A necessidade de redução da transmissão da doença tem tido um enorme impacto na atividade física e no desporto. As restrições na hora de sair de casa causaram uma redução na atividade física e no aumento de comportamentos sedentários.

Igualmente, na comunidade desportiva, também o desporto organizado sofreu restrições. A prevalência global da inatividade física pré-COVID-19 atingia os 30% e era responsável por, pelo menos, 3 milhões de mortes anualmente em todo o mundo. Prevê-se, que com as restrições impostas, esta prevalência tenha aumentado muito.

Benefícios do desporto na resposta imunitária

A resposta imunológica ao SARS-CoV-2 depende de vários fatores como a genética, a idade e o estado físico. Sabe-se que a prática de exercício físico atua como modelador do sistema imunitário, aumentando a vigilância contra as infeções. Durante e após o exercício físico, moléculas pró e anti-inflamatórias são libertadas, aumenta a circulação dos linfócitos, bem como o recrutamento celular. Assim, o exercício físico diminui a incidência, a intensidade dos sintomas e a mortalidade associada às infeções virais, ou seja, diminui a mortalidade por pneumonia e gripe. E ainda, melhora a função cardiorrespiratória, a resposta às vacinas, o metabolismo dos açúcares e lípidos, ajudando no controlo do peso e na prevenção da diabetes e da dislipidemia.

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Durante o exercício físico ocorre uma diminuição das respostas inflamatórias e das hormonas do stress e as células de defesa (por exemplo, linfócitos e monócitos) aumentam. O exercício físico permite, igualmente, que as células da defesa migrem dos reservatórios (vasos, baço e medula óssea) para os tecidos linfoides e órgãos, com o objetivo de reconhecerem e lutarem contra os agentes patogénicos, aumentando a vigilância imunológica e a resposta antiviral.

Também o exercício físico diminui o potencial de coagulação, levando à redução de eventos isquémicos e, ainda, impede o envelhecimento do sistema imunitário que ocorre com o avanço da idade. No entanto, o exercício físico muito exaustivo antes ou durante as infeções pode contribuir para maior gravidade da doença. Isto acontece porque há a produção de moléculas anti-inflamatórias, no sentido de reduzir o dano muscular, mas que pode atingir níveis de imunossupressão facilitando as infeções.

Em resumo, a prática do exercício físico fortalece o sistema imunitário e protege contra a COVID-19, atenuando, ainda, os distúrbios da coagulação associados à infeção pelo SARS-CoV-2. A COVID-19 pode deixar sequelas respiratórias, cardíacas, metabólicas, músculo-esqueléticas e vasculares, e mesmo a este nível a prática de exercício físico tem-se revelado como uma estratégia importante na recuperação dos doentes que tiveram COVID-19, melhorando a sua qualidade de vida.

Devo fazer exercício físico durante a pandemia?

No período de confinamento, e com o objetivo de reduzir as cadeias de transmissão, os ginásios, clubes e locais de fitness encerraram as suas portas. Apesar de ser uma importante estratégia contra a COVID-19, o isolamento social levou ao aumento do sedentarismo e a desequilíbrios alimentares, com resultados negativos para a saúde metabólica (aumento ponderal, aumento da massa gorda, hiperglicemia, maior resistência à insulina), perda de tecido muscular e diminuição das defesas imunitárias.

Em termos globais, o sedentarismo está associado ao risco de obesidade, doença coronária, hipertensão arterial (HTA) e neoplasia. Atualmente, considera-se que a atividade física é uma abordagem não medicamentosa imprescindível na prevenção e tratamento de doenças psicológicas, físicas e/ou metabólicas.

Mesmo durante o isolamento social, a atividade física deve ser aconselhada, como medida preventiva da saúde, uma vez que permite manter a massa muscular, o desempenho cardiovascular e músculo-esquelético, prevenindo a perda da massa óssea, bem como estimula o reforço imunitário nomeadamente contra o SARS-CoV-2.

Logo, é aconselhado o exercício de baixa intensidade para sedentários e de média intensidade para os ativos, no sentido de manter o bom funcionamento cardiovascular e músculo-esquelético. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aconselha todos os adultos a exercitar 150 minutos/dia e as crianças e adolescentes 300 minutos/dia, com exercícios de intensidade moderada e a distribuir pela semana de acordo com as rotinas diárias.

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No caso de existência de sintomas como febre, dispneia e/ou tosse seca, então o exercício deve ser interrompido e o indivíduo deve ser avaliado por um médico, uma vez que pode ter COVID-19. Em caso de positividade, deve evitar o exercício físico durante pelo menos 7 dias, com progressivo retorno após a resolução dos sintomas.

Para além do exercício físico, também a meditação, o ioga e as técnicas de relaxamento são verdadeiros aliados no combate ao sedentarismo.

