Em entrevista à Agência Lusa, Patrícia Pinho, especialista em impactos das mudanças climáticas sobre o desenvolvimento sustentável na Amazónia e outros ecossistemas na América do Sul, alertou para as graves consequências do aumento da temperatura e dos fenómenos extremos na saúde e atividades humanas.

A grande desigualdade económica entre os países dos hemisférios sul e norte é outro dos alertas da bióloga, já que “pode ser tarde de mais” para muitos países africanos e da América Central que não têm as mesmas oportunidades e, por isso, podem não conseguir ter uma capacidade para se adaptar.

Patrícia Pinho deu como exemplo pescadores na Amazónia que “já só conseguem pescar entre as 5:00 e as 9:00”, por lhes ser humanamente impossível suportar o trabalho em horas mais quentes “reduzindo a oportunidade para garantir o seu sustento”.

A bióloga brasileira integra o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), organização científica criada no âmbito da ONU que juntou até hoje na Universidade do Algarve mais de 250 especialistas em alterações climáticas, numa reunião técnica de um dos grupos de trabalho do IPCC que estão a elaborar um novo relatório de avaliação da situação global relativa às alterações climáticas.

A especialista destacou também o facto de alguns lugares já se terem tornado “inviáveis devido às secas consecutivas” ao mesmo tempo que há episódios de chuvas intensas, não só na Amazónia, mas em outras regiões do Mundo, afetando essencialmente quem têm uma “maior dependência económica do mar e da terra.

“O que é que essas pessoas vão fazer? Onde vão morar? Como se vão alimentar?", questionou, lembrando a insegurança alimentar como um dos impactos no bem-estar humano diretamente associados à natureza e ao clima.

A investigadora afirmou que para algumas pessoas ainda é difícil entender a Amazónia como uma zona de impacto climático, já que é encarada com um território “de grande biodiversidade e floresta”, mas sublinhou que tentam “anular as pessoas que lá vivem” - 30 milhões de pessoas, só em território brasileiro - e o facto de que a floresta “ocupa nove países”.

Os fenómenos extremos cada vez mais frequentes - com anos consecutivos de seca, alternados com chuvas intensas, que aumentam o nível dos rios em 18 metros a cada cheia, em vez dos habituais 10 – têm provocado “perda de infraestruturas, aumento de doenças e perdas de vidas”, o que, somado aos incêndios florestais, “só aumenta a vulnerabilidade das pessoas das florestas”.

Os incêndios dos últimos anos no sul da Europa ou na Austrália, com uma magnitude “nunca antes verificada”, são outros exemplos dados pela investigadora que destacou também as ondas de calor – com temperaturas a atingir os 45ºC – a provocarem um enorme impacto “no bem estar humano, saúde e capacidade de trabalho” e nas atividades económicas.

Patrícia Pinho relembrou que o IPCC não indica a cada país o que tem de fazer, mas produz documentos com dados científicos, que “já apontavam para estas realidades”, mas infelizmente só “quando as pessoas sentem na pele” e de uma forma económica é que acabam por reagir: “Há muita inércia”, lamentou.

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