Até ao próximo sábado, 4 de novembro, decorre a quinta edição do “Concurso Nacional de Cervejas Caseiras e Artesanais”. Desde 28 de outubro que se provam afincadamente dezenas de referências, primeiro em Portimão (Hamburgueria B&B), a 30 e 31 de outubro em Lisboa (Cerveteca) e, finalmente, no Porto (Catraio ) no derradeiro dia do evento.

Uma iniciativa do Fórum Cervejas do Mundo com um objetivo claro, o de divulgar e valorizar a cultura cervejeira em Portugal, nomeadamente o movimento de produção caseira e artesanal. No que toca a prémios, tal como em 2016, as cervejeiras nacionais vão reproduzir as receitas vencedoras nas suas instalações: a Dois Corvos vai reproduzir o 1º lugar na Categoria Lager; a Maldita o 1º lugar na Categoria Ale; e a D'Os Diabos o 1º lugar na 2ª “Taça BJCP Portugal”.

A propósito deste evento falamos com Bruno Aquino, um dos organizadores e Sommelier de Cerveja.

“Se há mercado que é verdadeiramente democrático é o da cerveja artesanal”
Bruno Aquino, Sommelier de Cervejas e um dos organizadores deste Concurso Nacional

Bruno Aquino, antes de nos explicar no que consta este Concurso, gostaria que nos falasse do Fórum Cervejas do Mundo, entidade que organiza a iniciativa.

O Fórum Cervejas do Mundo foi criado em 2005, como local de interação entre as pessoas que visitavam o site Cervejas do Mundo, que existia, ainda que sob diferentes formatos, desde 2001. O fórum passou a ser um ponto de encontro, de contacto e de troca de experiências para a comunidade cervejeira portuguesa. Atualmente temos mais de 21 mil mensagens e quase dois mil tópicos que versam sobre ingredientes e técnicas de produção de cerveja, colecionismo, avaliação de cervejas, viagens com temática cervejeira, entre muitos outros assuntos.

A partir do momento em que o Facebook passou a ser a maior e mais concorrida rede social, criámos também aí um grupo do Cervejas do Mundo, que tem mais de 5500 membros e é extremamente ativo.

Em suma, o Cervejas do Mundo pretende ser um local onde toda a comunidade cervejeira nacional se junta, ainda que as pessoas tenham páginas pessoais, blogues ou utilizem as redes sociais para divulgarem o que vão fazendo neste mundo da cerveja.

Mais do que os prémios, creio que a grande mais valia para os concorrentes é poderem ter um feedback isento e qualificado sobre o verdadeiro estado das suas cervejas

Em concreto, quais são os objetivos subjacentes à organização deste concurso que entra agora na sua etapa final ?

O concurso é um evento anual de confraternização entre a comunidade homebrewing nacional mas não só. De facto, para além da componente competitiva, que é naturalmente importante, é também uma oportunidade para que produtores de cerveja artesanal, donos de bares, consumidores ou apenas curiosos, partilhem conversas e troquem experiências, algo que também é possível, ainda que mais difícil, num festival de cerveja, visto aí existir uma vertente comercial subjacente à venda da cerveja. Neste caso, o ambiente é totalmente descontraído, ninguém quer vender nada a ninguém e o objetivo primordial é essencialmente provar e avaliar cerveja.

Sim, mas não deixa de ser uma competição…

Numa ótica da competição em si, o momento é importante pois permite que quem tenha o hobby de fazer cerveja em casa ou em pequenas quantidades comerciais, perceba de facto em que ponto está a sua cerveja, a sua adequação ao estilo definido, a qualidade, eventuais defeitos ou melhorias a realizar, fruto da avaliação por juízes cervejeiros certificados e pessoas ligadas ao mercado da cerveja artesanal.

“Se há mercado que é verdadeiramente democrático é o da cerveja artesanal”

A iniciativa denomina-se “Concurso Nacional de Cervejas Caseiras e Artesanais”. Ou seja, há uma diferença entre cervejas de labor caseiro e artesanal?

É uma ótima pergunta pois permite desmistificar alguns conceitos erróneos. Hoje em dia é muito difícil definir o que é cerveja artesanal. Sendo um mercado em expansão exponencial, muitos estão a aproveitar-se dessa designação para lançarem produtos que, de artesanal, apenas têm o nome. Digamos que uma cerveja caseira é sempre artesanal, enquanto uma cerveja artesanal podes ser, ainda que maioritariamente não o seja, caseira.

O concurso está assim aberto a cervejeiros caseiros, isto é, aqueles que têm o hobby de fazer cerveja em casa, em equipamentos muito rudimentares e em quantidades muito pequenas; e também a pequenos produtores artesanais, onde a maquinaria é ainda é limitada, sendo que estabelecemos um limite regulamentar de produção mensal para se poder participar.

