Quatro anos de idade (e mais uns trocos). O suficiente para ter a audácia de se estatelar no chão e ceder à gravidade (do quadro clínico e da física). Lembra-se de tudo: da desorientação e daquele lanho na cabeça, que parecia ter descoberto a nascente do seu sangue. Entre os gritos e a cara branca de fazer corar o Batatinha, era fácil perceber que tinha caído. Ao mesmo tempo que tentava fazer crer que estava bem, instaurava-se o pânico. Tudo isto, sem querer, deixou a descoberto o nepotismo que sempre existiu naquela família.

A mãe apressou-se a levantá-lo do chão e ligou de imediato ao pai da criança, para saber se estaria longe do local, dando conhecimento que a criança teria caído. Claro está que, se o marido não é família directa, podia ter ligado a alguém mais qualificado - talvez ao pai biológico – mas optou por basear-se na máxima de que "pai é quem cria".

A mãe, atónita, não conseguia reagir. Apesar de o miúdo parecer estar bem, aconselharam-na a chamar os bombeiros. Lembrou-se de chamar o seu primo, que é bombeiro sapador. Apesar de não ter fama de ser bom profissional, é família e, provavelmente, conseguiria acelerar o processo. Acabou por chegar mais tarde do que se fazia prever, porque teve um imprevisto. Preferiu ficar malvisto na família porque, aparentemente, o quadro do garoto não seria grave e, obviamente, a família não desconfiaria que fosse capaz de comprometer os seus.

Chegaram ao hospital e tiveram a sorte da segurança ser esposa do primo que é bombeiro. Elas dão-se mal, mas é sempre um conhecimento dentro de uma instituição, não é? E acreditem que foi muito útil para agilizarem as coisas. A segurança até os lembrou que um dos pediatras que estaria de banco era cunhado do Antunes, da família dos "parafusos", a alcunha de três gémeos que têm a cabeça sextavada por terem nascido a ferros. Ainda chegam a ser família afastada. Quando entraram no serviço, deram de caras com uma sobrinha que estava engripada, cedendo-lhes a vez. O que somos nós sem estes laços familiares?

O médico, a reboque da confiança que nutria pela proximidade familiar, foi peremptório no diagnóstico: "o meu primo tem aquilo a que, cientificamente, chamamos um galo". Claro que tiveram logo de fazer um paralelismo à linhagem dizendo que, a ser um galo, devia ser dos caseirinhos, como os que a avó vendia a uma grande cadeia de hipermercados que depois são comercializados como biológicos, como se a cloaca da galinha tivesse as bordas forradas a ouro, tal qual o trem de cozinha da Ideia Casa. Se o garoto fez um galo assim tão familiar, na volta ainda sai favorecido.

Teve alta com indicação para vigiar os sinais de alarme. Lá na aldeia, anda tudo a dizer que uma queda aos quatro anos pode ter consequências futuras. Arrisca-se a ficar com défices neurológicos e a única hipótese de se inserir na sociedade é sendo político. É que, com todo este azar e à boleia do nepotismo, sujeita-se a, um dia, ter a desventura de governar este bendito país.

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