As escolhas alimentares que fazemos podem ter impacto positivo ou negativo na nossa saúde, motivo pelo qual nem sempre utilizamos a alimentação como uma aliada do nosso bem-estar. João Rodrigues, nutricionista e autor do blogue “Mundo da Nutrição” não tem dúvidas:a alimentação tem um papel muitíssimo importante na prevenção de inúmeras doenças, bem como na minimização das consequências das mesmas”. Expressão que serve de mote ao seu novo livro O Poder dos Alimentos (edição Manuscrito) e pretexto para a conversa que mantemos com o autor.

Em entrevista, João Rodrigues recorda-nos a “incrível herança gastronómica” portuguesa e não destitui o estar à mesa das suas componentes sociais e emocionais. O nutricionista acrescenta que nos compete salvaguardar a herança da boa mesa que recebemos e reitera uma questão sempre na ordem do dia: “não há dietas milagrosas”, tão pouco podemos associar uma boa imagem ou aparência a uma boa saúde: “por detrás de uma boa imagem podem estar graves desequilíbrios nutricionais”, sublinha o nutricionista.

Como mote para a conversa com João Rodrigues fica-nos a frase do autor: “devemos ter uma alimentação o mais variada possível. Isto porque não há alimentos perfeitos, nem há alimentos que são sempre prejudiciais”

O João Rodrigues não é um estreante no que toca à escrita de livros, já publicou Duelo de Alimentos e Tradicional e Saudável. O que tem de novidade o livro que agora nos apresenta?

Trata-se de um livro que revela que as nossas escolhas alimentares devem ser encaradas como algo que pode ter um impacto positivo ou negativo na nossa saúde. Se, por um lado, todos conhecemos a ideia de que, em parte, “somos o que comemos”, também é verdade que no nosso dia a dia, nem sempre utilizamos a alimentação como uma aliada da nossa saúde. Não tenho dúvida que a alimentação tem um papel muitíssimo importante na prevenção de inúmeras doenças, bem como na minimização das consequências das mesmas. E é isso mesmo que o livro pretende: ajudar os leitores a fazerem melhores escolhas alimentares com o objetivo de se tornarem pessoas mais saudáveis. O Poder dos Alimentos está dividido em vários capítulos, sendo que cada um corresponde a uma doença específica. Em cada um desses capítulos é possível perceber quais são os alimentos que se devem evitar, e quais os que devem ser consumidos com mais regularidade. E como um bónus, no final de cada capítulo ainda se encontra uma receita com alguns desses alimentos.

A abrir o livro recorda-nos a definição de saúde de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Uma tríade entre o bem-estar físico, mental e social. O poder dos alimentos preenche estes três pilares?

Sem dúvida. A alimentação não é a única variável que devemos ter em consideração quando o objetivo é a promoção da saúde, mas é uma das mais importantes. Se por um lado os alimentos nos fornecem energia, blocos de construção e os demais intervenientes para o funcionamento do nosso corpo, contribuindo dessa forma para o nosso bem-estar físico, também não é menos verdade que temos uma ligação emocional muito forte com a comida. Estou a falar das preferências alimentares e das memórias que determinados pratos nos trazem, por exemplo. Por último, mas não menos importante, as refeições são, ou pelo menos deveriam ser, momentos de partilha. Não apenas de alimentos, mas também de tempo. Quando nos sentamos à mesa com alguém, estamos a partilhar o nosso tempo com essa pessoa, ou seja, estamos a contribuir para o nosso bem-estar social.

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No nosso país, o atual contexto económico e social preenche os requisitos para satisfazer os três pilares indicados?  

