A partir deste 4 de maio inicia-se um processo de “desconfinamento” progressivo, revisto e ampliado a cada 15 dias, face às regras de limitação à circulação, encerramento de atividades, que perduraram enquanto durou o estado de emergência em Portugal.

Um novo normal, com o risco inerente à presença do inimigo invisível, a COVID-19. Isto num quadro em que foi anunciada a reabertura, a 18 de maio, das atividades ligadas à restauração. Não será como antes. De momento, Governo e parceiros trabalham no documento final que determinará as condições obrigatórias para a reabertura dos restaurantes, para uma convivência segura. Um processo que envolve Direção-Geral da Saúde, Autoridade para as Condições de Trabalho, Autoridade de Segurança Alimentar e Económica e pelo Turismo de Portugal e que, na última semana, não esteve isento de polémica.

Face a notícia sobre a utilização de separadores de acrílico e medidores de temperatura nos estabelecimentos, a AHRESP (Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal), associação setorial, que apresentou ao Governo um “Guia de boas práticas” para a reabertura, afirmou publicamente ser contra as medidas referidas, pedindo “calma e ponderação”, na voz da secretária-geral, Ana Jacinto.

´Joshua Lederberg, laureado com um prémio Nobel de Medicina em 1958 dizia que não sabia qual o microrganismo que tinha começado a vida mas sabia qual iria terminar com ela: será um vírus`.

Independentemente das medidas que venham, ou não, a serem implementadas a partir de 18 de maio, temos como certo que higiene e segurança nas instalações estarão na linha da frente da defesa de clientes e colaboradores.

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“Esta situação da pandemia trouxe um conjunto de desafios que obriga a uma adaptação para garantir os princípios básicos da segurança alimentar. Ou seja, as regras de higiene de géneros alimentícios já eram muito claras e horizontais a qualquer interveniente do sistema alimentar”, refere ao SAPO Lifestyle Susete Estrela, engenheira alimentar, também auditora e consultora na área da restauração.

“Depois de ter lido as últimas atualizações e conversado com outros profissionais da área, dentro e fora de Portugal, a verdade é que o conceito que deixei escrito no meu livro [“Sabe o que anda a comer”, edição Arena], continua a aplicar-se, ou melhor, passa a ter ainda mais força - a responsabilidade deve ser partilhada”.

“Num mundo em que se diz que devemos produzir mais, devemos sim educar para evitar desperdício”
Susete Estrela a Engenheira Alimentar autora do livro "Sabe o que anda a comer?"

“As regras de higiene são muito rigorosas e anteriores à COVID-19. Esta pandemia veio reforçar a importância e o poder dos microrganismos. Vamos ter de aprender a coexistir com eles”, alerta.

A especialista alimentar recorda-nos quão delicada é a atual situação e como a atitude de todos os intervenientes deve ser considerada.

“Joshua Lederberg, laureado com um prémio Nobel de Medicina em 1958 dizia que não sabia qual o microrganismo que tinha começado a vida mas sabia qual iria terminar com ela: será um vírus”, enfatiza a especialista com experiencia profissional em Portugal e outros países da Europa, mas também no Médio-Oriente e na Ásia.

Uma responsabilidade que é de todos

“Nós consumidores/clientes não nos podemos divorciar da responsabilidade de nos mantermos à distância de segurança, de cumprir as regras básicas de higiene pessoal que têm vindo a ser divulgadas de forma exaustiva”, diz-nos Susete Estrela.

A engenheira alimentar acrescenta: “já os estabelecimentos estão agora a rever e refletir sobre como intensificar as rotinas e protocolos de higiene e limpeza já existentes. Estão a reforçar todos os princípios de higiene pessoal e higiene das instalações que já eram obrigatórias por lei, de modo a que se possa obter um produto seguro e a minimizar as possibilidades de contaminação do outro”. A este propósito, a autora explica-nos no seu blogue a diferença entre lavar e desinfectar.

As regras de higiene e de proteção social têm de ser escrupulosamente aplicadas dentro dos restaurantes: “como consumidores, devemos estar atentos para que tenhamos o cuidado de higienizar as mãos antes de tocar na porta de entrada do estabelecimento e antes de tocar numa ementa, por exemplo. Em contexto de formação, é hábito dizer-se que as mãos são as vassouras do corpo. Por isso, quanto melhor as higienizar, menos sujidade vou levar para a superfície seguinte”.

Como consumidores, devemos estar atentos para que tenhamos o cuidado de higienizar as mãos antes de tocar na porta de entrada do estabelecimento e antes de tocar numa ementa.

A esta prática basilar, Susete Estrela junta outras: “manter um elevado nível de higiene pessoal e reduzir o tempo de interação com os colaboradores e eles connosco também pode ser uma boa forma de contribuir para minimizar a exposição. Mantermo-nos o menor tempo possível nas zonas comuns ou áreas de espera, entrar com o maior nível de higiene possível e sair sempre, só e apenas, depois de lavar e secar bem as mãos”.

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Susete Estrela é Engenheira Alimentar e uma cidadã do mundo. Trabalha em diversas áreas do sector alimentar, em diferentes países.

Os pagamentos em contactless são uma boa opção, também devemos ter muita atenção ao botão do autoclismo, às torneiras, corrimãos, maçanetas e todos os locais onde todos tocam”.

Uma atitude proativa

A engenheira alimentar recorda-nos que “podemos e devemos ser um agente de saúde pública e alertar para situações incorretas como, por exemplo, ver alguém a usar um desinfetante em forma de spray nas áreas de exposição e venda de alimentos já confecionados. Não devem ser usados pelo perigo de contaminação química que representam. Ou seja, é preciso saber desinfetar”.

As regras de higiene são muito rigorosas e anteriores à COVID-19. Esta pandemia veio reforçar a importância e o poder dos microrganismos. Vamos ter de aprender a coexistir com eles

Ainda sobre o comportamento dos funcionários dos estabelecimentos de restauração, a especialista socorre-se do Regulamento Comunitário que no seu número 852/2004 [relativo à higiene dos géneros alimentícios] explicita que “qualquer pessoa que sofra ou seja portadora de uma doença facilmente transmissível através dos alimentos ou que esteja afetada, por exemplo, por feridas infetadas, infeções cutâneas inflamações ou diarreia será proibida de manipular géneros alimentícios e entrar em locais onde se manuseiem alimentos, seja a que título for, se houver probabilidades de contaminação direta ou indireta. Qualquer pessoa afetada deste modo e empregada no sector alimentar e que possa entrar em contacto com géneros alimentícios deverá informar imediatamente o operador do sector alimentar de tal doença ou sintomas e, se possível, das suas causas”.

Em jeito de conclusão Susete Estrela sublinha que “cabe-nos a nós aprender a lidar com as manhas e fraquezas do inimigo. Quando escrevi o livro [“Sabe o que anda a comer”] fi-lo com a intenção de deixar uma ferramenta de educação de fácil leitura e acessível a todos, ali ensino a lidar com micróbios. Mesmo que seja altamente improvável que o coronavírus seja transmissível através de alimentos ou embalagens alimentares, se aplicarmos as dicas que deixei no meu livro, estaremos mais bem preparados para ir às compras, ao restaurante. Inclusivamente, um dos capítulos no livro especifica ´como auditar em segundos o seu restaurante favorito` e a reduzir os contaminantes que trazemos para casa. Porque a única coisa que nos faz mal é a falta de conhecimento”.

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