Excessiva pressão dos pais origina dificuldades nas crianças

Os pais desempenham um papel fundamental no desenvolvimento e preparação dos filhos para a vida adulta. São eles que ensinam e servem de modelos para os mais novos. Com eles, os filhos aprendem a criar a sua identidade e a lidar com o mundo à sua volta.

Os pais tendem a exercer pressão e exigir dos seus filhos pensando que, deste modo, estarão a ensiná-los, para que se apliquem sempre em tudo o que fazem, na esperança que estejam preparados para todas as situações mais desafiantes. No contexto do desenvolvimento da criança, o modo como esta influência é exercida, pode ter consequências positivas e negativas.

Aqui salienta-se que os vários estudos disponíveis demonstram, de forma inequívoca, que a excessiva pressão parental tem efeitos bastante nefastos para o desenvolvimento da criança, sobretudo ao nível emocional. Frequentemente, um maior nível de exigência exercido pelos pais, na obtenção de bons resultados escolares, conduz a diversos problemas, tais como, elevados níveis de ansiedade, depressão, recusa escolar, fobias, baixa autoestima, irritabilidade, queixas físicas e desmotivação.

Além disso, há a salientar que as consequências para o jovem ou criança são não só ao nível emocional e social, mas também ao nível do seu sucesso escolar ou académico. Por isso, a excessiva pressão parental produz o efeito contrário ao desejado.

Sucesso académico como principal fonte de pressão

A pressão dos pais na obtenção de bons resultados escolares tem origem na perceção da sociedade em geral de que as classificações escolares são bons indicadores do desenvolvimento de crianças e jovens. Daí o sucesso escolar ser um dos temas mais investigados e trabalhados pela comunidade científica, de modo a identificar o que contribui e afeta o desenvolvimento e evolução académica nessas faixas etárias. Hoje sabe-se que fatores, tais como, a pré-educação, o ambiente escolar, ansiedade aos testes e o papel desempenhado pelos pais e familiares, afeta de alguma forma a evolução académica.

Consequentemente, é importante que os pais saibam identificar estes fatores, uma vez que, assim, poderão ajudar a evoluir mais favoravelmente os seus filhos. É claro que a presença e acompanhamento dos pais é muito importantes na vida de um filho, inclusivamente, o suporte dos pais é considerado essencial para o seu bom desenvolvimento, enquanto pessoa e profissional. No entanto, os pais nunca podem esquecer que a sua própria intervenção produz um efeito que pode ser contrário ao desejado. Os pais devem igualmente ser capazes de identificar os sinais de um envolvimento excessivo – têm que saber qual é a perceção dos seus filhos em todo este processo.

Quando as expectativas dos pais se tornam exigências ou projeções de si próprios

Muitos pais desejam que os seus filhos alcancem algo que eles próprios nunca foram capazes de almejar. Ou porque nunca tiveram essa oportunidade (por exemplo, devido a dificuldades económicas). Ou simplesmente porque tentaram um dia, mas não conseguiram (frequentemente, porque não conseguiram entrar no curso que desejavam, devido aos tais resultados escolares). Deste modo, repetidamente, os pais idealizam o futuro dos seus filhos, criando expectativas que são deles, mas não são os desejos dos seus filhos. São projeções de si próprios.

Diversos estudos mostram que as expectativas dos pais condicionam de algum modo o percurso académico dos seus filhos. Se por um lado, essas expectativas se revelam saudáveis, pois os filhos tentam corresponder e esforçam-se mais, por outro lado, quando passam a ser exigências dos pais, originam dificuldades e problemas ao nível emocional e escolar.

Nessas situações, os jovens sentem que os seus pais estão a impor-lhes ideologias que vão contra os seus próprios interesses; ou sentem-se frustrados quando não conseguem alcançar as expectativas que lhe estão a ser impostas – muitas crianças e jovens sentem que corresponder às expetativas dos seus pais é um sinal de aceitação parental, pelo que, ao não alcançarem essas expetativas, sentem-se rejeitados!

E quando os filhos já não são crianças?

Quando as crianças são pequenas não têm autonomia nem maturidade suficiente para perceberem o mundo envolvente. Como tal, desde cedo, os pais habituam-se a tomar decisões em tudo o que diz respeito aos seus filhos, por exemplo, as atividades em que participam, desde o tipo de atividades extracurriculares, ao desporto praticado, até ao tipo de interações sociais que são estabelecidas. Daí a dificuldade dos pais em mudarem o seu comportamento quando os seus filhos transitam para uma vida com maior autonomia e maturidade, em que os seus filhos já são capazes de formular as suas próprias idealizações. Os pais continuam a adotar o seu papel de decisores. E, geralmente, esse comportamento dos pais, é um dos elementos geradores de fortes conflitos entre ambos.

Dois tipos de controlo exercidos pelos pais

Importa salientar que o tipo de pressão exercida pelos pais depende do próprio comportamento adotado na sua relação com os filhos. Assim, é possível identificar dois tipos de controlo parental: o controlo comportamental e o controlo psicológico.

O primeiro refere-se ao controlo e monitorização do comportamento dos filhos, usando a disciplina para conseguir a consistência e adesão a certas regras e modos de agir dos seus filhos.

O segundo, o controlo psicológico, é feito a partir da manipulação da relação existente entre os pais e os filhos, por exemplo, através da atribuição de culpas, afeto negativo ou criticismo. Neste caso, as consequências no desenvolvimento da criança podem mesmo repercutir-se na sua vida adulta, contribuindo negativamente para a desorganização do pensamento e instabilidade emocional.

Qualquer que seja o tipo de pressão parental exercida pelos pais, caso seja praticada em excesso e usada como regra na educação dos filhos, comprometerá sempre o ganho de autonomia e de recursos, e afetará a sua vida adulta, que se deseja plena de realizações e ganhos pessoais.

Então, como conseguir o equilíbrio?

Acompanhar e apoiar os filhos de modo a que não se sintam demasiado pressionados é um desafio. A fronteira entre o necessário e o excessivo é ténue, mas o equilíbrio é possível! É importante que os pais imponham regras, no que toca à educação dos filhos, mas também é igualmente importante que respeitem as suas capacidades e ideias.

Para conseguir o equilíbrio, os pais devem focar-se nos seguintes pontos:

  • Perceber qual o papel e importância da educação nos planos de vida dos seus filhos;
  • Explicar a necessidade do trabalho e disciplina no alcance das metas estabelecidas;
  • Perceber as dificuldades e limitações dos seus filhos e ajudá-los a superá-las;
  • E apoiar incondicionalmente os seus filhos ao longo de todo o processo de aprendizagem.

Apesar de, por vezes, haver falta de disponibilidade dos pais, nunca podem esquecer-se da sua importância no desenvolvimento dos seus filhos. São eles que desempenham o papel principal, no estabelecimento de um ambiente emocional propício para a aquisição da autonomia, e com isto, conseguirem ultrapassar obstáculos de modo a alcançarem plena realização ao longo da sua vida.

No entanto, tal como foi referido anteriormente, este equilíbrio é ténue e, por vezes, difícil de se conseguir. Como tal, a ajuda de um técnico, para orientar o tipo de abordagem que os pais devem adotar junto dos seus filhos, poderá ser uma mais-valia, podendo ajudar no (re)estabelecimento de relações parentais mais próximas e produtivas.

Margarida Rogeiro / Psicóloga e Psicoterapeuta

© PsicoAjuda – Psicoterapia certa para si, Leiria

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