É uma pergunta difícil de responder, mas de uma maneira geral acredito que sim. A ideia de que comer de forma saudável é dispendioso, não é necessariamente verdade. Há muitos alimentos que são muito ricos do ponto de vista nutricional, são baratos, mas nem por isso são consumidos com regularidade. As leguminosas são um excelente exemplo dessa situação. Além disso, em Portugal temos uma clara mais-valia alimentar, quando nos comparamos com a maior parte dos restantes países: temos uma herança gastronómica incrível, a célebre Dieta Mediterrânica. Ou seja, a nossa gastronomia tem uma base que pode ajudar a tornar a nossa alimentação como um veículo promotor da saúde. Mas neste contexto nunca é demais relembrar que todos nós temos a responsabilidade de garantir que essa herança não se perde, e que é perpetuada na atualidade, o que, sejamos honestos, nem sempre é o que acontece. Por outro lado, o atual contexto social de pós-pandemia, aliado ao 'calor humano' que caracteriza os Portugueses, são obstáculos para a adoção de bons hábitos alimentares. Mas com uma boa dose de bom-senso e equilíbrio, é possível conciliar as duas variáveis.

O atual contexto social de pós-pandemia, aliado ao 'calor humano' que caracteriza os Portugueses, são obstáculos para a adoção de bons hábitos alimentares.

Numa sociedade que valoriza a imagem e a perceção que os demais têm de nós, é fácil para um nutricionista passar a mensagem de que um corpo belo pode ser um corpo doente?

Infelizmente não. Sem dúvida que a aparência é muito importante, mas não pode ser encarada como o único fator a ter em consideração quando se avalia a saúde de cada um. Aliás, nem sequer deve ser encarado como o mais importante. Nós somos um somatório de inúmeras características, e por detrás de uma boa imagem podem estar graves desequilíbrios nutricionais, alterações metabólicas profundas, problemas de autoestima, uma relação conturbada com a alimentação, entre tantos outros problemas. O papel do nutricionista é tentar conciliar todas estas características, e arranjar uma forma de a pessoa se alimentar que vá ao encontro às suas necessidades, objetivos e características. Por isso é que não faz sentido pensarmos em dietas “milagrosas”, ou dietas que se aplicam da mesma maneira para todas as pessoas.

No seu livro, o João Rodrigues diz-nos que o conceito de alimentação saudável é mais utópico do que real. O que nos quer transmitir com estas palavras?

Nós somos seres dinâmicos, que estão em constante mudança, como consequência do envelhecimento e das inúmeras interações que temos com tudo o que nos rodeia. Esta mudança/evolução é acompanhada por diferentes desafios a nível nutricional e alimentar, seja porque passamos a precisar mais do nutriente X, ou porque descobrimos que afinal gostamos do alimento Y. Ou seja, aquilo que uma pessoa necessita num determinado momento, deve ser visto como algo mutável, que se vai moldando em função da vida e das características dessa pessoa. Nesse sentido, apesar de existirem regras básicas que devem governar a ideia de “alimentação saudável”, é fundamental perceber que além da variabilidade que existe entre todos nós, também as mudanças que vamos sofrendo ao longo da vida exigem alterações contínuas na alimentação.

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Ao lermos o seu livro percebemos um sem número de variáveis a ter em conta na alimentação para prevenirmos doenças ou como coadjuvante no tratamento de patologias. Quais são as regras elementares que temos de interiorizar?

Há uma regra que eu diria que é indispensável, e que penso que se torna evidente à medida que se vai lendo o livro. Devemos ter uma alimentação o mais variada possível. Isto porque não há alimentos perfeitos, nem há alimentos que são sempre prejudiciais. Além disso, e de uma maneira geral, devemos ter presentes as principais características da Roda dos Alimentos, a começar pela água, que ocupa a porção central da mesma, e que deve estar sempre presente nas nossas vidas. Também o facto de a Roda dos Alimentos ter fatias com diferentes dimensões, revela-nos que há classes de alimentos que devem ser ingeridas em maior quantidade (frutas, legumes e cereais), e outras que devem ser consumidas em menor quantidade.

Aquilo que uma pessoa necessita num determinado momento, deve ser visto como algo mutável, que se vai moldando em função da vida e das características dessa pessoa.

Há alimentos que, de todo, devemos afastar das nossas mesas?

