É o cancro mais frequente nas mulheres e a segunda causa de morte por cancro. Em média, todos os anos morrem cerca de 1.500 mulheres vítimas de cancro da mama, em Portugal. Apesar dos números pessimistas, bastaria a palpação mensal em casa, uma maior vigilância clínica e o diagnóstico precoce para inverter as estatísticas. Graças aos avanços da ciência, têm havido, todavia, progressos a registar nos últimos anos.

Mais de 70% dos casos já são tratáveis se o tumor for detetado numa fase inicial. Com a ajuda de Fátima Cardoso, oncologista médica e diretora da Unidade de Mama do Centro Clínico Champalimaud, em Lisboa, aprenda a defender-se da doença e a libertar-se do medo. A Comissão Europeia emitiu uma recomendação para que, a partir de 2016, todos os países passassem a ter, na lei, a constituição de unidades de mama.

O alargamento destes serviços de tratamento exclusivo de doentes com cancro da mama foram uma das causas pelas quais Fátima Cardoso, uma das mais conceituadas oncologistas nacionais, se tem batido. A escolha do local de tratamento é o mais importante, opina. Há uma diferença de mortalidade de 30% se for operada por um cirurgião especialista que opere mais de 50 casos por ano face a alguém que opere menos de cinco por ano.

O que é o cancro da mama?

No ciclo de vida normal, as células nascem, vivem e morrem. Quando este fenómeno natural de morte celular, conhecido por apoptose, não acontece, as células tornam-se imortais e adquirem uma exagerada capacidade de se multiplicar, tornando-se células cancerosas. Existem mais de cem tipos de tumores. Nos últimos tempos, o cancro da mama passou a ser o segundo mais mortal entre as mulheres, depois do pulmão.

Como esclarece Fátima Cardoso, esta é "uma neoplasia maligna que afeta os tecidos localizados numa das mamas", um tumor primitivo, como os médicos também lhe chamam. "Em cerca de 10% dos casos, o diagnóstico acontece porque se deteta primeiro uma ou várias metástases, os tumores filhos, antes de se detetar o tumor primitivo", sublinha mesmo a diretora da Unidade de Mama do Centro Clínico Champalimaud.

O que são os genes BRCA 1 e BRCA 2?

Conhecidos por aumentar o risco de cancro, "estão associados ao processo de renovação celular, se estiverem a funcionar corretamente", esclarece. "Quando estão alterados ou mutados, não ocorre a morte natural da célula, levando ao risco de cancro da mama e do ovário, mas também do pâncreas, da próstata e do estômago. O BRCA 1 está mais associado a tumores triplo negativos e o BRCA 2 a recetores de marcadores hormonais positivos", diz.

A que sintomas devo estar atenta?

Ao primeiro indício de alteração na forma da mama, no mamilo ou na axila, segundo a oncologista, é importante consultar o seu médico. "O sintoma mais frequente é o aparecimento de um nódulo, que se deteta ao palpar as mamas ou as axilas. Também podem acontecer escorrências ou retração do mamilo", afirma.

"Por vezes, aparecem casos mais graves com sinais inflamatórios, em que a pele da mama fica vermelha e espessa", alerta a médica oncologista portuguesa. "É pouco habitual sentir dor, a menos que o cancro já esteja numa situação muito avançada", explica, contudo, a diretora da Unidade de Mama do Centro Clínico Champalimaud.

Como se pode reduzir o risco da doença?

Até ao momento, a ciência ainda não descobriu nenhum tratamento de prevenção primária, uma terapêutica efetiva para evitar o aparecimento da doença em mulheres saudáveis, à exceção de pessoas que já tiveram uma alteração pré-maligna. "Nos casos de carcinoma in situ, e outras alterações pré malignas, pode utilizar-se tamoxifeno como prevenção que reduz para cerca de metade o risco de aparecimento de cancro", alerta.

Existem, no entanto, fatores de risco aos quais deve estar atenta e cuidados ao nível do seu estilo de vida que deve implementar que podem ajudar a manter o seu organismo saudável e que até já sabe quais são. Além de uma alimentação saudável e da prática regular de exercício físico, deve evitar roupa apertada na zona do peito. Ingerir álcool e fumar está fora de questão. Deve também fazer o autoexame da mama com regularidade.

Quais os grupos de maior risco?

Fátima Cardoso indica que a maior parte dos condicionantes não é modificável. "O facto de ser mulher e a idade são fatores de risco, mas não os podemos alterar. Uma em cada oito mulheres nos países desenvolvidos vai ter cancro da mama na sua vida", refere. "À medida que a idade avança, o risco aumenta", adverte. Fátima Cardoso sublinha, contudo, que pertencer ao grupo de risco não significa que se irá desenvolver a doença.

"Os fatores ambientais como os altos níveis de poluição ou tratamentos de radioterapia ao tórax na juventude, os hormonais como a menstruação precoce e a menopausa tardia e os constitucionais, como a idade e o sexo, aumentam o risco, uns mais do que outros, mas por existirem não significa que se terá cancro da mama", informa a médica oncologista. "Na maior parte dos casos, não acontece", refere ainda a especialista.

A produção de hormonas femininas é um fator de risco?

Além do género e da idade, existem elementos biológicos importantes. "O início precoce da menstruação e uma menopausa tardia, que deixam a mulher muito tempo exposta a altos níveis de estrogénio, e o facto de não se ter tido filhos. Há estudos que mostram que amamentar poderá ter algum efeito protetor", aponta. A associação American Cancer Association menciona também que ter tido vários filhos e, desde cedo, reduz o número dos ciclos menstruais, protegendo a mulher.

