O fenómeno do envelhecimento da população, promovido pelo aumento da esperança média de vida e a baixa taxa de natalidade, representa um dos principais desafios demográficos e sociais da sociedade portuguesa. Se os portugueses estão atualmente a viver mais anos, é essencial garantir que experienciem a fase da velhice de forma saudável e ativa, satisfazendo as suas necessidades e potencializando as suas capacidades. Com este propósito de valorização, a Organização Mundial de Saúde definiu no início do presente século o conceito de envelhecimento ativo.

O envelhecimento ativo procura uma melhoria contínua da qualidade de vida à medida que as pessoas envelhecem, através de processos de otimização de oportunidades de saúde, participação e segurança. Durante várias décadas, este conceito definiu-se primariamente como um envelhecimento sem doenças, considerando mais tarde não só os indicadores de saúde, como os aspetos psicológicos, sociais e económicos. 

Enquanto principais aspetos do envelhecimento ativo, devem-se considerar três conceitos:

(1) a autonomia, enquanto capacidade percebida para gerir e tomar decisões pessoais sobre como viver no dia-a-dia, de acordo com as próprias regras e preferências;

(2) a independência, como a capacidade de desempenhar funções relacionadas com atividades de vida diária, isto é, viver de forma independente na comunidade com pouca ou nenhuma ajuda de outras pessoas;

(3) a qualidade de vida, no que toca à perceção de um indivíduo sobre a sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores em que vive, bem como em relação aos seus objetivos, expectativas e preocupações.

À medida que as pessoas envelhecem, a qualidade de vida é amplamente determinada pela capacidade em manter a autonomia, a independência e a expectativa de vida saudável, ou seja, o tempo que cada um espera viver sem limitações. Deve-se enfatizar que o envelhecimento não é um problema, mas sim parte integrante de um ciclo que deve ser vivido de forma saudável e autónoma o maior tempo possível, com base nos seguintes princípios:

1. Manter uma vida saudável

O primeiro passo para um envelhecimento ativo deve incluir abordagens que reduzam fatores de risco associados ao estilo de vida (por exemplo, tabagismo, hipertensão, obesidade, sedentarismo ou consumo excessivo de álcool), aumentando comportamentos saudáveis (por exemplo, alimentação saudável, atividade física, sono ou gestão de stresse). Dado existir, nesta fase de vida, um maior risco em contrair doenças crónicas e condições geriátricas (por exemplo, declínio cognitivo, manifestado por delirium ou síndromes demenciais), é crucial adotar comportamentos direcionados para melhoria da saúde e da qualidade de vida. Uma dieta saudável, incluindo o consumo de frutas e vegetais, pode reduzir a probabilidade de desenvolver doenças e melhorar a função física. Da mesma forma, a prática segura e adaptada de atividade física contribui no aumento de anos de vida de forma autónoma durante a terceira idade.

2. Manter uma vida socialmente ativa

As relações sociais são importantes para a saúde, independentemente da idade. Idosos com redes de apoio social integradas (incluindo família, amigos, vizinhos e grupos comunitários) apresentam comummente menores níveis de sintomatologia depressiva e maiores níveis de bem-estar relatado. Embora a influência das relações sociais na saúde mental seja observada em todas as faixas etárias, os idosos são particularmente vulneráveis a problemas de saúde mental resultantes do isolamento social, devido ao aumento do risco de incapacidade física e doença.

3. Estabelecer rotinas saudáveis

Pequenos hábitos e atividades quotidianas promovem um envelhecimento ativo e saudável. Ter uma rotina permite maior estrutura e fluxo natural face ao que vai acontecer durante o dia, contribuindo na redução dos níveis de stresse e ansiedade. Ter uma rotina significa realizar as mesmas atividades básicas à mesma hora todos os dias, tornando mais fácil garantir tarefas como a toma de medicamentos, refeições regulares ou ingestão adequada de líquidos. Neste sentido, será mais fácil lidar com eventuais dificuldades cognitivas (por exemplo, lapsos de memória), existindo uma rotina consistente e previsível.

4. Encontrar um sentido da vida

Com a reforma, existem várias razões para que o sentido da vida se possa dissipar, sobretudo após períodos com mudanças bruscas no estilo de vida, nas quais as pessoas podem não estar preparadas. Neste seguimento, o envelhecimento ativo pode ser alcançado através do envolvimento em novas atividades, projetos e objetivos, que proporcionem a sensação de significado para o idoso. Os benefícios associam-se a maiores níveis de felicidade subjetiva, preocupação com autocuidado e adoção de estilos de vida mais saudáveis. Adicionalmente, idosos com um maior sentimento de propósito estarão mais envolvidos nos seus projetos de vida, o que pode facilitar na preservação da sua função cognitiva e do bem-estar físico geral.

5. Manter uma atitude positiva

Adotar uma visão positiva em relação ao envelhecimento como parte normal da vida, juntamente com a manutenção de um estilo de vida saudável, torna-se essencial para um envelhecimento ativo. Independentemente da idade, ter uma atitude negativa poderá transformar qualquer experiência mais difícil de usufruir ou superar. O processo de manter uma atitude positiva, combinado com um sentimento positivo de si próprio/a, conservação de um estilo de vida ativo e envolvimento nos projetos de vida, pode ajudar a isolar as experiências negativas que ocorrem com a idade, para além de reduzir o risco de declínio cognitivo. Manter uma atitude positiva é também fundamental para suplantar adequadamente as alterações e limitações que o envelhecimento fisiológico gera.

As explicações são dos psicólogos clínicos Mauro Paulino e Rodrigo Dumas-Diniz.

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