Cleópatra e Frankenstein é um romance publicado em 2022 e ambientada na cidade de Nova Iorque. Que relação pode existir entre a rainha egípcia e a entidade criada pelo Dr. Frankenstein, protagonista do romance oitocentista escrito pela britânica Mary Shelley? Há muito que a cultura pop entretece relações pouco prováveis nas páginas de livros, na tela do cinema, na música e, mais recentemente, nos videojogos.  Cleópatra e Frankenstein é apenas uma entre as dezenas de entradas que encontramos no site Egypopcult, um projeto que nasceu no seio da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. É com o diretor do projeto, o historiador espanhol Abraham Fernández Pichel, que mergulhamos no Antigo Egipto. Fazemo-lo com os olhos de um egiptólogo que se interessou pela forma como a cultura pop se apropriou de deuses e narrativas egípcias. Uma conversa que viaja entre diferentes latitudes e tempos, que percorre o cinema, a literatura e também o modo como nós, ocidentais, olhamos para uma civilização que nos é estranha. Egypopcult é o primeiro projeto mundial a obter financiamento dentro da sua área de estudo. Uma causa que envolve 15 académicos e muitos outros colaboradores.

O Abraham é historiador. Neste contexto como se dá o seu interesse pela civilização egípcia?

Temos de voltar à pré-história da minha vida. Sou espanhol, nasci em Sevilha, na Andaluzia, e lembro-me de ter visto um filme aos quatro ou cinco anos, que tinha uma parte que se passava no Antigo Egipto. A partir do momento em que assisti a esse filme comecei a interessar-me muito pelo passado, pela história e especialmente pelo antigo Egipto. Comecei a ler livros de diferentes géneros e a assistir a filmes sobre o Antigo Egipto. Aos poucos, ao longo da minha vida, comecei a orientar os meus estudos para a Egiptologia. Primeiro na universidade, em Espanha, fazendo história em geral. Depois, fui viver para França onde havia uma licenciatura em Egiptologia. Mais tarde, fui para a Alemanha, onde havia um doutoramento em Egiptologia e assim prossegui.

Ainda se recorda do nome do filme que viu em criança?

O filme chama-se Tut and Tuttle. Atualmente esta película é absolutamente impossível de encontrar. Há apenas uma cópia de muito má qualidade deste filme no YouTube. Cheguei a contactar, sem sucesso, a empresa produtora do filme, porque o realizador é conhecido, estamos a falar de um cineasta de Hollywood de muito sucesso, o Ron Howard que dirigiu filmes como Willow – Na Terra da Magia, Apollo 13, e a adaptação cinematográfica do Código da Vinci.

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A história do Antigo Egipto é vastíssima, cobre milhares de anos. O Abraham tem interesse em algum tema e período específico?

Sim, estou particularmente interessado nas inscrições hieroglíficas dos templos do período greco-romano no Egipto, ou seja, templos como o de Edfu, como o de Dendera e, principalmente, o de Esna, porque estou encarregue de estudar as inscrições hieroglíficas que se encontram naquelas estruturas. Por isso, a minha orientação profissional é sobretudo a linguística egípcia, ou seja, a língua egípcia antiga. Como estes textos estão em templos, ou seja, são textos religiosos, dedico-me ao estudo da religião egípcia da época tardia. Esse é o tema central e o foco do meu trabalho como egiptólogo. São textos que se prendem com o mundo dos deuses, ou seja, não são textos rituais, antes sobre como é o mundo divino, como são os deuses, como criam o mundo, como se relacionam entre si. Textos que traduzo, interpreto, comento, entre outras atividades.

Como sabemos, a humanidade gosta de contos e de narrativas. Encontrou nos textos que já traduziu alguma história que o tivesse espantado?

Gosto particularmente dos textos que ocuparam a minha tese de doutoramento, porque falam da criação do mundo e dos seres vivos. São textos particularmente poéticos e belos. Além disso, não tinham tradução anterior. Eram textos muito conhecidos na comunidade egiptológica, mas devido à sua dificuldade de interpretação, devido ao mau estado de conservação, ninguém os tinha publicado na íntegra. A minha tese de doutoramento é constituída por dois textos enormes, um é aquele a que já me referi, um texto sobre a criação. O outro, é um texto muito belo, mas num estado de conservação horrível. Portanto, foi um grande desafio trabalhar com estes textos e a sua interpretação. Cheguei mesmo a ter pesadelos [risos] dado o estado de conservação dos textos, com muitas partes completamente perdidas.

