Deixem que vos apresente “Pollyana”, uma menina orfã de 11 anos com uma atitude excessivamente otimista e que é a personagem principal de uma obra de 1913.

Uma menina cujo lema de vida assenta na ideia de que existe em toda e qualquer situação algo capaz de nos alegrar, desde que continuemos a procurar essa alegria. Esta atitude otimista tem sido vendida ao longo do tempo como um mantra a seguir, quase como o elixir da felicidade. E se esta fórmula for, afinal de contas, uma armadilha?

Tendemos, de uma forma geral, a querer fugir do que nos causa desconforto e sofrimento. Seja quando o vivenciamos na primeira pessoa, seja quando estamos perante o sofrimento alheio, o qual é igualmente difícil de enfrentar.

Agora façamos um pequeno exercício. Relembremos quantas vezes partilhámos algo negativo com alguém e ouvimos como resposta “Não fiques assim! Isso são só coisas da tua cabeça”, ou talvez “Não penses nisso!”. Ou ainda o clássico “podia ter sido pior... tens que pensar positivo!”. Pensemos agora na quantidade de vezes em que fomos nós que proferimos essas palavras.

Agora convido a pensar no que sentimos quando o ouvimos. Talvez essa resposta tenha sido uma estratégia para tentarmos que a outra pessoa deixasse de manifestar o seu sofrimento, mas também não podemos escamotear que possa ter servido, do mesmo modo, para minorar o desconforto que sentimos perante o sofrimento alheio.

A positividade e o optimismo podem ser nocivos

Surpreendidos por esta afirmação? Pensemos quando levamos ao extremo esta positividade como estratégia para fugir ao que causa sofrimento... é isto que causa ainda mais sofrimento. Referimo-nos a este efeito nocivo quando falamos de positividade tóxica.

Esboçando uma definição, estamos a falar de uma crença de que uma uma postura optimista e/ou um estado de felicidade é apropriada em todas as ocasiões. Esta atitude, falsamente positiva e de generalização, conduz à negação e invalidação da experiência emocional “negativa”, seja ela alheia ou pessoal.

Vivemos num mundo cada vez mais digital e de redes sociais, onde vendemos e procuramos difundir uma imagem pessoal bastante positiva, com vista à sua valorização pelo grupo a que se pertence. Esta visão lapidada da vida que queremos transparecer encontra terreno fértil na positividade tóxica.

É bastante raro alguém destacar ou assumir as suas falhas e os seus erros (ou que sejam percecionados como tal), preferindo, ao invés, construir uma imagem artificial e desfasada da realidade com o intuito de obter aprovação social. Os modelos veiculados nos perfis e publicações servem de barómetro a comparações sociais, através dos quais nos comparamos aos outros, sendo fácil cair na armadilha da interpretação enviesada de que todos têm mais, ou são melhores, ou lidam melhor e/ou são mais felizes do que nós.

Torna-se então cada vez mais difícil “competir” com o novo normal – o perfeito que é construído, valorizado e partilhado socialmente - e por isso é que a experiência verdadeira fica tantas vezes aquém e é escondida, conduzindo a estados emocionais mais negativos e que são tão mais difíceis de aceitar e de demonstrar.

Compreende-se então o quão desgastante é carregar o escudo da positividade tóxica de uma forma consistente, especialmente quando todas as emoções são válidas e cumprem uma função. Podemos experienciar um conjunto de emoções que fazem parte da condição humana, mas dificilmente nos permitimos expressar as emoções avaliadas como mais negativas.

A raiva, a tristeza, a ansiedade, tal como outras, existem e são tão necessárias quanto a alegria

Definem-nos enquanto seres humanos e seres de e em relação, pelo que a supressão delas não augura nada de bom. Muito pelo contrário. Sabemos que a supressão emocional se reflete ao nível da saúde física (por exemplo de através de somatizações), mas também ao nível da saúde mental, sendo que o evitamento das emoções negativas conduz a um aumento dos níveis de sintomatologia ansiógena e depressiva.

Para além do que já foi exposto, viver sob o espectro da positividade tóxica serve ainda para nos retirar autenticidade, diminui a capacidade de desenvolver a resiliência face à ocorrência de situações adversas e aumenta exponencialmente a nossa intolerância ao desconforto. No fundo, o que obtemos mais não é do que um alívio temporário do desconforto e das emoções difíceis que, em última instância, os perpetua ao longo do tempo.

Viver com autenticidade é permitirmo-nos experienciar todas as emoções, mesmo que o desconforto impere e o sofrimento pareça ser avassalador. Daqui deriva uma conclusão largamente consensual na psicologia, ou seja, a aceitação da totalidade da paleta emocional é a fórmula para um maior ajustamento emocional. Se tal é fácil? Claro que não, mas a bússola claramente indica este caminho.

Não é negar o otimismo, mas sim encontrar caminho para a validação emocional do que sentimos e daquilo que o outro sente. É profundamente humano não estar bem, não estar sempre bem, não manter a compostura emocional e não ter nem ostentar uma vida perfeita. Aliás, a perfeição (ou a sua busca incessante) sempre foi inatingível e um fardo demasiado difícil de carregar.

Aqui entra em jogo um poderoso recurso que se torna tão importante quanto útil. Falamos do desenvolvimento de uma atitude (auto)compassiva que nos vai permitir gerir melhor as dificuldades emocionais, aceitando-as sem crítica, percebendo que são parte da experiência humana e acolhendo de forma calorosa o desconforto e sofrimento emergentes. A compaixão estimula o sistema neurofisiológico que neutraliza o sistema de alarme, diminui o stress, reequilibra-nos e permite-nos dar uma resposta mais compatível e conectada com o nosso sistema de valores.

É profundamente empático reconhecer a dificuldade presente na partilha de situações emocionalmente difíceis. Contudo, ouvir um “vai ficar tudo bem” ou então “não fiques assim” ,pouco faz para mitigar o sofrimento da outra pessoa. Mais parece que, sob a capa do otimismo, estamos, em última instância, a desvalorizar o que o outro está a sentir e a partilhar connosco . Porque não assumi-lo? Assim estaremos também a evitar o nosso próprio desconforto perante a dor alheia. A empatia e a compaixão traduzem-se por uma atitude calorosa de acolhimento do outro, de escutar mais do que apenas ouvir, de se fazer e estar presente para o outro.

Em suma, nem tudo tem de estar sempre bem e está tudo bem com isso! Façamos um esforço para normalizar, validar e aceitar as emoções e fragilidades do outro... e já agora as nossas próprias também.

Texto: Mário Veloso, Psicólogo do PIN

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