A meu ver, faria todo o sentido que mesmo sendo produtores de cervejas artesanais já com algum volume, alguns deles ponderassem pegar nos seus equipamentos antigos ou domésticos e competissem com os novos cervejeiros

Na prática este Concurso é um repto que deixam a toda esta comunidade de cervejeiros, certo?

Um dos objetivos que este concurso ainda não atingiu plenamente foi o de trazer mais cervejeiros experimentados para a “luta” das panelas. A meu ver, faria todo o sentido que mesmo sendo produtores de cervejas artesanais já com algum volume, alguns deles ponderassem pegar nos seus equipamentos antigos ou domésticos e competissem com os novos cervejeiros, voltando, no essencial, às suas origens. Em anos anteriores já tivemos alguns exemplos desse tipo de participação mas, infelizmente, e a meu ver, é muito residual. Não é fácil sair da nossa área de conforto mas creio que seria um desafio interessante.

Este ano alargaram a iniciativa a duas outras cidades. Estão a fazer-se muitas coisas interessantes fora de Lisboa?

Se há mercado que é verdadeiramente democrático é o da cerveja artesanal. Para além de haver cervejas para todos os gostos, para todos os momentos e situações ou para todos os bolsos, a verdade é que um pouco por todo o país podemos encontrar bons bares de cerveja, bons festivais e, acima de tudo, projetos de produção de cerveja artesanal. Não poderíamos ficar indiferentes a isso pelo que, pela primeira vez, o evento irá decorrer também fora de Lisboa, mais concretamente no Porto e em Portimão.

Concurso Nacional procura os melhores cervejeiros caseiros e artesanais

Que parâmetros avaliam os juízes neste Concurso?

As provas serão todas elas “cegas”, de modo que a que os membros do júri não saibam antecipadamente a origem e o cervejeiro por trás da amostra que estão a degustar.

Os juízes irão debruçar-se sobre quatro quesitos bases, designadamente a aparência, o aroma, o sabor e o final na boca (o que descrevemos por palato). Há também espaço para uma pequena nota algo subjetiva, a que se chama “impressão geral”. Todos estes parâmetros permitem avaliar as características organolépticas da cerveja, a sua adequação ao estilo definido, o prazer que dá em ser bebida, a facilidade com que é bebida, entre outros inúmeros aspetos.

Em concreto, que mais valia trouxe o Concurso no que respeita a vencedores em anos anteriores?

Mais do que os prémios, creio que a grande mais valia para os concorrentes é poderem ter um feedback isento e qualificado sobre o verdadeiro estado das suas cervejas. Quem faz cerveja em casa é, muito habitualmente, elogiado pelos seus amigos. Mas passar de uma avaliação por amizade para uma análise sistematizada e com suporte técnico é essencial para se evoluir e atingir outros patamares.

Ainda que esse me pareça ser o aspeto fulcral para a participação dos cervejeiros, é natural que a atribuição dos prémios seja um incentivo que contribui a concorrer e a obter bons resultados. E, nesse caso, destaco em especial o primeiro prémio de cada uma das categorias, que permite repercutir a receita vencedora numa instalação de uma marca de cerveja artesanal, que neste ano será na Dois Corvos (categoria Lager), Maldita (categoria Ale) e D’os Diabos (2ª taça BJCP Portugal).

Cervejeiros
As sempre exigentes provas de cerveja

Há, então, este carácter prático, o de alargar o Concurso ao mercado e às vendas?

Alguns vencedores de anos anteriores, caso das marcas SIN ou Amnesia, estão já a comercializar os seus produtos, pois a ótima avaliação que as suas cervejas receberam no concurso permitiu aos produtores perceberem que tinham ali um produto de qualidade e que valia a pena apostarem nele. O concurso tem, pois, esse propósito: o de dar destaque a novos produtores e incentivá-los a avançar, a serem empreendedores.

Mais genericamente, como considera que está a “saúde” da produção nacional de cervejas artesanais e caseiras?

Em termos de cerveja artesanal estamos numa fase de ouro. Semanalmente surgem novas marcas de cerveja artesanal, a comunicação social tem dado grande destaque a este setor e os consumidores têm aderido fortemente a novos aromas e sabores, a novas experiências que lhes são propostas pelas marcas.

Já no que concerne à produção de cerveja em casa, essa tem também vindo a crescer, mas a comunidade tende a dispersar-se um pouco e falta-lhe alguma capacidade de iniciativa em conjunto. Isso resulta, em parte, da atual legislação, que passou verdadeiramente do oito ao oitenta: Se há cerca de 6 anos era extremamente difícil licenciar um projeto para produção de cerveja artesanal, hoje é relativamente fácil, o que proporciona a que o produtor de cerveja em casa se entusiasme e pense logo em rotular a sua cerveja para venda. Decorre desse facto que rapidamente se passa de homebrewer para produtor e comercializador de cerveja artesanal, o que retira um pouco de força ao movimento de homebrewing.

Mas os tempos são risonhos e não será nos próximos anos que este crescimento abandará.

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