A realidade atual foi-nos chegando pouco a pouco. Durante os primeiros tempos deste novo vírus, todos assistíamos calmamente ao seu percurso do outro lado do mundo. Depressa se tornou em pandemia, deixando-nos muito atentos a tudo o que acontecia e a toda a informação que aparecia. Já estava à nossa porta e nós, do outro lado, a não a deixar entrar, mas sempre atentos. Rapidamente passámos a falar das consequências e do impacto da pandemia, com esta ainda bem presente. Expressões como o “novo normal” ou a “nova realidade” passaram a fazer parte do nosso vocabulário. Mas do que estamos realmente a falar?

Mais do que pensar de forma geral no impacto que a pandemia terá no mundo e nas suas populações, importa focar no impacto que terá em cada um de nós: o impacto emocional.

Todos vivemos estes momentos que já correm desde março até hoje de forma diferente. O impacto do novo coronavírus tem sido sentido em cada um individualmente, dentro de si, na relação consigo e com os outros, na forma de ver o mundo e de o experienciar. O que conhecemos hoje é obrigatoriamente diferente do que era antes. Não só pela pandemia, mas porque toda a mudança implica diferença e a diferença implica adaptação. Mas não é sempre assim?

A realidade tem um papel importante na conceptualização do que sabemos existir em nós, nos outros e no mundo. Mas mais importante do que a realidade, é a perceção que cada um tem sobre essa realidade. Isso sim, define-nos e orienta-nos na nossa ação e pensamento do dia a dia. Então, a nossa adaptação à mudança situa-se na nossa perceção e, assim, podemos ser agentes da mesma. Claro que existem cuidados a ter e depende de todos que a pandemia não ganhe uma dimensão maior. Mas, o impacto em cada um de nós depende, sobretudo, da forma como a nossa estrutura emocional irá percecionar essa realidade.

Desta forma, esta “nova realidade” é o dia a dia. Todos os dias vivemos e experienciamos o mundo de forma diferente do dia anterior pois acrescentamos a experiência do dia anterior. Todos os dias existem situações que nos levam a mudar de direção, a fazer escolhas diferentes e a ponderar opções que de outra forma nunca pensaríamos. O “novo normal” são todos os dias.

O que acontece de tão especial na pandemia são as suas circunstâncias particulares. Há medidas a tomar e precauções a ter. Opções que nos foram ditas e que, com toda a lógica conhecida, cumpridas de forma rigorosa. É um coletivo consciente que se adaptou a um funcionamento que foi acontecendo à nossa volta até parecer uma nova realidade. Mas não é. É a mesma e exige adaptação.

Para evitar dificuldades na nossa adaptação, seja à pandemia, seja às situações do nosso quotidiano, é fulcral que exista regulação emocional e respeito pelas nossas sensações. Só desta forma conseguimos ser verdadeiros connosco próprios e, assim, estar em sintonia com o nosso melhor funcionamento, em bem-estar. Estamos a falar de um tema que, por si só, acarrecta uma carga severa de stress e, por isso, é potenciador de ansiedade. É imprescindível uma boa adaptação para que o impacto, real e percebido, seja menor e, assim, provoque menor mudança não desejada.

Em suma, focar em nós, no que sentimos, nas nossas emoções, não as esconder nem ignorar, representa o respeito que temos pela nossa saúde mental, tão importante para que o impacto emocional da pandemia seja o mais pequeno possível. Para isso, claro, há mudanças a fazer que representam as nossas estratégias de adaptação. Sejam elas quais forem, não deixem de pensar sobre elas e de as seguir. Respeitem-se emocionalmente e tudo ficará o melhor possível.

Tiago A. G. Fonseca - Psicólogo Clínico

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