Provavelmente, sabe que é essencial dormir oito horas por noite, mas já se perguntou porquê? O que acontece de tão importante enquanto dormimos para este conselho dever ser seguido à risca? A resposta está nas atividades realizadas pelo seu cérebro enquanto descansa. Para sabermos ao certo o que acontece e como se processa, falámos como o neurologista Ângelo Soares, autor da obra "O sono – Efeitos da sua privação sobre doenças orgânicas", livro publicado em Portugal pela editora Lidel.

Como se define o sono?

O sono é um estado anatómico e funcional de não acordado, de desligar da relação com o mundo exterior para que o cérebro possa trabalhar para si próprio, dedicando-se às atividades necessárias ao seu funcionamento normal.

O que é que nos obriga a dormir?

A nossa própria estrutura anatómica e fisiológica cerebral. Como qualquer máquina, o organismo tem necessidade de parar de vez em quando e descansar. Mas não se trata propriamente de descansar, já que é justamente quando estamos a dormir que o cérebro trabalha mais.

Que actividades são realizadas pelo cérebro enquanto dormimos?

Durante o sono, o cérebro desliga-se do ambiente exterior e analisa todas as suas funções e estruturas anatómicas, bem como as secreções que precisa de libertar. Por outro lado, aproveita para reparar lesões que podem aparecer e complicar a atividade cerebral.

Quanto à memória, esta vai compilar os dados da informação amontoados, vai catalogá-los e armazená-los corretamente de modo a conseguir, em qualquer altura, recuperar e usar essa mesma informação.

Que substâncias são libertadas?

A acetilcolina é um dos elementos fundamentais para o sono e não só. É um neurotransmissor que existe nos terminais de neurónios praticamente em todo o corpo, incluindo o cérebro. É segregada ao ritmo do relógio biológico, conforme as necessidades e a finalidade, da mesma forma que a noradrenalina ou norepinefrina e outras. À medida que umas aumentam, as outras diminuem. É um processo de equilíbrio constante.

Qual o papel dos neurotransmissores?

Qualquer função do cérebro é elaborada nas células cerebrais, sendo transmitida ao longo dos neurónios mediante a secreção de neurotransmissores. É assim que se gera um efeito no neurónio terminal num determinado órgão, seja o coração, o pulmão ou o intestino. Durante o sono, há secreções que são diminuídas e outras aumentadas, de modo a poderem ser lançadas em circulação.

A reparação de lesões cerebrais é uma das tarefas do cérebro durante o sono. De que lesões se tratam?

Podem ser lesões funcionais, quando uma estrutura envolvida no funcionamento normal do cérebro não está a 100%. Também podem ser lesões anatómicas, que se vêem quando se faz uma tomografia axial computadorizada [TAC] ou uma ressonância magnética.

Quando a pessoa está acordada pode haver uma tentativa de redução desses problemas, mas as lesões estruturais são fundamentalmente tratadas durante a noite porque há possibilidade de desviar muito mais neurotransmissores nesse sentido. Há uma reconstrução, de forma a reduzir e até curar a lesão estrutural inicial.

O que causa estas lesões?

Uma zona do cérebro pode ficar perturbada por cansaço ou fadiga e é durante o sono que há uma recuperação fisiológica dessas estruturas. Mas no caso de uma pessoa que apanhou uma pancada na cabeça, que tem um acidente vascular cerebral [uma trombose ou uma hemorragia] ou outro problema, também é durante o sono e, por exemplo, num estado de coma, que se faz a recuperação dessa estrutura. Pode começar durante o sono, com a ajuda de agentes estranhos como medicamentos.

O sono interfere na capacidade de armazenamento ou na forma como as memórias são armazenadas?

Sim, mas fundamentalmente na forma. A catalogação é feita automaticamente. Se não for feita correctamente, as informações ficam na gaveta errada e nunca mais se consegue recordar o que aconteceu tal como se passou. Por outro lado, o fator emocional tem uma influência muito grande no processo de catalogação e armazenamento.

Recordar uma informação proporciona uma sensação equivalente à que ela originou quando se deu o acontecimento, seja de forma positiva ou negativa. Assim, um acontecimento com conotação negativa é armazenado de forma diferente, já que se evitará falar sobre isso para evitar a sensação desagradável.

Dormir bem faz com que nos esqueçamos menos das coisas?

A pessoa, quando dorme bem, tem melhores condições para uma capacidade de memória conservada. Recebe a informação, processa-a segundo os trâmites habituais, cataloga-a, guarda-a no sítio certo, como se fosse numa gaveta e, sempre que necessário, vai à gaveta e a informação correcta está lá.

Quando não se tem um sono reparador, tudo isso é alterado num ou noutro sentido e alguma coisa será prejudicada ao evocar ou recuperar a informação. Não dormir bem pode vir a refletir-se à distância, segundo o sistema imunitário, o sistema endócrino e muitos outros fatores. Não só a memória é prejudicada, mas a saúde alterada e as consequências podem ser sérias.

Texto: Rita Miguel com Ângelo Soares (neurologista)

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