Apesar dos ginásios e clubes possibilitarem a realização de exercício físico em comunidade, com apoio e instrução personalizada, o seu encerramento durante o confinamento obrigou a desenvolver alternativas a esta prática. É possível manter-se fisicamente ativo mesmo em casa, optando por exercícios como caminhadas rápidas dentro de casa, dança, subida e descida de escadas, saltar à corda, agachamento, sentar e levantar, flexões e treino de resistência (com o auxílio de livros, mochilas, garrafas de água, etc.). Pode, ainda, usufruir de novas plataformas tecnológicas de home fitness ou fitness apps (com ou sem a utilização de equipamento desportivo). No exterior, são opções a caminhada ao ar livre, a corrida, andar de bicicleta, os jogos familiares e a jardinagem.

Será que as máscaras faciais são benéficas ou prejudiciais durante o exercício?

As máscaras faciais têm sido eficazes na interrupção da transmissão da infeção do SARS-CoV-2 na comunidade, sendo aconselhado o seu uso generalizado. No entanto, a prática de exercício físico com máscara tem sido motivo de debate, considerando ser limitada a evidência quanto aos seus riscos e benefícios.

O coronavírus é transmitido através das gotículas respiratórias, produzidas quando uma pessoa infetada tosse, espirra ou fala. As máscaras faciais N95 (PFF2) e as cirúrgicas conferem proteção individual, ao funcionarem como um filtro das partículas e impedirem que as mesmas cheguem ao sistema respiratório, prevenindo a disseminação inter-individual da infeção. As máscaras criam um ambiente quente e húmido que atua como uma barreira contra as impactações virais na naso e orofaringe.

Alguns autores consideram que, durante o exercício físico, o uso de máscaras faciais pode levar a uma diminuição do oxigénio disponível e da eliminação do dióxido de carbono. Este facto pode originar ao nível alveolar e vascular um ambiente com hipóxia e hipercápnia, e consequentemente levar à acidose. Esta acidose leva a um aumento da ventilação, maior esforço respiratório e aumento da resposta cardíaca. Outros autores avaliaram que o uso da máscara facial (cirúrgica ou a N95) durante caminhadas curtas (5-6 minutos) e verificaram que o seu uso levou a um aumento do esforço dos músculos respiratórios.

Reunindo os vários estudos publicados até ao momento, tem-se verificado que o exercício físico realizado com estas máscaras induz várias alterações fisiológicas como metabolismo anaeróbico, stress cardiorrespiratório, alterações do sistema excretor, estimulação de mecanismos imunes, podendo mesmo agravar as doenças crónicas.

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Alteração do metabolismo - durante o exercício físico moderado ou intenso predomina o metabolismo anaeróbio e após a cessação são necessárias elevadas quantidades de oxigénio para a conversão do ácido láctico, então, produzido. As máscaras faciais formam um circuito semifechado de ar inspirado e expirado. A inspiração do dióxido de carbono que foi expirado contribui para um aumento da acidez sanguínea, levando a desconforto, fadiga, cefaleias, falta de ar, fraqueza muscular e tonturas. E a diminuição do oxigénio disponível leva, também, ao aumento do trabalho respiratório e cria um ambiente hipóxico para os órgãos vitais. A resistência conferida ao fluxo inspiratório e expiratório por períodos prolongados (cerca de 10 minutos) pode causar aumento dos níveis dos lactatos e fadiga precoce. Tudo isto contribui para o dano e contracturas musculares.

Alteração da resposta imunológica – o exercício físico efetuado com as máscaras faciais, ao induzir um ambiente ácido, afeta o movimento de células de defesa (células natural killer), aumentando as hipóteses de infeção durante a pandemia. A alteração da humidade e da temperatura nas vias aéreas superiores compromete o batimento dos cílios, dificultando a limpeza de agentes infeciosos e predispondo às infeções respiratórias.

Stress cardiorrespiratório – a menor disponibilidade de oxigénio vai levar a um aumento da frequência cardíaca e da tensão arterial, mesmo para esforços de baixa intensidade. Estas alterações causam maior sobrecarga cardíaca e maior necessidade circulatória coronária. O aumento da carga respiratória contra um obstáculo aumenta a sobrecarga dos músculos respiratórios e a pressão na artéria pulmonar, aumentando ainda mais a sobrecarga cardíaca.

Alteração na função renal – a hipóxia e a hipercápnia diminuem o fluxo renal e a taxa de filtração podendo comprometer a função renal, sobretudo naqueles indivíduos com doença renal.

Metabolismo cerebral e saúde mental – por um lado a hipercápnia aumenta a pressão intracraniana, diminui a perfusão cerebral, levando a isquémia cerebral, mas por outro também pode ser neuro protetora ao diminuir o metabolismo cerebral. O uso da máscara durante o exercício físico pode ser responsável por cefaleias e alteração da cognição. Indivíduos que sofrem de ansiedade grave, claustrofobia, distúrbio pós-traumático podem ter dificuldade em permanecer calmos quando usam a máscara.

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Em resumo, o uso da máscara durante o exercício pode levar a letargia, fadiga, dispneia, cefaleias, fraqueza muscular, náuseas/vómitos, aumento da ansiedade e da depressão. Por outro lado, respirar através da máscara está associada a uma maior resistência dos fluxos de ar na inspiração e na expiração. Como tal os doentes com doença respiratória devem ter precaução quando realizam treinos usando uma máscara facial.

