Sentir a textura de cheiros e cores, ver sons, saborear formas, números e letras, e outras experiências sensoriais semelhantes são estranhas à maioria, mas comuns a cerca de 4.4% da população. A esta condição neurológica chamamos de sinestesia e é caracterizada pela ativação simultânea, automática e involuntária, de diferentes experiências sensoriais, que desencadeia respostas que permitem sensações combinadas, como acima referidas. Considerando que cerca de 1 em cada 23 pessoas são sinestésicas e experienciam este tipo de fenómenos, torna-se mais fácil de compreender como várias celebridades já indicaram pertencer a este grupo de pessoas (por exemplo, os cantores Pharrell Williams, Lady Gaga e Billie Eilish).

Existem variados tipos de sinestesia, associadas a diferentes estímulos e sensações. Entre os mais comuns estão os tipos associados a cores, por exemplo, ao pensar em dias da semana, ler palavras, ouvir música, ver números, serem ativadas perceções de cor. Outros tipos podem desencadear respostas de paladar, cheiros, texturas e sensações corporais. Entre as experiências menos reportadas, mas também existentes, estão a de associar personalidades a letras, números, dias da semana e meses do ano.

Os investigadores canadianos Mike Dixon e Daniel Smilek identificaram duas formas diferentes de experienciar o fenómeno. Algumas pessoas, nomeadas de sinestésicos “projetores” veem, por exemplo, as cores projetadas no mundo exterior nas letras e números observados, ou até como auras. Outras, chamados sinestésicos “associadores” experienciam estas cores como uma imagem mental e não no exterior.

Estudos feitos nesta área apontam para diferenças na atividade cerebral entre sinestésicos e a restante população. Por exemplo, numa tarefa de ler números a preto e branco, pessoas com sinestesia têm uma ativação de áreas do córtex visual referentes ao processamento de cores, nomeadamente na área occipital do cérebro. Nessa tarefa, pessoas sem a condição em causa não têm essas mesmas áreas ativadas, sendo que estas só são ativadas face a estímulos externos efetivamente coloridos. Outra diferença está no córtex parietal, área envolvida na conjugação e integração de diferentes características no processamento de estímulos, sendo que em pessoas sinestésicas essas áreas conjugam, não apenas as cores e formatos do estímulo/objeto, mas outras imagens mentais e experiências sensoriais.

Os estudos sugerem ainda que pessoas com sinestesia na família têm maior probabilidade de ter esta condição. Têm sido verificados também raros casos de aquisição de sinestesia após um trauma, assim como perda dessa condição.

Apesar de não ser considerado uma perturbação e de, muitas vezes, ser considerado como uma espécie de dom ou dádiva, Julia Simmer, especialista em investigação multissensorial, sugere existir algum prejuízo para o bem-estar. De acordo com a investigadora, pessoas com sinestesia têm maior propensão para desenvolver perturbações de ansiedade do que a restante população. O que poderá ser causado pela presença de traços mais elevados de atenção ao detalhe, característica por vezes associada à Perturbação do Espetro do Autismo.

Se por um lado pode ser interessante vivenciar estas experiências multissensoriais, pode também tornar-se algo estranho ou desconfortável. Saiba que não está sozinho e que este é um fenómeno não patológico presente em cerca de 4% da população. Ainda assim, caso sinta que esta ou outra condição lhe traz sofrimento, não hesite em pedir ajuda.

Um artigo dos psicólogos clínicos Samuel Silva e Mauro Paulino, da MIND | Instituto de Psicologia Clínica e Forense.

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