Os jovens estão a passar cada vez mais horas nos meios digitais? Que dados existem em Portugal?

Com o avanço tecnológico sobretudo dos últimos dez anos, tem-se verificado um consumo cada vez maior da população em geral, e consequentemente dos jovens também. O projeto EUKidsOnline tem feito precisamente esta verificação, constatando a cada vez maior penetração, sobretudo dos dispositivos móveis, nos contextos de casa e de escola nos últimos anos.

Quais os efeitos nas crianças e jovens destas horas a mais?

A Organização Mundial de Saúde tem-se manifestado cada vez mais preocupada com os efeitos físicos e psicológicos associados ao aumento da utilização dos meios digitais. Do ponto de vista físico, o sedentarismo com o respetivo risco de peso excessivo e problemas cardiovasculares; do ponto de vista psicológico, o desinvestimento em atividades alternativas e o aumento do conflito entre os indivíduos no seio familiar.

Existe um limite adequado?

A Organização Mundial de Saúde estipulou recomendações relativamente aos limites de tempo de utilização por faixa etária. Para crianças até aos 2 anos, não é recomendado qualquer tipo de tempo de ecrã. Entre os 2 e os 5 anos, o tempo não deve exceder uma hora e a criança deve estar sempre acompanhada por um adulto que serve de intermediário na sua atividade. A partir desta idade, o tempo de ecrã pode ir progressivamente aumentando até não mais do que duas horas por dia, tornando-se a criança/adolescente totalmente autónoma na sua interação digital.

Os meios digitais estão suficientemente regulados? Sabemos de casos de crianças e adolescentes que consomem conteúdos altamente nocivos, nomeadamente conteúdos relacionados com suicídio, e que acabam por culminar com desfechos fatais.

Em termos de limites de idades na perspetiva da adequação de conteúdos, tem-se verificado um esforço generalizado das indústrias associadas ao digital de protegerem os seus utilizadores. Apesar dos sites estarem mais protegidos em relação a conteúdos inapropriados para os utilizadores que os frequentam e as redes sociais estabelecerem limites de idade bem definidos, não existe legislação que regulamente a utilização do digital em Portugal, sendo bastante fácil contornar estas recomendações e aceder a conteúdos inapropriados para a idade.

João Nuno Faria, Psicólogo Clínico e parceiro da CAPITI - Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Infantil.
João Nuno Faria, Psicólogo Clínico e parceiro da CAPITI - Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Infantil

Qual é a média de horas que uma criança passa conectada ao mundo digital?

Uma pergunta difícil de responder, pois o tipo de utilização do digital faz variar muito o intervalo de tempo. Há contextos escolares que fazem um uso intensivo do digital enquanto ferramenta pedagógica. A escola virtual é uma ótima ferramenta de consolidação de conhecimentos e os dispositivos móveis possuem hoje em dia capacidades de apoio ao ensino extraordinárias. Porém, existe um conjunto de outras interações eletrónicas, que contribuem para o tempo total de utilização atual, podendo ascender até às 4-6 horas por dia.

Dia Mundial da Saúde Mental

Hoje, 10 de outubro, Dia Mundial da Saúde Mental, Lisboa recebe a sexta edição do leilão artístico solidário da CAPITI, Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Infantil, cujo valor reverterá na totalidade para a sua missão de apoiar crianças e jovens de famílias carenciadas com problemas do desenvolvimento e comportamento. Em prol da saúde mental infantil, vão ser leiloadas peças de 31 artistas contemporâneos, entre eles Ana Jotta, Maísa Champalimaud, Rui Sanchez e Pedro Calapez. O evento cultural solidário decorre no Museu da Eletricidade, entre as 12h00 e as 19h00, onde as obras vão estar expostas.

Como tem sido a evolução da dependência do digital?

Foi a partir dos anos 90 que o conceito começou a ganhar tração na comunidade científica e clínica. Porém, só a partir de 2013 (na tradição americana) e de 2018 (tradição europeia) é que a dependência digital (neste momento apenas associada à utilização nociva dos videojogos) se tornou uma realidade científica, tendo-se estabelecido como perturbação, no presente conhecida como “gaming disorder”.

Qual o papel dos pais e educadores no sentido de combaterem este problema?

A família em geral, mas os pais em particular, assumem um papel fundamental no desenvolvimento da criança e dos jovens. Por um lado, são modelos de comportamento, pelo que o comportamento digital realizado pelos pais, mais ou menos adequado, será muito provavelmente replicado pelos seus filhos; por outro lado, a supervisão parental desempenha um papel fundamental na prevenção do problema, estando aos dispor das famílias de hoje em dia, vários mecanismos eletrónicos (aplicações de controlo parental), bem como estratégias de regulação do comportamento que, se empregues adequadamente, permitirão às crianças e aos jovens usufruir das diversas propriedades positivas que a experiência com o digital (e em particular com os videojogos) tem para oferecer.

De que forma é possível prevenir ou controlar esta dependência?

A dependência dos videojogos instala-se depois de se ter criado um hábito inapropriado de utilização dos mesmos. A ferramenta mais eficaz em termos de prevenção é não deixar que se estabeleça esse hábito, sendo a interação do digital uma entre várias outras atividades ao dispor da criança e do jovem, e não funcionando como instrumento exclusivo de necessidades de prazer, relação com os outros e de competência. Ser um modelo adequado de interação digital e lidar com a experiência saudável desde cedo, respeitando tempos de utilização, será a forma mais eficaz de lidar com o problema antes que ele se instale.

Qual o impacto que a dependência digital pode ter no desenvolvimento de uma criança/jovem?​

Já estão cientificamente documentados os impactos negativos da dependência do digital nas crianças e jovens. Quer as consequências físicas (sedentarismo; aumento de peso; obesidade; problemas cardíacos; hábitos de sono desadequados), quer as consequências psicológicas (aborrecimento; conflituosidade; perda de rendimento; isolamento; ansiedade e depressão) impactam profundamente o desenvolvimento harmonioso das crianças e dos jovens.

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