As hormonas medicamente prescritas são seguras?

Várias pesquisas já comprovaram a associação entre a terapia hormonal de substituição e o cancro da mama. A médica adverte que "a decisão de tomar ou não essas hormonas tem de ser ponderada". "Por vezes, nos primeiros dois anos da menopausa, os sintomas destroem de tal forma a qualidade de vida de uma mulher que não há outra solução possível. Este tratamento não deve, contudo, exceder os cinco anos", alerta, contudo.

Na minha família há casos de cancro da mama. Devo preocupar-me?

Apenas entre 5% a 10% por cento dos cancros da mama são hereditários, indica a associação norte-americana American Cancer Association. Inúmeros estudos médicos provam, no entanto, que o alerta deve ser maior quando houver registo de casos de familiares diretos, como a mãe, a irmã e a avó. Fátima Cardoso lembra que "nestes casos, o risco está aumentado entre duas vezes e meia a três, em relação à população geral".

"Se reúne todos estes fatores, é fundamental fazer a consulta de aconselhamento genético, podendo começar por pedir aconselhamento junto do seu médico de família", aconselha. "Comece uma  vigilância clínica mais cedo, mesmo durante os 20 e os 30 anos e faça uma primeira mamografia de base aos 35. No entanto, a idade para o rastreio regular não se altera", refere a especialista, habituada a acompanhar mulheres nestas idades.

Como se faz o rastreio?

A idade para iniciar a prevenção e rastreio da doença não é clara e até existe alguma controvérsia e diferenças entre países, como se verificou ao longo das últimas décadas. Fátima Cardoso aconselha a fazer-se regularmente a palpação, na semana a seguir ao fim do período menstrual e ser vista por um médico, médico de família ou ginecologista, "pelo menos, uma vez por ano, a partir dos 35/40 anos", recomenda.

A especialista sublinha, ainda, que "está provado o valor da mamografia, em especial quando é associada à ecografia". Caso não haja historial de risco, a periodicidade para se submeter a este tipo de testes varia. "É de dois em dois anos, entre os 40 e os 50 anos e, anulamente, entre os 50 e os 70 anos", afirma. "Fazer mamografias nas mulheres jovens não é útil, pois os tecidos são muito densos e veem-se mal", refere ainda.

Qual a percentagem de casos em que é necessária a mastectomia?

A mastectomia não deve ser a primeira opção de tratamento. "A ciência evoluiu no sentido de tornar a cura mais eficaz e menos agressiva. Tentamos sempre, pode ser necessário começar com quimioterapia para reduzir o tamanho do tumor, que seja possível a cirurgia conservadora, aplicada em 70% a 80% dos casos", refere. "Num serviço que trate cancro da mama, a percentagem de mastectomia não deve ultrapassar os 30%", diz.

Quais as hipóteses de sobreviver à doença?

Quando há uma suspeita, realiza-se uma biopsia para confirmar o diagnóstico. se os resultados são positivos, discute-se qual o tratamento mais eficaz. "Há vários tipos de cancro da mama com evoluções e prognósticos muito diferentes", sublinha a diretora da Unidade de Mama do Centro Clínico Champalimaud. "A probabilidade de cura vai depender do subtítulo do tumor", acrescenta ainda a médica oncologista.

Nos últimos anos, a ciência tem evoluído. "Hoje em dia, podemos curar cerca de 70% dos casos de cancro da mama. Um terço dos que são diagnosticados precocemente e para os quais se fazem os tratamentos corretos vai ter uma recidiva", esclarece Fátima Cardoso. "Esta percentagem é maior no cancro da mama triplonegativo do que no com recetores hormonais positivos", acrescenta ainda a prestigiada médica oncologista.

Em que casos se faz quimioterapia e radioterapia?

"Após uma cirurgia conservadora é sempre necessário fazer radioterapia, um tratamento local. Também pode ser usada após uma mastectomia e em lesões metastáticas. A quimioterapia é um tratamento sistémico [que percorre o organismo] e que mata especialmente as células que crescem rapidamente", refere a especialista.

"A decisão sobre a quimioterapia depende do tamanho do tumor, da existência ou não de gânglios axilares positivos, do grau de agressividade e da existência ou não de recetores hormonais e Her-2", afirma ainda a diretora da Unidade de Mama do Centro Clínico Champalimaud, habituada a lidar com casos complicados.

Quanto tempo, após o tratamento, se pode considerar que estamos a salvo da doença?

A resposta varia. "Num cancro triplo negativo, há maior tendência para recidiva precoce", alerta Fátima Cardoso. "Nos cancros de recetores hormonais positivos a recidiva pode acontecer 15 a 20 anos depois", avisa. "É por isso que nunca digo às minhas doentes que estão curadas. Porque eu não sei", assume.

"Globalmente, há um risco elevado de recidivas entre os dois ou três anos iniciais, passando a intermédio até aos cinco anos. Após esse período, as probabilidades que corra tudo bem são de 95% ou 97% por ano, com um risco entre 3% a 5% por ano. A maioria das recidivas são metástases à distância", conclui a especialista.

Texto: Fátima Lopes Cardoso com Fátima Cardoso (oncologista médica e diretora da Unidade de Mama do Centro Clínico Champalimaud)

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