Portugal está no pelotão da frente dos países com maior consumo
de bebidas alcoólicas, estando a crise económica a contribuir para agravar a
situação. Atualmente estima-se em 6% o número de alcoólicos existentes no país.
Porém, os serviços de saúde não correspondem às necessidades para resolver este
problema de saúde pública. Assim o diz Rui Augusto Moreira, presidente da
Sociedade Portuguesa de Alcoologia, que faz o balanço do alcoolismo em Portugal,
no ano em que a SPA comemora 25 anos de existência.

Por Sónia Santos Dias

Nota-se aumento ou diminuição do consumo de álcool devido à crise?
A crise económica associada que está ao desemprego gera um aumento de consumo de bebidas alcoólicas e das suas consequências. Há evidências de que um aumento de 3% no desemprego se associa a 28% de mortes causadas pelos problemas ligados ao álcool. Esta grave crise que estamos a atravessar é propícia ao aumento dos consumos e às consequências do mesmo. Sempre que existe um mal-estar procuramos alivia-lo, e as bebidas alcoólicas acessíveis e a custos baixos são um recurso possível. Mas não fiquemos “atolados” no pessimismo, porque as crises também geram alternativas e oportunidades de mudança para melhor. Espero que esta crise propicie movimentos e medidas positivas para enfrentar este gravíssimo problema.

Como está o alcoolismo em Portugal?
Sendo os problemas relacionados com o álcool um grave problema de saúde pública, requeria uma atenção mais ajustada por parte das entidades estatais, mas também das não-governamentais. Por exemplo, a situação relativa ao tratamento dos doentes alcoólicos não está muito bem, na medida em que as pessoas que são dependentes de álcool não têm uma boa acessibilidade aos cuidados para se tratarem. A rede alcoologica já foi estudada e debatida e é necessário apenas que passe à ação.

Portugal está nos lugares cimeiros no consumo de bebidas alcoólicas, sendo a bebida mais consumida a cerveja seguida do vinho. Segundo o estudo de Balsa et al. (2008) mais de 15% dos jovens entre os 20-24 embriagou-se no último mês. Nos sucessivos estudos do European School Survey on Alcohol and other Drugs (1995,99,2003 e 2007), verifica-se um aumento dos padrões de consumo do tipo  “binge drinking” (consumo de várias bebidas numa só ocasião)  de 25% para 56%. Em estudos de âmbito regional e local confirmam-se estas tendências de elevados e precoces consumos de bebidas alcoólicas. O último estudo apresentado pelo Prof. Jorge Negreiros em Guimarães, realizado em nove escolas (básicas e secundárias do 7º ao 12º ano de escolaridade) revela que 74,4% dos jovens já consumiu álcool e que 40% o faz de uma maneira regular.

Os jovens estão precisamente entre os grupos de risco, tal como as mulheres. Porquê?
Os jovens até aos 18 anos não devem consumir bebidas alcoólicas, porque o seu organismo não está preparado para as metabolizar. Logo, os danos físicos e psicológicos são graves e vão desde perturbações no desempenho escolar até às elevadas probabilidades de se envolverem em comportamentos de risco, sejam de natureza sexual ou de violência. Os danos quer ao nível cerebral quer de comportamentos de risco podem ser irreparáveis.

Quanto às mulheres, o seu risco tem a ver com o fato de terem uma massa corporal mais rica em gorduras e menos em água do que o homem e, por isso, a sua capacidade metabólica é menor e os efeitos do álcool aumentados. Em idade fértil ou durante a gravidez, os riscos são de elevada gravidade para o bebé, que sofre consequências irreversíveis no seu sistema nervoso central (síndrome fetal alcoólico), baixo peso ao nascer, parto prematuro, deficiências cardíacas. Lembro que quase 50% das grávidas continuam a consumir bebidas alcoólicas de um modo inapropriado.

Quais as condições para se considerar alguém alcoólico?
O
alcoólico é o indivíduo que perdeu a liberdade de se abster. Desde o
início dos primeiros consumos de bebidas até ser dependente decorrem
15-20 anos. As características mais salientes são o aparecimento de
síndrome de abstinência quando se para de beber (suores, tremores,
irritabilidade, insónia, agitação, náuseas e vómitos); a tolerância,
pois inicialmente a pessoa tem necessidade de aumentar os consumos para
obter os mesmos efeitos; os consumos continuados apesar dos problemas de
saúde, de trabalho ou em casa; o desejo ou esforços para parar sem
conseguir, etc. Dá para entender a complexidade desta dependência.

