A dor da perda

A morte de um filho é sempre um acontecimento devastador na vida emocional dos Pais. A sua perda é talvez a dor mais dilacerante que um ser humano pode passar. É como se arrancassem uma parte de si e ficasse somente uma ferida aberta cujo tempo de cicatrização é indeterminado.

Cada filho é único e insubstituível, sendo por isso um tipo de luto que em alguns casos nunca chega ao estado de aceitação. O trabalho de apoio psicoterapêutico passa fundamentalmente por ajudar os Pais a superar os diferentes estádios do luto, até à fase de aceitação.

A importância do luto

A nossa sociedade, cada vez mais, supervaloriza a felicidade e oculta as manifestações de dor, choro e tristeza. No entanto, é necessário viver o luto. Uma morte origina muitas mudanças, perde-se toda uma estrutura, uma idealização, um sentimento de pertença. É necessário espaço e tempo para sentir a dor da perda, chorar, elaborar sentimentos e dar significado ao sofrimento. Viver o luto é um processo de cicatrização emocional, essencial para nos fazer prosseguir com a vida.

As fases do luto

O processo de cicatrização emocional, ou luto, e até à fase final de aceitação, compreende 5 fases:

Negação – Não conseguir aceitar a perda e recusar-se a acreditar no que aconteceu.

Raiva – Quem passa pela perda muitas vezes interroga-se “Porquê a mim?”, “Porquê que isto tinha de nos acontecer?”. Surgem, muitas vezes, sentimentos de raiva por quem deu a fatídica notícia, do que causou a morte, do que poderia ter sido feito para evitar a perda. É uma fase onde é difícil a pessoa relacionar-se com quem a rodeia.

Negociação – Neste momento a negação e o isolamento já foram ultrapassados e quem perdeu um ente querido começa a pensar que se mudasse o seu comportamento poderia ter alguma espécie de salvação.

Depressão – A fase mais crítica e delicada, em que a pessoa começa a entender o que aconteceu e passa a ter a percepção de que nada será como antes. É comum haver sentimentos de perda de sonhos, projectos, mudanças e insistentes lembranças associadas à pessoa, levando com frequência a momentos de choro intenso, isolamento e reflexão.

Aceitação – Trata-se de uma fase de maior tranquilidade para o individuo em si e para quem está à sua volta. A mudança de ponto de vista traz a paz de não ter de lidar com a negação, a raiva ou o desespero. Neste momento a pessoa consegue ter expectativas mais tranquilas em relação ao que está a passar e aquilo que já viveu.

É muito importante salientar que qualquer uma destas fases pode ser cíclica, podem não ocorrer exatamente nesta ordem e sobretudo que podem haver avanços e recuos. Cada pessoa é um ser único e experiência o luto de forma distinta.

Como é que a partilha pública pode ajudar outras pessoas que passem pelo mesmo?

Em momentos tão dolorosos como a perda de alguém querido, muitas pessoas instintivamente isolam-se. A tristeza é, muitas vezes, tão avassaladora que falta ânimo para as interações mais simples com os outros. No entanto, partilhar o que se está a sentir, como a dor, a raiva, ou a incompreensão, pode ser uma forma de exteriorizar a dor da perda e encontrar apoio em outras pessoas que tenham passado pelo mesmo.

Atualmente deparamo-nos, com frequência, com a partilha de momentos de dor e de perda nas redes sociais. A sua “imediaticidade” e omnipresença, permitem expressar a dor e receber mensagens de apoio num momento delicado, sentindo compaixão por quem, à partida, nos quer bem. Procurando deste modo, empatia e suporte social, que na sua ausência, tanto complicam o processo de luto.

As redes sociais impulsionam a manifestação de sentimentos, por norma retraídos, permitindo a interação social de temas ainda considerados tabus e que dificilmente são tratados abertamente, como a morte e o luto, facilitando assim o processo de luto.

O que fazer para superar esta perda?

Perante uma perda tão devastadora há vários pontos a considerar, um deles consiste no facto de cada pessoa ser um ser único e vivenciar o luto de uma maneira distinta. No entanto, existem alguns comportamentos que podem ajudar para que aos poucos possa ir recuperando a sua parte emocional e fazer com que o luto e essa dor se tornem apenas numa saudade e memória afetiva mais distante de pensamentos negativos.

Atitudes que podem contribuir para este processo:

  • Aceite os seus sentimentos e saiba que o luto é um processo com diferentes fases de avanços e recuos.
  • Dê tempo a si mesmo.
  • Passe tempo com amigos e familiares.
  • Evite isolar-se.
  • Faça exercício físico com regularidade, alimente-se e durma bem para que se possa manter saudável.

Quando sentir que não está a ser capaz de o fazer sozinho, procure ajuda especializada. Não tem porque se sentir mal e sobretudo nunca se permita a sentimentos de culpa que não lhe pertencem. Um psicólogo pode ajudá-lo a perceber melhor o momento que está a viver e a encontrar consigo estratégias para uma vida mais leve, com menos dor.

Um artigo da psicóloga Marta Leite, das Clínicas Leite.

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