A insuficiência cardíaca (IC) afeta, atualmente, cerca de 400 mil portugueses e leva a cerca de 5 mil mortes por ano. Estes números devem preocupar-nos?

O número de 400 mil portugueses com IC vem do estudo EPICA, que já tem mais de 20 anos. Aguardemos os resultados do estudo PORTHOS, que nos dará um número atualizado ao último censo e em que foram utilizados critérios de diagnóstico da IC de acordo com as mais recentes recomendações europeias. De qualquer modo, e de acordo com o crescente envelhecimento da população portuguesa, serão sempre números preocupantes.

Quais são as estimativas do futuro em relação à prevalência desta doença?

A prevalência da IC no futuro terá um aumento significativo devido ao envelhecimento da população portuguesa, à maior sobrevivência do Enfarte de Miocárdio e ao progressivo desenvolvimento de novas terapêuticas da própria IC, que levam a uma maior sobrevida destes doentes.

Que doença é esta e quais são os principais fatores de risco?

A IC é uma doença grave e crónica, que ocorre quando o coração é incapaz de suprir as necessidades, de nutrientes e oxigénio, para que o organismo funcione normalmente. Pode ser devido ao coração não conseguir bombear o sangue na quantidade necessária ou à existência de alteração no relaxamento do coração, levando à acumulação de líquido nos pulmões e noutras partes do corpo, como nas pernas e no abdómen.

As causas mais frequentes da IC são a doença das artérias coronárias (lesão grave após Enfarte de Miocárdio/ataque cardíaco) e a Hipertensão arterial não controlada e de longa duração, que leva primeiro a uma hipertrofia do músculo do ventrículo esquerdo e que, posteriormente, se dilata com deficiente capacidade de contração.

Existem, ainda, outros fatores de risco, tais como: colesterol elevado, tabagismo, diabetes, obesidade, sedentarismo, alcoolismo, história familiar de doença cardíaca ou mutações genéticas.

Diz-se muitas vezes que é uma doença silenciosa. Porquê? Esse facto acarreta um risco acrescido?

É uma doença silenciosa porque pode evoluir lentamente, com sintomas que inicialmente se podem confundir com outras doenças, o que leva a que o doente só procure um médico numa fase mais avançada da doença. É frequente o diagnóstico de IC ser feito numa ida ao Serviço de Urgência Hospitalar. O atraso no diagnóstico implica também um atraso no início da terapêutica médica, com implicações na qualidade de vida e na sobrevivência.

Quais são os principais sintomas?

Os principais sintomas são fadiga; cansaço extremo; falta de ar (dificuldade em respirar); inchaço (edema) dos membros inferiores e abdómen; e taquicardia (pulso rápido).

Qual a importância do diagnóstico precoce?

O diagnóstico precoce da insuficiência cardíaca é crucial e, neste contexto, a realização de uma simples análise sanguínea (BNP/NT-proBNP) desempenha um papel importante para confirmação destes casos. Contudo, os médicos de família ainda não têm acesso à sua prescrição, apesar de a utilização deste biomarcador já ser recomendada há mais de 10 anos pelas guidelines da Sociedade Europeia de Cardiologia. Além disso, um estudo econométrico apontou para que a utilização do BNP/NT-proBNP possa gerar até 3 milhões de euros de poupança para o SNS caso possa ser disponibilizado aos Cuidados de Saúde Primários. Esperemos que a situação se altere no futuro, já que a sua não comparticipação poderá ser um dos motivos do diagnóstico tardio da IC em Portugal.

Qual é a relação da doença com a diabetes e quais são as complicações associadas para quem tem as duas patologias?

A IC é uma complicação frequente da diabetes, com uma prevalência até 22%, sendo 2-5 vezes mais frequente nos doentes com diabetes do que nos doentes sem diabetes. Pode desenvolver-se nos doentes diabéticos mesmo na ausência de outros fatores de risco para IC, como a hipertensão arterial ou doença coronária. É, portanto, uma complicação grave na população diabética.

Estima-se que o número de doentes com Insuficiência cardíaca venha a duplicar até 2030. Neste sentido, quais são as principais estratégias que podemos adotar para mitigar este aumento?

Essa estimativa também é baseada no estudo EPICA. A principal estratégia é a prevenção. Sabemos que as causas mais frequentes da IC são o Enfarte de miocárdio e a Hipertensão arterial, portanto a prevenção tem que ser através do controlo dos fatores de risco para estas patologias.

Que tipos de tratamentos existem?

A adoção de estilos de vida saudáveis, tal como a prevenção dos fatores de risco, são fundamentais. Atualmente, existem medicamentos que, além de melhorarem os sintomas de IC com uma melhor qualidade de vida, também modificam o prognóstico da doença, com maior sobrevivência. Além da medicação, alguns doentes com IC têm indicação para implantação de dispositivos cardíacos (pacemakers alguns com possibilidade de fazerem ressincronização e desfibrilhadores implantáveis) que também melhoram os sintomas e aumentam a sobrevivência dos doentes com IC.

Qual é o impacto económico desta doença para o país?

De acordo com estudos publicados, a IC tem um importante impacto económico atual, atingindo 2,6% do total das despesas públicas em saúde, em que os internamentos hospitalares contribuem em 39% desses gastos. A IC é uma das principais causas de internamento na população com mais de 65 anos de idade.

Para fazer face ao aumento estimado da prevalência da IC nos próximos anos, os responsáveis pelas políticas de saúde terão que estabelecer estratégias de prevenção, diagnóstico precoce da IC a ser efetuado nos Cuidados Primários e ao aumento do número de Clínicas de IC hospitalares com apoio de Hospital de Dia.

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