No entanto, para uma parte da população mais velha, ainda que cada vez mais tarde, este é um período de perda. Perda da independência, da autonomia, das pessoas mais próximas e, por vezes, do próprio lar. Por isso, a atribuição do estatuto de “velho” integra, não raras vezes, a perda irrecuperável da própria identidade.

Neste período de tamanha fragilidade, associado a sentimentos de desesperança, inutilidade e impotência, a família e a casa adquirem um papel particularmente importante. Abandonar a casa, onde a pessoa habitou durante anos e construiu toda a sua vida, pode ser um evento traumático. Como resultado de mudanças nos valores e tradições referentes às dinâmicas familiares, à existência de conflitos ou à migração dos cuidadores para zonas urbanas, existe, pelo que parece, um maior recurso à institucionalização das pessoas idosas.

A decisão de permanecer com a família, viver sozinho ou recorrer a uma instituição depende de fatores como o estado de saúde e poder económico do idoso e da sua respetiva família, a rede de suporte social, a disponibilidade emocional e temporal dos cuidadores e os próprios valores da sociedade em que a família está inserida.

Tendencialmente, o processo de tomada de decisão é difícil para os envolvidos. No entanto, existem situações em que os idosos não são institucionalizados, mas sim abandonados. Inclusivamente, abandonados no silêncio das suas próprias casas, quando os filhos migram e/ou perdem totalmente o contacto com os pais. Em outras situações, estes podem ser abandonados em hospitais.

Por abandono, entende-se o ato do cuidador negar ou ignorar as suas responsabilidades perante a pessoa idosa, a qual é totalmente vetada à solidão. Podem ainda existir casos de abuso, em que o cuidador tem um papel ativo em causar danos ao idoso (por exemplo, agressão física) ou casos de negligência, em que o cuidador tem um papel passivo, associado à insensibilidade, ausência de empatia, desvalorização do idoso e falhas nos cuidados prestados.

A negligência pode ser física (por exemplo, não alimentar o idoso ou ajudar nas tarefas de higiene), económica (por exemplo, gerir o dinheiro sem considerar as necessidades do idoso) e emocional (por exemplo, interações reduzidas, infantilização, desprezo). Não é de espantar que em situação de negligência, as pessoas idosas tendem a recorrer, aparentemente de forma voluntária, à institucionalização. Porém, a decisão pode não ser originada pelo desejo real de integrar uma instituição, mas pela intenção de não sobrecarregar os familiares (“Sou um fardo para a minha família”). O sofrimento é tão pesado, que as pessoas prescindem da sua própria casa.

Independentemente do abandono, ou seja, se o idoso se encontra numa instituição, no silêncio da sua própria casa ou junto de familiares que o menosprezam, são vivenciados sentimentos de rejeição, desprezo e solidão, os quais impactam a autoestima dos idosos e facilitam o desenvolvimento de patologia.

Idosos institucionalizados ou sem contacto com os cuidadores apresentam riscos mais elevados de depressão, ansiedade, perturbações do sono, doenças somáticas e ideação suicida. Apesar de tabu, o suicídio encontra-se presente na população idosa. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), no ano de 2017, ocorreram 1061 mortes devido a lesões autoprovocadas intencionalmente ou por sequelas, sendo que cerca de 40% dos óbitos corresponderam a pessoas com mais de 65 anos e cerca de 23% a pessoas com mais de 75 anos.

Este risco é resultado da perda de interesse, isolamento, sentimentos de impotência perante a situação vivida e sentimentos de traição e ingratidão pela atitude daqueles que seriam os cuidadores (“Depois de tudo o que fiz pelo meu filho para ele ter uma vida melhor, ele abandona-me!”). Os idosos podem ainda vivenciar sentimentos de culpa e falha (“O que é que eu fiz para merecer isto? Pensava que tinha sido um bom pai/mãe...”) e sentir que contribuíram para a condição de abandono.

É importante referir que o suporte social dos restantes idosos, por vezes, em situações semelhantes, bem como dos profissionais das instituições ajuda a mitigar a solidão vivenciada e facilita o alcançar de algum bem-estar. Por vezes, a instituição pode tornar-se a família do idoso, pelo também aqui os cenários de maus-tratos devem ser prevenidos. O mesmo se aplica aos vizinhos e amigos, nos meios rurais.

Apesar do trauma associado ao abandono, o amor parental prevalece. Numa investigação com idosos que foram literalmente abandonados pelos filhos, quando questionados acerca do que gostariam de comunicar-lhes, foi apenas reforçado o quanto desejam que estes sejam felizes e que possuam vidas de sucesso.

Naturalmente que nem todas as pessoas idosas institucionalizadas são abandonadas, existindo famílias que desempenham um papel ativo na manutenção do bem-estar dos idosos, com as visitas, chamadas telefónicas, celebrações em dias importantes e diálogo com os profissionais. Por vezes, a vida sobrecarregada dos descendentes exige que a institucionalização seja o único recurso disponível que assegura a segurança e bem-estar da pessoa idosa.

As explicações são de Mauro Paulino e Sofia Gabriel, da MIND – Psicologia Clínica e Forense.

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