Abraham Pichel, o historiador que olha para o Antigo Egipto a partir da cultura pop
No decorrer de um seminário em Lisboa.

Entre os muitos trabalhos que o Abraham já desenvolveu a nível académico sobre o Antigo Egipto, encontramos, por exemplo, estudos sobre a figura do monstro na cultura popular contemporânea. Fala, inclusivamente de vampiros egípcios...

Sim, essa é a minha outra direção de investigação, que tem a ver com o projeto Egypopcult. Ou seja, para além de estudar as fontes egípcias, estudo também as fontes contemporâneas da cultura popular, aquelas ligadas ao cinema, à televisão, à banda desenhada, à literatura, entre outras. E, dentro desta temática, interessa-me particularmente a figura do monstro, ou seja, como é que a cultura popular egípcia de alguma forma associa o Antigo Egipto ao mal, ao diabólico. Como resultado dessa dimensão negativa, sinistra e monstruosa, temos o desenvolvimento de toda uma série de narrativas em que o protagonista é alguém mau, negativo, enfim, um monstro. Nesse contexto, encontramos sobretudo vampiros, múmias, mas também zombies.

Há alguma razão de fundo para associarmos o Antigo Egipto a monstros?

Na minha opinião há muitos fatores. Por um lado, o Egipto representa aos olhos ocidentais a alteridade, essa figura do outro que é, de alguma forma, alienígena, distante, mas igualmente diferente de nós e, por isso, aplicamos-lhe tudo o que é negativo e que não queremos personificar. Assim, esta alteridade explica o facto de o Egipto ser visto como a parte negativa de nós próprios.

Temos também outro aspeto fundamental, que se prende a todo o mistério, ao desconhecido que envolve o Antigo Egipto, que é realmente um terreno fértil para o aparecimento de elementos de mistério, de terror e de medo. Assim, estes dois elementos desempenham um fator muito importante na configuração daquilo a que chamo o ‘mal egípcio’. Quero dizer, os antigos egípcios na cultura popular são muitas vezes personagens maléficas e monstruosas.

Black Adam
Black Adam créditos: Wikimedia Commons

É um interesse que vem de trás. Penso, por exemplo, na egiptomania, a onda de interesse pelo Antigo Egipto que nasceu durante o século XIX e início do século XX.

Sim. Para além do que já mencionei, a monumentalidade também desempenha um fator fundamental no fascínio pelo Antigo Egipto. Ou seja, se fosse uma civilização sem numerosos testemunhos materiais, como acontece com a Mesopotâmia, talvez não estivéssemos perante este fenómeno. Assim, quando estamos no Cairo e visitamos, por exemplo, as grandes pirâmides, só conseguimos perceber a sua dimensão quando frente aos monumentos. Tal, faz-nos perceber a grandeza daquela civilização. Também anos sentimos assim quando visitamos um dos túmulos no Vale dos Reis e olhamos para as decorações e inscrições. Ou seja, esta questão da monumentalidade tem desempenhado um papel muito importante.

Todos estes elementos, assim como muitos outros, são fundamentais para explicar o fascínio ocidental pelo Egipto. Este manifestou-se através de diferentes vagas da egiptomania, com as campanhas de Napoleão do Egipto [1798-1801], mas também com a decifração da língua egípcia por Champollion no século XIX, ou, mais tarde, com a ‘tut-mania’ a partir dos anos de 1920.

Há um momento em que a cultura pop se apropria deste imaginário. Consegue identificar esse momento?

O Ocidente tem contactos com o Egipto durante o século XVIII e XIX, com viajantes que vão àquele país e ali copiam inscrições e fazem desenhos. E esses desenhos, essas cópias de inscrições chegam à Europa. Mais importante é o momento em que o Egipto chega de forma massiva à população europeia e norte-americana, através dos marcos históricos que já mencionei. Por exemplo, com as campanhas napoleónicas, há a publicação de uma grande obra descritiva do Egipto, empreendida pela equipa de estudiosos que acompanhou o imperador. Posteriormente, a abertura do Canal do Suez também desempenhou um papel fundamental, permitindo uma navegação mais fluida entre o Mar Mediterrâneo e o Egipto. E depois temos, claro, a vaga de ‘tut-mania’.

Também referiu há pouco a decifração da língua egípcia por parte do francês Champollion. Presumo que tenha contribuído para nos aproximar daquela civilização.