O alcoolismo é considerado um flagelo para a sociedade. Porquê?
Pela
sua elevada prevalência. Sempre que uma doença afeta 1% da população, a
Organização Mundial de Saúde e outras autoridades de saúde fazem
imediatamente recomendações. Os problemas ligados ao álcool ultrapassam
os 6%. Este padrão de elevados consumos traz consequências graves e
complexas, seja nas elevadas taxas de mortalidade seja na morbilidade.
Daí que recorrentemente se fale do grave problema de saúde pública
relativamente aos problemas ligados ao álcool. Relacionam-se com cerca
de 60 doenças diferentes, o que gera uma mortalidade entre 25% a 30% do
número total de mortes por ano. Em Portugal, estima-se que o número de
mortos por ano ultrapasse os 7 mil.
O álcool é o terceiro de 26
fatores de risco de doença, depois do consumo de tabaco e da hipertensão
arterial. E observe-se os custos por dia das cirroses e do carcinoma do
fígado, causado pelo álcool. Sim, o álcool provoca o cancro.

E quais as implicações aos círculos próximos do indivíduo?
 O
alcoolismo afeta em primeiro lugar a família e muito especialmente os
membros mais jovens. De uma maneira direta, pelos comportamentos
desajustados, seja pela violência, abuso ou negligência, seja de um modo
indireto, pelas ausências, mais despesas, mais idas ao hospital e
consumo de medicamentos por mais doenças, faltas ao trabalho, isolamento
sociofamiliar. Também a produtividade diminui, bem como a
sinistralidade e as consequências para o próprio e terceiros.

Existem também os custos indiretos…
Muitos
dos prejuízos causados pelo álcool são suportados por terceiros: há
atropelamentos, morte de passageiros e há também custos psicológicos,
económicos e financeiros. Outras pessoas e instituições é que por vezes
suportam as despesas desses comportamentos. A sinistralidade rodoviária
tem uma relação com os consumos de bebidas alcoólicas. Calcula-se que 25
a 30% dos acidentes estejam diretamente relacionados com o álcool – uma
em cada três mortes na estrada. Os atos de violência estão relacionados
diretamente com o álcool, por exemplo, em 40% de todos os homicídios.
Um em cada seis suicídios está diretamente relacionado com o alcoolismo.

Existe realmente uma preponderância genética para o alcoolismo?
Existem
estudos genéticos que apontam para uma maior prevalência de alcoolismo
nos descendentes em cerca de 25% dos casos, contudo, os outros 75% ficam
por esclarecer. Mais do que o determinismo genético, são os fatores de
natureza ambiental que determinam esse acontecer. Claro está que se
houver antecedentes familiares a probabilidade de um sujeito ser
alcoólico é mais elevada.

A sociedade civil está alertada para o problema ou ignora-o?
Numa
sociedade como a nossa, em que a produção de bebidas tem um grande peso
económico e social, existe uma excessiva tolerância face aos consumos
excessivos. Veja-se determinados eventos, académicos ou desportivos,
onde há um consumo despudoradamente elevado e com consequências
terríveis: comas alcoólicos em jovens, sinistralidade e violência.

A SPA está a comemorar 25 anos em 2012. Como evoluiu o alcoolismo nestes anos?
Os
problemas relacionados com o álcool estavam a evoluir positivamente
até  2005, traduzindo-se num consumo de álcool puro per capita abaixo
dos dois dígitos (9,6 litros). Em 2011, já é de 13,4 litros.  Em vez de
se aniquilarem os  reduzidos meios de prevenção e tratamento, ou seja os
Centros Regionais de Alcoologia, seria de esperar o reforço de meios
para o combate a este tipo de problemática. Do ponto de vista da
Sociedade  de Alcoologia, bastaria executar os planos e ativar a rede
alcoológica nacional já  amplamente debatida para melhorarmos a
situação.

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