A agressividade pode ser vista como uma tendência para agir de forma hostil ou confrontativa em diversas situações, predominando os sentimentos de raiva e zanga. É algo que faz parte da maneira de ser da pessoa – da sua personalidade.

Outro conceito distinto, mas relacionado, é o comportamento agressivo. Este pode ser definido como uma ação que procura causar dano a outro indivíduo (ou até mesmo ao próprio), seja esse dano físico ou psicológico.

A agressividade e o comportamento agressivo são fenómenos complexos e passíveis de ser explicados e compreendidos por várias lentes. A investigação científica tem identificado diversos fatores de risco para o seu desenvolvimento:

  • Fatores biológicos e genéticos, como a alteração na ação de genes específicos.
  • Fatores de influência perinatal, prévios ao nascimento do bebé, como complicações no parto ou exposição precoce a toxinas.
  • Fatores neurológicos e neuropsicológicos, como alterações no funcionamento neuronal e nas capacidades de planeamento, organização, tomada de decisão, resolução de problemas e controlo dos impulsos (conhecidas como funções executivas).
  • Fatores desenvolvimentais, como a exposição precoce à violência ou práticas parentais educativas desadaptativas (por exemplo, práticas autoritárias, marcadas por uma escassa demonstração de afeto e elevada rigidez e exigência).
  • Fatores socioeconómicos, como a desigualdade e a pobreza.

Vários têm sido os esforços no sentido de encontrar as melhores estratégias de regulação da agressividade. Para além de uma intervenção psicológica especializada, como a Terapia Cognitivo-Comportamental, que tenha um enfoque no desenvolvimento de competências de regulação emocional, especialmente da raiva, e de resolução de problemas, existem outras estratégias que podem auxiliar no tratamento destas dificuldades.

Os benefícios da prática do exercício físico na saúde mental têm sido amplamente explorados e os mesmos aplicam-se à gestão da raiva, da agressividade e do comportamento agressivo. A atividade física estimula componentes químicos neuronais que promovem uma sensação de felicidade e relaxamento, reduz a pressão arterial (que, quando elevada, surge associada a problemas de raiva excessiva), aumenta a confiança e a autoestima e permite a libertação da tensão física e psíquica. No entanto, é de mencionar um grupo de práticas desportivas específico que tem vindo a ser indicado como auxiliar na gestão da agressividade.

As artes marciais correspondem a diversos sistemas de combate e autodefesa que valorizam não só a componente física do combate, mas também as componentes filosófica, estratégica, de tradição cultural e de desenvolvimento pessoal. Alguns dos valores transmitidos pelas artes marciais, especialmente as mais tradicionais, como é o caso do Tai Chi e do Aikido, são o civismo, a humildade, a modéstia, a lealdade, a coragem e o respeito não só pelo próprio, como pelo oponente, pelo mestre e por qualquer outro ser humano. Estas enfatizam a integração da mente com o corpo, promovendo uma componente meditativa através da autodefesa.

Uma das filosofias que subjaz a sua prática é o “mushin”, isto é, o atingir de um estado de clareza mental em que o indivíduo é capaz de combater e lutar, sem qualquer sentimento de agressividade. Procura-se que a mente esteja totalmente livre de pensamentos. Também surgem conceitos como o “budo” e a “dojo etiquette”, que, através da promoção do autodesenvolvimento, da procura de resolução de conflitos de forma não violenta, da disciplina e do respeito pelo outro, podem ajudar na regulação da agressividade.

Posto isto, a investigação científica tem vindo a explorar a ligação entre a prática de artes marciais e a redução da agressividade. Um estudo de 2021, realizado por profissionais da área de educação física e do desporto, Jorge Lafuente, Marta Zubiaur e Carlos Gutiérrez-García, e que reuniu diversos trabalhos desta área de investigação, concluiu que existe uma ligação entre a prática de artes marciais tradicionais, que combinem o foco na componente filosófica bem como na componente de competências físicas de combate, e a redução da agressividade.
Resumindo, a prática de artes marciais pode reduzir a agressividade porque:

  • Canaliza as tendências agressivas em atividades físicas que também promovem o autodesenvolvimento;
  • Promove a disciplina mental e comportamental;
  • Estimula o autocontrolo físico e emocional;
  • Promove a consciência dos limites do próprio e do outro, bem como o respeito interpessoal;
  • Adota uma postura de minimização da violência e mitigação do conflito através da defesa e da neutralização e não através do ataque;
  • Ajuda na construção de uma vivência baseada na calma, na humildade e no equilíbrio interno;
  • Permite a integração numa comunidade de entreajuda e o contacto com um mentor que poderá servir como um modelo a seguir, contribuindo para o respeito de uma figura de autoridade.

“Um desporto de combate é respeito, disciplina, resiliência e técnica, por esta ordem. Sinto que deixar toda a energia e testosterona num ambiente controlado e respeitador, faz com que eu seja uma pessoa mais calma, paciente e ponderada”

Se sente que tem dificuldade em gerir a sua agressividade, e se tem um gosto pelo exercício físico, experimentar a prática de uma arte marcial poderá ser benéfico. Mesmo na impossibilidade de praticar o desporto, poderá aproveitar a sua componente filosófica. Ainda assim, se sentir que estas dificuldades são e/ou continuam intensas e que impactam significativamente o seu dia a dia, não hesite em procurar ajuda psicológica.

Um artigo dos psicólogos Margarida Santiago Santos e Mauro Paulino, da MIND | Instituto de Psicologia Clínica e Forense.