De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) existem sempre, não um, mas vários fatores que colocam em risco um indivíduo, sendo que para além da diversidade e complexidade de cada um destes fatores, é necessário considerar que interagem entre si.

Muito do que se sabe sobre o suicídio deriva de estudos nos quais os investigadores entrevistam familiares ou amigos desenvolvendo um trabalho chamado de “autópsia psicológica”, no qual tentam identificar à posteriori eventos específicos da vida da pessoa e sintomas sugestivos de doença psiquiátrica. E têm concluído que fatores genéticos, emocionais, ambientais e sociais conjugam-se culminando num ato de desespero, dos quais se podem destacar como principais fatores de risco:

- Depressão ou outro distúrbio mental e/ou dependência de substâncias (mais de 90% das pessoas que cometem suicídio apresentam estes quadros)

- Tentativa de suicídio prévia

- História familiar de perturbações mentais, abuso de substâncias ou suicídio

- Violência familiar, incluindo violência física ou abusos sexuais

- Armas em casa

- Exposição a comportamentos suicidas de outros (familiares, pares ou figuras media)

A sensação do "beco sem saída"

Dados publicados na revista Suicide and Life-Threatening Behavior a propósito de uma nova investigação sugerem que um dos fatores predominantes é a sensação de que não é possível continuar a suportar a dor psicológica e a dúvida de se algum dia será possível (a sensação de se estar num “beco sem saída”).

Os dados indicam que uma tentativa de suicídio pode não ser apenas um ato impulsivo ou um pedido de ajuda, contrariamente ao defendido por estudos anteriores; poderá ser, sim, reflexo de um “depósito” de dor e sofrimento acumulados, ao qual se junta a descrença de que algum dia esse “depósito” possa esvaziar e tornar-se menos penoso, sendo a percepção da morte um fator que poderá distinguir os que pensam em suicídio daqueles que realmente o praticam – quanto menor medo existir de morrer, maior o risco.

O suicídio é considerado a nível global como um problema de saúde pública, tanto nos países industrializados como nos em vias de desenvolvimento, sendo permanentemente objeto de investigação.

Vários estudos defendem que a tendência de aumento das taxas na maior parte dos países se deve à perda da coesão social, ao desaparecimento das estruturas familiares, ao aumento da instabilidade económica e aumento do desemprego e ao também aumento da prevalência de desordens do foro depressivo.

Um milhão de casos por ano

Todos os anos morre um milhão de pessoas de suicídio. Uma taxa de mortalidade global que representa uma morte a cada 40 segundos e uma tentativa de suicídio a cada 3 segundos. Além disso, os comportamentos suicidas são mais extensos e numerosos, indo muito além dos atos consumados e das tentativas.

Portugal é o terceiro país da Europa onde o suicídio mais cresceu nos últimos 15 anos, estimando-se que morram mais de cinco pessoas por dia, segundo dados de um relatório europeu apresentado no âmbito do projeto OSPI-Europe, uma estratégia de prevenção do suicídio preconizada pela Aliança Europeia Contra a Depressão (EAAD).

Para além das mortes registadas como suicídio, existem outras tantas designadas de mortes violentas indeterminadas das quais se estima que mais de 75% sejam suicídios escondidos.

Segundo o mesmo documento, estima-se que cerca de 20 milhões de europeus sofrem de depressão e mais de 60 mil morrem anualmente por suicídio.

Em Portugal, as doenças mentais comuns afetam quase 23 % dos portugueses adultos (mais de dois milhões por ano) e a depressão afeta 7,9% dos adultos (400 mil pessoas), sendo o suicídio uma complicação médica resultante destas perturbações mentais, em particular da depressão.

Embora de acordo com a OMS as taxas de suicídio globais tenham vindo a baixar, nos últimos 15 anos registou-se uma tendência para o aumento do suicídio no nosso país, tendência só verificada na Europa em Malta, Islândia e Polónia. Adicionalmente, também se verifica uma tendência inversa nos jovens, com um aumento progressivo de ano para ano.

Atualmente, pelo menos 100.000 adolescentes cometem suicídio todos os anos, de acordo com a American Foundation for Suicide Prevention e estima-se que o número de tentativas de suicídio seja 20 vezes superior ao número de suicídios.

As diferenças entre géneros são muito acentuadas. A Child Studies Center conclui que, nos Estados Unidos, nas idades entre os 10 e os 14 anos os rapazes comentem suicídio com três vezes mais frequência do que as raparigas, entre os 15 e os 19 anos o número passa para cinco vezes mais e, finalmente, entre os 20 e os 24, dispara para 10 vezes mais.

Estas diferenças são explicadas, em parte, pelo facto de os rapazes utilizarem métodos de se magoarem mais letais. As exceções a estes valores são a China, Cuba, o Equador, El Salvador e o Sri Lanka onde as taxas entre as mulheres são mais elevadas.

É possível inverter a marcha

As muitas solicitações que marcam o ritmo de vida acelerado dos nossos dias podem levar a que as pessoas deixem de reparar verdadeiramente umas nas outras, mesmo quando vivem debaixo do mesmo teto; deixem até de reparar em si e nas suas necessidades.

O stress encobre tudo e o cansaço tende a ser uma explicação universal.

A prevenção do suicídio não é algo que esteja reservado a médicos e outros profissionais de saúde; deve ser uma preocupação partilhada por todos nós. Todos os dados reforçam a necessidade de se estar atento aos sinais pronunciados, a alterações de comportamento, a modificações no padrão de relacionamento, a quebras pronunciadas de rendimento, a perdas súbitas de interesse e prazer.

E se todos os dias tirarmos uns minutos para nos sentirmos de forma plena no aqui e no agora e para olharmos para quem está à nossa volta, uns minutos sem distrações nem contra-relógios, talvez consigamos ouvir vozes baixinhas a pedir ajuda, talvez consigamos cuidar melhor de nós e daqueles que amamos para fazer com que haja gosto em viver a vida.

Por Filipa Jardim da Silva, Psicóloga Clínica