O humor é uma estratégia a que os seres humanos recorrem desde os primórdios e mesmo em circunstâncias de sofrimento intenso. Investigações referem que, na primeira metade do século XX, aquando da Segunda Guerra Mundial, as pessoas que se encontravam reféns nos campos de concentração recorriam ao humor para gerir o quotidiano de horrores vivido.

Na obra de Frankl, Man’s Searching for Meaning, referente às atrocidades vividas nos campos de concentração, o autor refere que "o humor era uma das armas da alma na luta pela auto-preservação".

Neste sentido, podemos afirmar que, também em tempos de crise, o humor pode ser uma estratégia particularmente benéfica. Para além de permitir atenuar o medo, aumenta a sensação subjetiva de poder e controlo sobre uma determinada situação. Daí que, não raras vezes, o humor seja um recurso para gerir medos existenciais, como o medo da morte. Por exemplo, rir sobre temas relacionados com a morte pode dar-nos um maior controlo sobre a forma como o tema nos afeta, atenuando o medo. No contexto de doenças crónicas, as investigações referem que o humor permite manter a esperança e reduzir o stress em pacientes oncológicos, assim como a sensação de controlo em pessoas com Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH).

No século XXI, continuamos a recorrer ao humor. Tomem-se como exemplos as inúmeras comédias stand-up em plataformas como o Youtube ou a Netflix. Por sua vez, nos tempos pandémicos atuais, o humor pode ser considerado terapêutico enquanto mecanismo de regulação das emoções, no sentido em que cumpre com as seguintes funções:

1. Alcançar uma sensação de alívio. Quando rimos, libertamos tensão, existindo assim um efeito de “catarse” do riso, expressando e reduzindo, através das gargalhadas, emoções negativas como a raiva, a frustração, a agressividade e a tristeza.

2. Vivenciar uma sensação de bem-estar. As emoções positivas associadas ao humor podem atenuar as emoções negativas, como a ansiedade ou o medo. Enquanto estímulo positivo, o humor é também uma técnica de distração. Nos momentos em que a pessoa se encontra distraída pelo humor, tende a não existir espaço cognitivo para os problemas, medos e receios, os quais ficam para segundo plano.

3. Reformular a perceção dos problemas. O humor permite alcançar uma perceção menos assustadora dos problemas, dada a possibilidade de serem identificados alguns elementos positivos gerados pelo sofrimento. Tome-se como exemplo a perceção dos problemas como uma experiência de aprendizagem, a reformulação das prioridades de vida e uma maior valorização das relações. Por acréscimo, a identificação de elementos positivos ou menos negativos nas situações, assim como de potenciais significados, pode acentuar os níveis de resiliência da pessoa.

As pessoas que recorrem com frequência ao humor são socialmente mais atraentes, dado o bem-estar e divertimento que proporcionam às pessoas que as rodeiam (“Gosto imenso dela, faz-me rir!”) e, por conseguinte, tendem a apresentar uma rede social tendencialmente superior. Particularmente, no contexto de profissões com um risco elevado de burnout (por exemplo, os profissionais de emergência médica), o humor promove a coesão social (por exemplo, uma maior interação e “piadas exclusivas” entre colegas), o bem-estar e, consequentemente, a produtividade destes profissionais.

Através do humor, é expressa a ansiedade, os medos e os receios de cada um e, por sua vez, as fragilidades individuais são reconhecidas pelos outros, enquanto grupo, facilitando um sentimento de partilha e identificação com o outro. Em poucas palavras, o humor é uma forma socialmente aceitável de expressar as fragilidades e que nos aproxima, enquanto seres humanos, facilitando, em parte, a empatia pelo outro.

No que diz respeito à Psicologia, foi identificado um traço na personalidade designado por “orientação para o humor”. As pessoas com este traço tendem a apresentar:

  • uma maior capacidade de expressar as emoções;
  • uma maior satisfação nas relações interpessoais;
  • um risco reduzido de depressão e ansiedade;
  • níveis elevados de autoestima, otimismo e satisfação com a vida;
  • quando posicionadas em cargos de chefia, tendem a ser percecionadas, pelos respetivos funcionários, como pessoas amáveis e eficazes.

Em particular, no que diz respeito ao humor negro, as investigações apontam que a compreensão e preferência por este tipo de humor se encontram associadas a níveis elevados de inteligência.

Sucede que as pessoas que se expressam com recurso ao humor podem dizer impropérios com frequência. Sabe-se que o recurso a asneiros permite a expressão de emoções fortes e intensas, as quais são precedidas por uma sensação de alívio e tranquilidade. Tome-se como exemplo a expressão da raiva ou da dor. Quantos de nós, após bater com o dedo mindinho numa superfície, não manifestamos a dor com recurso a impropérios? Um exemplo representativo do impacto fisiológico deste fenómeno é a sensação de tolerância à dor.

Numa investigação realizada no Reino Unido em 2009, as pessoas que proferiam impropérios para expressar a dor, aguentavam, durante um maior período de tempo, a mão imersa em água gelada em comparação com pessoas que diziam palavras consideradas neutras. Segundo os autores, dizer asneiras providenciavam um efeito analgésico sob a dor vivenciada.

É importante referir que os impropérios não se encontram apenas associados a emoções negativas e existem, inclusivamente, indícios de que o alívio providenciado pelas mesmas pode reduzir o risco de agressividade. Existe um aumento do batimento cardíaco e uma consequente libertação de adrenalina que traz alívio. Quanto às emoções positivas, destaca-se o exemplo dos jogos de futebol em que os impropérios também são usados para festejar e expressar alegria.

Em suma, o humor pode ser uma estratégia para expressar as nossas fragilidades e receios e, por sua vez, apresentar uma maior gestão das emoções e uma interação mais positiva com os outros, particularmente no contexto pandémico que estamos a vivenciar.

As explicações são de Mauro Paulino e Sofia Gabriel, da MIND - Psicologia Clínica e Forense. 

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