Que somos um país do caraças, julgo não haver dúvidas. Tentamos primar pela originalidade mas, muitas vezes, só a conseguimos replicar. Correu um vídeo na internet de um comandante que levou militares e um canhão para um campo de golfe. Nesse vídeo vê-se um oficial general à civil, todo bem equipadinho para jogar golfe, junto de alguns civis enquanto os militares, bem fardadinhos para disparar canhões, explicam o funcionamento do canhão onde foi colocada uma munição que (imaginem só!) foi disparada por um civil. Não podemos ver a guerra do Golfo e temos logo de fazer a guerra do golfe. Decidam-se! É que se deixam as coisas quietas em Tancos e são roubadas, é um problema. Se andam com elas atrás para não serem roubadas, inclusive quando vão praticar desporto, um problema é.

O transtorno aqui não é o uso de material de guerra e de dinheiros públicos para fins particulares, nem saber em que termos decorreu o transporte da peça de artilharia, não. O problema aqui é considerarem o golfe um desporto. O conceito, em si, já é contranatura: usar um taco para meter umas bolas, quando a natureza foi desenhada para meter o taco e poupar as bolas. Já para não dizer que o objectivo do golfe é usar o menor número de tacadas e a natureza ensina-nos que quanto mais tacadas melhor.

Sorte tem o meu avô que nunca jogou golfe, mas assume que mandava umas tacadas (muitas, segundo ele), gozando da mais-valia de ser dos últimos da sua geração

Quem pratica desporto usa pouca roupa, prática e confortável, porque sabe que vai suar. No golfe, quanto mais a roupa se aparentar a uma saída à noite em Cascais, mais próximo estás da alta competição. Percorrem campos com a relva sempre toda aparadinha, como se tivessem apanhado uma promoção de laser na Clínica do Pêlo. Como isso os começou a cansar, decidiram inventar um carro eléctrico para nem essa parte do desporto praticarem. Ir jogar golfe e andar nesses carros é a mesma coisa que pagar a mensalidade do ginásio e gabar-se de não meter lá os pés. Os praticantes de golfe, não contentes com esta parca prática de desporto, decidiram que ganhava quem fizesse o menor número de tacadas; ou seja, ganha quem fizer menos.

Tudo isto só dá força à minha teoria de que os jogadores de golfe andavam cansados da exigência do desporto que escolheram (ou que os escolheu!). O jogo estava a ficar difícil e a exigir cada vez mais do desportista, obrigando-o a suar e isso é coisa de pobre. Como tal, decidiram contactar o exército para providenciar um canhão para o terreno de jogo com o intuito de, com meia dúzia de disparos, alargar os buracos do jogo para facilitar a entrada da bola, obrigando-os a dar menos tacadas e, consequentemente, cansarem-se menos a fazer desporto.

Sorte tem o meu avô que nunca jogou golfe, mas assume que mandava umas tacadas (muitas, segundo ele), gozando da mais-valia de ser dos últimos da sua geração, não tendo cá ninguém para refutar as suas histórias, fazendo-se apenas valer do seu estatuto de velho. Ultimamente diz que tem mandado menos tacadas (muito menos, aliás!) o que, segundo as regras do golfe, faz dele um campeão.

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