As férias devem ser principalmente emocionais. No dia a dia, eu não gosto de esperar largos minutos numa fila de supermercado, mas se não tiver as horas contadas, e se for junto ao mar de preferência, encaro-o com outro ânimo. A isto chama-se disponibilidade emocional. Basicamente, aquilo que a rotina nos tira. Obriga-nos a ter pressa, a cumprir horários, a sentir que não podemos perder tempo e que estamos a falhar imperiosamente em algum lado... e aí vem a ansiedade, trazendo com ela as noites sem dormir. Calma, está tudo controlado.

Férias para mim começa por estar com aqueles que amo, e que estejam bem de saúde física e emocional, se possível... Quero com isto dizer que saibam “desligar-se” e viver naquele momento que é mesmo para relaxar. O conceito de mindfulness também se aplica aqui. Se eu estiver nas férias a pensar no trabalho não relaxo, mas se estiver no trabalho a pensar nas férias, também não sou tão produtiva e eficiente. Trata-se apenas de fazer as coisas na altura certa. Estão vocês a pensar: “falar é fácil”! Mas sempre podemos treinar a nossa eficácia em saber desligar o botão quando é preciso, e a motivarmo-nos quando necessário, como se de um auto-coaching se tratasse.

Ter férias é basicamente fazermos aquilo que mais nos dá prazer, e curiosamente são as coisas mais simples e low cost. Desde que fui mãe, que dormir bem é um luxo para mim e tem um verdadeiro impacto no meu humor e bem-estar.

Às vezes temos mesmo que parar, saber parar, exigir parar. Numa altura em que tanto se fala da síndrome de burnout (do inglês to burn out, algo como “queimar por completo”), do psicanalista nova-iorquino Freudenberger, é urgente saber quando parar. O burnout leva a um estado de esgotamento físico e mental intenso, intimamente ligado ao stress da vida profissional.

Posto isto, vamos então planear as férias? Para fora, para dentro, em casa? Com família, amigos? Com tanta coisa para decidir pode tornar-se esgotante para alguns. Eu sempre gostei de planear, organizar, viagens de avião, barco, comboio, carro, percursos pedestres. Fazer listas de coisas para levar. Adoro fazer listas, apesar de mesmo assim me esquecer de metade das coisas, porque depois não sei da lista ou não a tenho quando é precisa, mas fica a memória fotográfica de a ter escrito, valha-me isso!

A função de cicerone assenta-me que nem uma luva, gosto de incitar a curiosidade nos outros, fazer surpresas, motivá-los para agir... até nas férias. Cicerone - palavra proveniente da eloquência e do tipo de ensino praticados por Marco Túlio Cícero, notável orador e advogado reconhecido, de origem Romana. Eu sou uma guia turística de algibeira, de pesquisa, mas o que é certo é que quando chego aos locais parece que as ruas já me são familiares... Consigo transmitir essa segurança a quem estou, com o meu entusiasmo, e lá está, com eloquência. E não, não é uma sensação de deja vu, tem mesmo a ver com o meu estudo prévio “científico” da “coisa”.

Neste momento, férias para mim é maravilhar-me em mostrar o mundo aos pequeninos olhos do meu filho, e a observá-lo a fazer aquisição de conhecimentos, a evoluir para novas etapas desenvolvimentais, deixa-me ser prática: vê-lo a crescer. E a tornar-se uma identidade, dentro da nossa família, da nossa casa, com as suas preferências, a encaixar-se cada vez mais naturalmente nas nossas rotinas e gostos. Partilha o gosto pelo peixinho e pelas saladas da mãe, os mesmos “lambiscos” ou guloseimas preferidos dos pais: chocapicos, azeitonas e afins… Os abracinhos constantes e os mimos, a consciência enorme do saber onde e com quem está, tão “madurinho” já! Estou ansiosa por o levar para a natureza, andar de bicicleta com o cheirinho do vento veraneante, ver o mar, brincar na areia.

E curiosamente deixei de ter o fenómeno de depressão pós-férias, porque sinto que as aproveitei ao máximo, quando devia. E crio memórias positivas que me dão força em momentos de maior tensão ou angústia. Para poder voltar a reviver momentos positivos daqueles, preciso para isso entre outras coisas, trabalhar antes. E quando regresso ao trabalho venho mais motivada, com energia, e chego mesmo a precisar de rotina, a todos os níveis. Mais uma vez a teoria dos opostos: se não trabalharmos não nos sabe tão bem descansar, se não estivermos em algum momento tensos, não sentimos a importância do relaxar.

Estão prontos para desligar a sério?

Então boas férias!

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