No entanto, o uso da máscara também pode trazer alguns benefícios no exercício físico como aumento da força e resistência dos músculos respiratórios, com aumento da eficácia ventilatória (maior entrega de oxigénio e maior remoção dos lactatos ao nível musculo esquelético) e de desempenho global ao exercício, sobretudo nos indivíduos saudáveis e após um período de habituação.

Quais os efeitos das máscaras faciais durante o desporto e nos treinos intensos?

O risco potencial de transmissão durante as atividades desportivas está relacionado com as particularidades da mesma, como o distanciamento físico, o número de participantes, a duração da proximidade durante a atividade e o local onde se realiza.

Num estudo recente, os autores avaliaram os efeitos fisiológicos da utilização de máscaras faciais cirúrgicas e das N95 durante os treinos intensos em voluntários saudáveis. Estes autores verificaram que com as máscaras faciais N95 os voluntários apresentavam um aumento ligeiro na concentração de dióxido de carbono no ar expirado, sobretudo nos treinos de maior intensidade ou carga, sendo que os efeitos das máscaras faciais cirúrgicas a esse nível foram mais ligeiros, e tornaram-se mais significativos durante os treinos intensos.

O aumento do dióxido de carbono pode ser explicado pelo facto de o desportista voltar a respirar o ar expirado que permaneceu no espaço da máscara, e podendo levar a uma certa dificuldade em respirar.

Outro estudo mostra que as máscaras faciais cirúrgicas e as N95 limitam a função cardiopulmonar, sobretudo no exercício físico de elevada intensidade. Estas máscaras faciais causam maior trabalho/resistência na respiração, alteram a mecânica ventilatória e a compensação hemodinâmica cardíaca. No exercício físico de elevada intensidade a hipoxia causada pela máscara pode, ainda, ser responsável por arritmias cardíacas.

Quais os efeitos das máscaras faciais durante o exercício físico nos doentes com doença crónica?

Nos doentes com doença respiratória, por exemplo DPOC (doença pulmonar obstrutiva crónica, asma), o uso de máscara facial N95 durante uma caminhada está associada ao aumento da frequência cardíaca e respiratória, maior concentração de dióxido de carbono no ar expirado e uma menor oxigenação.

As alterações cardiorrespiratórias decorrentes do uso da máscara facial, descritas anteriormente, podem ser subtis nos indivíduos saudáveis, mas nos portadores de doenças crónicas podem levar a um agravamento da doença de base e necessidade de cuidados médicos.

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É mais seguro realizar exercício físico outdoor do que indoor?

Os clubes, ginásios e espaços públicos podem ser uma importante fonte de transmissão viral, por isso o uso de máscara tornou-se uma parte integrante da atividade física realizada nesses espaços.

Acresce que alguns estudos revelam que atividades aeróbicas, mesmo ao ar livre, como caminhada, corrida e andar de bicicleta, podem disseminar pequenas gotículas. No caso da caminhada, numa velocidade de 4 km/h, a disseminação pode dar-se numa distância de 5 metros, enquanto no caso da corrida a 14 km/h pode dar-se numa distância de 10 metros. Mais acresce que, as partículas virais podem manter-se em suspensão no ar por períodos significativos, sobretudo na ausência de turbulência.

Estudos mostram que há um potencial de transmissão das partículas de um individuo para outro durante o exercício físico, devido ao aumento da ventilação, sugerindo uma distância de segurança de 10-20 metros. Esta distância varia conforme a intensidade do esforço e do fluxo respiratório. Mas até agora ainda não há estudos que estipulem distâncias de segurança durante os treinos.

Fatores adicionais climáticos, como as elevadas temperaturas ou humidade, podem condicionar a tolerância das máscaras durante o exercício físico.

O que fazer para melhor me proteger?

A comunidade científica reitera a importância das medidas de higiene, o distanciamento social e a etiqueta respiratória no combate à transmissão do SARS-CoV-2, mas aconselha também um estilo de vida saudável para reduzir o risco de COVID-19, onde está incluído o exercício físico pelos seus benefícios físicos e mentais irrefutáveis.

O conhecimento dos efeitos fisiológicos e da segurança do uso de máscara durante a atividade física é ainda escassa e baseada em estudos limitados, mas globalmente parece que o seu uso é seguro.

Os potenciais efeitos fisiológicos das máscaras faciais devem ser considerados, bem como os potenciais efeitos protetores na transmissão viral, porque estes têm importantes implicações individuais e coletivas. Os efeitos negativos decorrentes do uso de máscara facial durante o exercício físico parecem ser ligeiros nos indivíduos saudáveis, e terem pouco impacto na tolerância ao esforço. No entanto, naqueles com doença cardiorrespiratória grave o aumento da resistência e as alterações nas trocas gasosas podem causar agravamento da dispneia e afetar a capacidade no exercício físico.

Assim, continua a ser recomendado o uso de máscaras nos locais de prática desportiva onde o risco de transmissão é moderado ou elevado, sem detrimento das demais medidas preventivas.

Um artigo da médica Amélia Feliciano, especialista em Pneumologia e doutorada em Medicina.

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