Sim. Pense como é importante que uma cultura que só era conhecida através de referências indiretas, ou seja, aquilo que os autores gregos e latinos nos relatavam, passar a ser traduzida a partir da escrita hieroglífica. De repente, começamos a ‘escutar’ e a ler os próprios egípcios já não de uma forma indireta. Uma civilização começa a falar de si própria. Isso é absolutamente fundamental para o desenvolvimento quer da Egiptologia a nível académico e como disciplina científica, quer para a abertura deste antigo Egipto ao grande público, principalmente na Europa e nos EUA.

Como nasceu o projeto Egipopcult?

 O Egipopcult nasceu durante uma refeição na cantina da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Antes, tinha proposto ao meu departamento, ao Centro de História, a escrita de um livro sobre a cultura popular e o Egipto. O diretor do departamento sugeriu que eu transformasse esse livro, que ainda estava a ser planeado, num projeto proposta à Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), o principal organismo de financiamento académico em Portugal. Aceitei o desafio. Mas, claro, a questão seguinte foi perceber quanto tempo tinha para apresentar uma proposta. E o meu colega diz-me que tinha duas semanas [risos). Ou seja, tinha apenas 15 dias para contactar colegas, organizar uma proposta e escrevê-la. Foi um pesadelo absoluto durante duas semanas. Mas, estarei sempre grato a essa pessoa pela ideia que me deu.

Abraham Pichel, o historiador que olha para o Antigo Egipto a partir da cultura pop

De que forma se materializa esta vossa iniciativa?

Temos a página online e, dentro desta, temos aquela que, na minha opinião, é a obra mais duradoura do projeto, uma base de dados organizada por temas. Paralelamente organizámos muitos seminários, um congresso internacional em janeiro de 2024, em Lisboa, assim como uma série de artigos de investigação. Também organizámos workshops e aulas em escolas secundárias. Também publicámos o livro, disponível para download gratuito, How Pharaohs Became Media Stars (numa tradução livre: Como se Tornaram os Faraós Estrelas Pop).

Trabalham com uma equipa multidisciplinar. De que áreas provêm os investigadores envolvidos no Egypopcult?

Um dos aspetos em que quis ser inovador prendeu-se com a criação de uma equipa multidisciplinar. E tinha de ser multidisciplinar tendo em conta, não só académicos de diferentes disciplinas, mas também académicos de diferentes núcleos culturais do mundo. Ou seja, não queria apenas europeus e americanos, mas também estava interessado em saber como é a cultura popular na Ásia, em África e no Egipto em particular, ou na América Latina. Assim, consegui reunir uma equipa central de 15 membros, principalmente académicos, ligados a temas como História do Mundo Clássico, Egiptologia, mas também, claro, em estudos audiovisuais, Literatura dos séculos XIX e XX, História da Arte, Sociologia, entre outras áreas. Isto permitiu-nos uma abordagem múltipla, ou seja, olhámos para fontes de estudo como a banda desenhada, filmes, séries, jogos, entre outras. Não é apenas a visão de um egiptólogo, mas a visão de um historiador de arte, de um sociólogo, de um antropólogo, entre outros. Depois, temos um núcleo maior de colaboradores com mais de 50 pessoas. A coordenação de todos estes setores faz-se através de numerosas reuniões e intercâmbios científicos

A perceção que se tem do Egipto varia muito de acordo com as diferentes geografias?

Sim. Dou-lhe um exemplo: na visão egípcia da cultura popular egípcia, há uma perspetiva clara da defesa do património. Ou seja, querem, de alguma forma, conservar e valorizar o património que a sua própria história lhes deu. Já as visões habituais do Ocidente, são muitas vezes as do colonialismo cultural. Por outras palavras, o arqueólogo europeu ou americano vai ao Egipto porque acredita que os egípcios não sabem valorizar o seu património e não sabem estudar o seu passado. Por isso, filmes como A Múmia, com o ator Brendan Fraser, oferece-nos um arqueólogo como o único capaz de interpretar o pensamento, a língua e a cultura egípcia antiga. Os egípcios têm papéis secundários e, em certos filmes, são meros figurantes.

Já na Ásia, há uma outra visão, com reformulações do Egipto misturadas com elementos orientais em suportes como o manga e o anime. Julgo que um dos grandes problemas da cultura e da história populares contemporânea é que, normalmente, se baseiam exclusivamente em testemunhos ocidentais e não nestas outras áreas culturais.

Isis
Isis. créditos: Wikimedia Commons

A própria forma como olhamos para o Egipto também muda com as épocas...

