Em 1991, António Coelho, de Coimbra, recebeu a confirmação de que uma deformação no seu polegar esquerdo era um tumor maligno.

Nesse momento, o engenheiro eletrotécnico deparou-se de frente com "uma certa finitude da vida". O horizonte encolheu-se e sentiu que à sua frente havia apenas uma parede, "de onde não ia passar". "Fui internado e, no caminho até à enfermaria, onde ia ser operado, tudo era escuro e estava a notar um fim à minha frente", conta à Lusa o sobrevivente de 61 anos, que vai relatar a sua experiência e as dificuldades que encontra no 2.º Congresso Nacional do Sobrevivente de Cancro, que decorre na sexta-feira e sábado, em Coimbra.

Assim que saiu do internamento, com o braço ao peito, pediu apenas à sua mulher para que fossem almoçar à Figueira da Foz, em frente ao mar, "para que os meus horizontes fossem aqueles". Desde então, procura que o horizonte que encontra seja "o grande e não o pequenino", ganhando com este caminho difícil um "apreciar diferente de todas as pequenas coisas".

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"Olhamos para a vida não com a intensidade da pressa, mas com calma, apreciando cada coisa", explica aquele que é um dos 350 mil sobreviventes de cancro em Portugal (estimativa da Liga Portuguesa Contra o Cancro).

Recidiva 20 anos depois

Vinte anos depois, António voltou a ter um tumor no mesmo polegar e optou pela amputação da falange. Três anos passados, foi-lhe diagnosticado cancro da próstata. "Outra vez? Outra vez, comigo?", questionou-se na altura, sublinhando que é importante encarar a doença "com frieza e pragmatismo e não fugir nem esconder".

No entanto, no meio do processo, há sempre um "certo sofrimento em silêncio e uma certa revolta interior". Pela deteção precoce, não teve de passar por tratamentos que envolvessem radioterapia ou quimioterapia. Porém, teve de optar pela remoção da próstata, devido ao seu historial clínico.

A remoção trouxe "consequências" para a vida em casal, mas procura-se outro equilíbrio "em coisas belas da vida", como por exemplo a sua neta, que lhe enche a casa "de bonecada".

"Vejo a vida como algo que devemos aproveitar, que devemos lutar ao máximo, não com bens materiais, mas com os amigos e com a família. Isso é o mais importante", sublinha Tiago Sales, que sobreviveu a um cancro com apenas 15 anos de idade.

Na altura, não entrou em pânico, nem nunca lhe passou pela cabeça "que fosse morrer". Em parte, essa postura deveu-se a não ter associado a palavra tumor a cancro - pensava que eram coisas distintas.

"Quando ouvimos falar em cancro, a reação é muito pior. Quando me apercebi que tinha um cancro, tive de mudar a minha postura", afirma o jovem de 23 anos, a viver em Penela, que enfrenta alguns problemas "a nível de memorização e concentração", que lhe complicam o dia-a-dia.

Todavia, "quem está nisto, tem de mostrar força e vontade", notou, sublinhando que os sobreviventes acabam por vestir "a pele de uma pessoa que é forte e capaz", mesmo quando atravessar um corredor pareça uma "maratona".

Olga Braz, da Guarda, pensou mais na sua mãe do que nela, quando soube que tinha um linfoma no pescoço depois de ter passado por um cancro da mama em 2000. Não queria preocupar a sua mãe, explica a professora aposentada.

"Nunca me questionei, porquê a mim. Punha-me diante do espelho e dizia ‘tu vais vencer’. Todos os dias de manhã: tu vais vencer, tu vais vencer, tu vais vencer".

No entanto, há também quebras, momentos em que "é preciso lavar a alma, em que é preciso chorar", explica.

Esses momentos são também uma forma de quebrar "a ansiedade, a angústia, o medo - porque há medo, há sempre medo", realça.

"A palavra cancro pesa. Ainda hoje, pesa bastante e a palavra morte está lado a lado", sublinha Olga, que, depois de sobreviver à doença por duas vezes, é hoje coordenadora regional do movimento Vencer e Viver, que apoia mulheres que passam por essa experiência.

A sobrevivente de cancro encontrou "horizontes diferentes" depois da doença: começou a escrever - algo que tinha sempre adiado -, passou a relativizar os seus problemas e aguçou a sua sensibilidade perante aquilo que a rodeia.

"Reparamos numa flor no jardim ou na pessoa que nos diz bom dia", conta Olga, que hoje, 16 anos depois do primeiro diagnóstico, encontra mais histórias de sucesso de luta contra uma doença que deverá afetar cada vez mais portugueses.

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