo, chegam-nos umas ostras fresquíssimas da Ria Formosa (também com fornecedores em Aveiro e Setúbal), um Creme de marisco sedoso, sem descuido no tempero, um Carpaccio de polvo, laminado finíssimo, com acidez quanto baste e al dente. Para principais, o Bife do lombo à Cervejaria revelou a sua tenrura, acompanhado de molho guloso onde apeteceu mergulhar as batatinhas fritas, estaladiças e sem excessos de óleo. Já o Arroz de marisco, servido em tachinho de dose única, mas generosa, revelou-se ‘malandrinho’ como se pede. A finalizar, à sobremesa, a mise en scène do Restaurant Manager Renato Pires, com a preparação frente ao cliente de Crepes Suzette de calda cítrica.

Na Avenida onde vive a Liberdade a cervejaria não se acomoda aos lugares-comuns
Arroz de marisco. créditos: Daniela Costa

Espraiando o olhar sobre a ementa e destacando algumas das propostas desta Cervejaria Liberdade, não há como escapar, ainda no que toca a entradas, às Amêijoas à Bulhão Pato (18,00 euros), à Casquinha de sapateira (18,00 euros) ou a umas Gambas fritas, alho, malagueta, coentros e sumo de limão (15,80 euros).

Já nos pratos de resistência, elegemos, no que respeita ao peixe, o Arroz malandrinho de mariscos da nossa costa (31,00 euros), a Açorda de marisco (26,50 euros), as Filetes de peixe galo dourados com arroz cremoso de tomate e coentros (25,50 euros) ou o Bacalhau grelhado, batata a murro, grelos salteados (26,50 euros). Isto, sem desmerecer nos maricos: sapateira e lagosta com venda ao quilo e camarão tigre e lavagante a dizerem presente na carta.

Na Avenida onde vive a Liberdade a cervejaria não se acomoda aos lugares-comuns
Bife à Cervejaria. créditos: Daniela Costa

Cervejaria pede um remate – ou continuação ­­- com dose abonada de carne. Na Cervejaria Liberdade esta faz-se representar nos Secretos de porco preto grelhados, com açorda de amêijoas (26,50 euros), no Bife do lombo à Cervejaria com batata frita caseira (26,50 euros) e no inevitável Pica-pau de novilho, alho, louro e batata frita caseira (22,90 euros).

 Na Avenida onde vive a Liberdade a cervejaria não se acomoda aos lugares-comuns
Crepes Suzette. créditos: Daniela Costa

Havendo vontade de levar a refeição até ao território sempre mágico das sobremesas, entre diversas opções, que se escolha entre a Mousse de cacau 70% (9,50 euros) e a Tarte de maçã caseira com gelado de canela (9,00 euros).

Cervejaria Liberdade

Avenida da Liberdade, nº 185, Lisboa

Horário: Segunda a sexta, das 12h00 às 15h00

Contactos: tel. 213 198 620; e-mail: cavenidaliberdade@tivolihotels.com

Para antecipar um almoço a saber pelo céu, não se esqueça o leitor de fazer a sua reserva com um pedido: uma mesa contigua à janela. Vale o velho adágio, “os olhos também comem”. Não só aquilo que nos chega ao prato.

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