Salvo raras exceções, como as alergias alimentares, por exemplo, eu diria que não. Mesmo aqueles alimentos que reconhecidamente sabemos que podem potenciar alguns problemas de saúde, como os enchidos, ou as bebidas alcoólicas, por exemplo, têm lugar na nossa alimentação, ainda que de forma esporádica. A regra deve ser comer bem, de forma equilibrada e saudável, mas quanto mais não seja para promovermos o bem-estar mental e/ou social, de vez em quando devemos ingerir os tais alimentos que muitas vezes são classificados como “proibidos”.

Quais são as doenças que imediatamente podemos associar a maus comportamentos alimentares?

São tantas. A obesidade é, na minha opinião, umas das mais evidentes, pois no final de contas, a obesidade surge quando a quantidade de calorias que se ingere ultrapassa as calorias gastas. No extremo oposto temos os distúrbios alimentares como a anorexia ou a bulimia. Também a maior parte das doenças cardiovasculares, associadas a quadros de hipertensão ou de excesso de gordura no sangue, bem como vários tipos de cancro, são patologias nas quais os maus hábitos alimentares podem ser uma das principais causas. Mas não posso deixar de referir que a alimentação não é a única variável que se deve considerar, mesmo nestes casos, pois as características individuais de cada pessoa, e o seu estilo de vida são fatores igualmente importantes.

Pode dar-nos alguns exemplos de como uma alimentação equilibrada pode evitar o surgimento de algumas patologias ou mitigar os efeitos das mesmas?

Por exemplo, o consumo de uma alimentação rica em fibra tem um impacto direto não apenas no funcionamento do intestino, mas também na composição da microbiota intestinal, que é a comunidade de bactérias que vive no nosso intestino. Sabe-se que a manutenção de uma composição saudável da microbiota intestinal é um fator preponderante na diminuição do risco de múltiplas patologias, tais como patologias intestinais, hepáticas, cardiovasculares ou psiquiátricas, por exemplo. Também o consumo de alimentos ricos em antioxidantes ajuda a prevenir o aparecimento de doenças como o cancro, as doenças cardiovasculares, entre tantas outras. Ou seja, motivos não faltam para adotarmos uma alimentação mais saudável, e é exatamente essa a mensagem que eu pretendo transmitir com este meu novo livro.

O facto de uma doença ser incurável, não significa que não haja nada a fazer, e que resta apenas à pessoa resignar-se e aceitar todas as consequências como inevitáveis.

A depressão, distúrbios do sono, hiperatividade podem estar associados a uma má ou precária alimentação?

Sim, sem dúvida. Não sendo a única variável que se deve ter em consideração, a alimentação tem um impacto direto no funcionamento do nosso corpo em geral, e no cérebro em particular. Apesar de não ser uma relação óbvia, pelo menos à primeira vista, se o cérebro não receber aquilo que necessita para funcionar corretamente, ou se receber algo que compromete o seu funcionamento, podem surgir distúrbios como a hiperatividade, a depressão, distúrbios do sono, entre outros. E neste caso estamos a falar em problemas de saúde que podem ter efeitos devastadores para quem sofre dos mesmos, pois podem comprometer, por exemplo, a capacidade de descanso e/ou a componente social da vida dessas pessoas.

Que papel têm os alimentos na diminuição do impacto negativo das doenças incuráveis?

Esse é um tema tão importante. O facto de uma doença ser incurável, não significa que não haja nada a fazer, e que resta apenas à pessoa resignar-se e aceitar todas as consequências como inevitáveis. É sempre possível fazer alguma coisa, no sentido de minimizar o impacto que as doenças têm nos pacientes. A alimentação tem o potencial de, não raras vezes, ajudar a atingir-se isso mesmo. O objetivo do paciente é sempre o mesmo objetivo dos profissionais de saúde que o acompanham: atuar da melhor forma para que determinado problema de saúde tenha o menor impacto possível na vida dessa pessoa. E se se conseguir mudar alguma coisa, por mais pequena que seja, no sentido de melhorar a qualidade de vida do paciente, já valeu a pena.

Entrevista concedida por escrito em outubro de 2022.

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