Sim, mas continuamos a ter uma visão colonialista em muitos aspetos. E, claro, o desenvolvimento do cinema de Hollywood, com filmes de grande orçamento e com super-heróis, também tem influência. Há um filme recente de 2016 que se chama Gods of Egypt (Deuses do Egipto), em que as divindades são verdadeiros super-heróis da Marvel.

Ao hiperbolizarmos o Egipto não podemos estar a defraudar os mais jovens face àquilo que é a realidade?

Sim é um perigo, mas temos de olhar para outros aspetos. Fui professor do ensino secundário antes de ser professor universitário e apercebi-me de que a cultura popular estava completamente excluída dos programas educativos. Refleti sobre a questão, baseado na experiência pessoal, e percebi que a cultura popular no âmbito escolar pode desempenhar um papel muito importante para que as crianças se interessem pelo passado. O problema seria se misturássemos as duas conceções, ou seja, se transmitíssemos que o Egipto da cultura popular é o Egipto antigo e não o contrário. É claro que temos de conceber atividades, materiais pedagógicos e educativos que tenham em conta a separação entre estes dois Egiptos. Assim, nas aulas que eu e alguns colegas da Universidade de Lisboa conduzimos nas escolas secundárias, a apresentação consistia em duas partes. Uma primeira parte sobre o Egipto antigo e uma segunda parte sobre o Egipto na cultura popular.

Como tem a Academia reagido ao vosso Egypopcult?

 Esse é um dos grandes problemas desse tipo de projetos. Certamente que no âmbito da Universidade de Lisboa o Egypopcult não tem sido problemático, porque temos colegas que já trabalham com questões de cultura popular há alguns anos. Mas, noutras instituições considera-se que isto não é Egiptologia, que não é académico e que se trata de entretenimento. Nessa perspetiva, um filme, uma banda desenhada ou uma série de televisão nunca podem ser objeto de análise por parte dos académicos. Um dos objetivos do projeto Egypopcult visa, precisamente, quebrar esta conceção tradicional e completamente intemporal num mundo em que os novos media, como a televisão, a Internet, entre outros, têm um papel tão importante. É no âmbito deste primeiro projeto financiado que lutamos, para que ele também tenha lugar na formação académica nas nossas universidades. Nenhum outro projeto sobre a cultura popular contemporânea e a egiptologia foi financiado em todo o mundo. Egypopcult é o primeiro o que tem aspetos positivos e negativos. É mau porque somos nós a criar tudo de raiz, mas é bom porque estamos a abrir um novo caminho.

O Regresso da Múmia.
O Regresso da Múmia. créditos: Wikimedia Commons

Como será o futuro do Egypopcult?

O projeto estava inicialmente previsto para um ano. Conseguimos um prolongamento para um ano e meio. Quando o projeto terminar, em setembro de 2024, a ideia é prolongar esta proposta com um projeto europeu, internacional e com muito mais financiamento. Os alicerces foram lançados, pelo que agora temos de ser mais ambiciosos e ir ainda mais longe.

 No último ano chegou-lhe às mãos muito material relacionado com o Egipto visto pela cultura pop. Já se deparou com algum tesouro?

Como diretor de projeto, tenho de rever todas as entradas na base de dados e, honestamente, em certos casos, apetece-me aprofundar o que leio sobre uma banda desenhada ou sobre um jogo. No que respeita ao tema que mais me interessa, este relaciona-se, principalmente, com os videojogos. Só conhecia o videojogo Assassin's Creed Origins. Tem, realmente, uma enorme quantidade de elementos de interesse, não apenas para o historiador, mas para o público em geral. Por outras palavras, é uma verdadeira experiência. Por outro lado, tenho interesse no cinema egípcio. Vivi no Egipto quando trabalhei permanentemente no terreno. Infelizmente, o acesso ao cinema egípcio, sobretudo o dos últimos 30 anos, não é fácil por questões linguísticas, mas sobretudo pela falta de distribuição de muitos filmes daquele país. Temos vários investigadores egípcios na equipa ligados ao cinema e literatura egípcia. Com eles, estamos a descobrir maravilhas absolutas do ponto de vista, não só do cinema, mas do ponto de vista da análise egípcia. Assim, por exemplo, deparámo-nos com o filme A Múmia [The Mummy – The Night of Counting the Years], que nada tem a ver com o filme de que já falámos. É simplesmente um filme em que desenvolvemos uma visão do património histórico egípcio, dos ladrões de túmulos, entre outros aspetos. É uma verdadeira obra-prima. Aliás, este filme foi apresentado no último Lisboa Film Festival.