"Se não fizeres nada, não vais a lado nenhum". Uma vida inteira sob estas premissas, fez-nos acordar cedo e lutar por alguma coisa. Mesmo que não saibamos o quê. Temos o factor de risco de sermos portugueses e isso faz-nos gostar de competir com a inércia, cientes de que muitas vezes não levamos a melhor. Ora somos funcionários públicos e desculpamo-nos com o posto, ora somos alentejanos e desculpamos a nossa inactividade com a nossa naturalidade. O importante é que seja aceite pouco ou nada fazer.

O problema aqui é nunca ninguém se ter dignado a valorizar esta qualidade de estar vivo a meio passo da morte, até esta semana. Saiu uma notícia que constatava que os portugueses são os melhores do mundo a fazer de estátua. Artistas nacionais arrecadaram o prémio mais disputado do festival bienal "World Living Statues Festival" que decorreu na Holanda. No fundo, e resumindo esta informação que nos deixa a todos sem reacção, somos campeões do mundo de estátuas. O mundo reconheceu que somos bons a estar quietos, se bem que a Europa já nos tinha chamado à atenção em relação a isso. Mas ser o mundo a fazê-lo tem um impacto e uma responsabilidade diferentes. Inicialmente apeteceu-me sair de casa e ir festejar com a estátua do Marquês de Pombal ou camuflar-me, todo estático, no Padrão dos Descobrimentos. Optei por não o fazer, não por achar que poderia ser algo presunçoso da minha parte, mas porque isso envolveria esforço e mexer-me seria desrespeitar os campeões.

A notícia referia que, apesar das condições meteorológicas não terem ajudado à prática da modalidade, os portugueses venceram a competição. Questiono-me quais seriam as condições que impedem alguém de estar quieto. Assim de repente só me lembro do vento ou de uma tempestade no mar, que forçaria as gaivotas a vir para terra, incitando um bombardeamento pela cloaca. Nem quero imaginar a celebração estática depois de o grande prémio ter sido anunciado. Presumo que tenham ido com a comitiva dormir em grupo.

Custa-me a crer que haja pessoas que não liguem a esta nobre arte. Não deixa de ser irónico passarmos por estátuas e não lhes ligarmos. Por outro lado, se soubermos que está uma pessoa a imitar uma coisa que nunca quisemos reparar, paramos para apreciar o que, de outra forma, não quereríamos saber.

Depois de saber isto, a curiosidade obrigou-me a ir pesquisar o trabalho dos campeões do mundo. Dei comigo a ver um vídeo de 5 horas de nada e eu igual: nada fiz. Sem querer, estava a competir com os campeões. No mesmo instante que sentia um orgulho por isso estar a acontecer, comecei a não achar justo não ter sido eu a levar o prémio para casa. É que, sem preparação nenhuma, não me mexia bem melhor do que eles, o que me faz crer que o sistema está viciado. Vi o vídeo até ao último minuto e o que ganhei? Um arroz de trombas por ter adiado todas as actividades que tinha de desempenhar nesse dia. Ah, e uma sopa de gritos por ter faltado ao jantar de aniversário do meu tio. Tudo em prol da arte.

O meu avô, sem querer, não está longe do pódio e a cada dia que passa consegue aprimorar a arte, com aquele aspecto de entravado que o caracteriza. Quem o conhece até diz que, quando o coração parar, vai estar no ponto de se tornar um campeão.

Depois de saber tudo isto, estou empenhado em ter os mínimos olímpicos de pedra pomes. Agora tenho mesmo de me despedir porque vou dormir, perdão, treinar.

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