Educar as crianças do sexo masculino sem estereótipos de género deve ser uma prioridade dos pais? Em vários países do mundo, têm sido muitos os especialistas a levantar publicamente esta questão. Se educar crianças já tem que se lhe diga, educar rapazes sem cair nas armadilhas dos estereótipos de género ainda mais. E a resposta parece afinal ser simples. Educando-os como seres humanos, mesmo nesta era da tecnologia!

Nos dias que correm, os tablets, o smartphones e os computadores são quase como uma extensão do corpo. As horas passadas fechados no quarto não são contabilizáveis e as relações sociais, incluindo os namoros, são relegadas para segundo plano. Este é o retrato levado ao extremo da geração nascida entre 1995 e 2012, que muitos especialistas batizaram como iGeneration, a geração dos iPhones e do eu.

O que fazer para tornar as suas crianças mais criativas
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A conceituada psicóloga norte-americana Jean M. Twenge, autora do livro "iGen – Why today super-connected kids are growing up less rebelious, more tolerant, less happy and completely unprepared for adulthood", "iGen - Porque é que os miúdos demasiado ligados estão a crescer menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes e totalmente impreparados para a vida adulta" em tradução literal, publicado pela editora Atria Books, defende mesmo que se trata de uma geração à beira de uma crise mental que terá (forçosamente) repercussões no futuro, como anteveem outros especialistas.

Se ao isolamento agravado pela tecnologia, comum a ambos os sexos, juntarmos o menor abandono escolar por parte das raparigas, um maior sucesso académico feminino e uma maior prevalência de problemas como a hiperatividade e défice de atenção entre os rapazes, o resultado pode muito bem ser uma geração de rapazes e homens jovens com dificuldades de relacionamento com o sexo oposto, antecipam muitos.

"São situações que podem trazer mais isolamento, que é acompanhado pela existência de menores competências emocionais e sociais treinadas, o que por sua vez conduz a uma menor capacidade e à vontade para se relacionar com pessoas, sobretudo do género oposto", afirma Filipa Jardim da Silva. Na sua prática clínica, tem observado uma maior dificuldade em relacionar-se com o sexo oposto em rapazes e jovens adultos.

"Nas faculdades de engenharia, temos essa realidade", refere a psicóloga. "O excesso de tecnologia faz como que o tempo extra-escola seja muito isolado. E isto pode, realmente, levar a uma maior dificuldade em lidar com o sexo oposto", sublinha. É a situação em si e não o género que conduz ao bloqueio. "Se pusermos uma rapariga na mesma situação, acontece mais ou menos a mesma coisa", acrescenta ainda a especialista.

"Também já tive situações de raparigas que estiveram em colégios internos femininos e, que, depois, ao chegar ao ensino secundário misto, tinham muitas dificuldades em lidar com os rapazes", conta. Essencial para prevenir dificuldades de relacionamento futuras é que, desde a mais tenra infância, haja uma aprendizagem de convivência com o género oposto, com espaço para a observação e para a desmistificação dos sexos.

O isolamento é o desafio da era digital

As consequência destas novas realidades ainda são imprevisíveis mas muitos não têm dúvidas. O isolamento é o desafio da era digital. Para Filipa Jardim da Silva, a era da tecnologia traz desafios que também já existiram noutras gerações, de outras formas. "A realidade é igual para ambos os géneros e para todas as gerações. Educar carece de um acompanhamento e de uma presença", ressalva a psicóloga portuguesa.

E, hoje, o que acontece muitas vezes é que a tecnologia serve de educador. Basta observar em nosso redor para o comprovar. "Quando o computador, o telemóvel, o tablet servem de ama, estão lá para distrair, é claro que estamos a criar uma criança mais alienada, mais desligada das relações com os outros, com menos competências sociais. No que diz respeito aos rapazes, de uma forma mais particular", garante Filipa Jardim da Silva.

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Para a psicóloga, é essencial que os adultos tenham um papel ativo nesta fase de desenvolvimento dos mais novos. "Se não supervisionamos o acesso às tecnologias, a criança vai navegar livremente e vai explorar conteúdos que podem criar uma estimulação exagerada, a qual pode conduzir a um desenvolvimento menos positivo", diz.

"No caso dos rapazes, quando crianças muito jovens acabam por aceder a conteúdos pornográficos, podem começar a criar uma conceção das relações e da própria sexualidade muito adulterada", exemplifica ainda Filipa Jardim da Silva.

"Se não houver um adulto para ajudar a legendar e a narrar de forma construtiva o que está a ver e ouvir, é a criança, em função dos recursos cognitivos que tem, que vai criar a sua própria legenda. E isso faz com que leve a criar legendas menos corretas e que, em certos casos, vão influenciar o modo de se relacionar com o sexo oposto", alerta a também autora do livro "Dar a volta - 66 dias para construir uma vida com propósito".

O imperativo de brincar com tudo e de brincar sempre

Mas, antes de avançar, voltemos atrás, ao início da definição de género, atualmente muito em voga. É aproximadamente entre os dois e os cinco anos que as crianças criam a sua identidade de género. "É uma identidade socialmente construída, aprendida desde o nascimento com base no que as outras pessoas vão dizendo, nas brincadeiras que vão introduzindo, na forma como vão tratando, também na observação", sublinha a especialista.

"E é das interações, observações e inter-relações que vão estabelecendo que se dá esta construção de identidade", afirma ainda a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva. Ao longo do processo não é uma coisa vincada. "Nesta fase, por vezes, a criança pode olhar para um menino vestido de menina e achar que é uma menina ou, nalguns momentos, interrogar-se se é menino ou menina, como por vezes tende a suceder", explica.

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"Para uma criança, brincar é brincar, não importa se é com carrinhos ou bonecas. É uma mais-valia que as brincadeiras possam ser muito transversais e abertas. É um convite à autonomia. A criança é uma pessoa e assim estamos a olhar para ela e dar-lhe a possibilidade de escolher, independentemente de ser menino ou menina", afirma Filipa Jardim da Silva. À medida que se dá a construção da identidade, é natural que rapazes e raparigas comecem a querer brincar mais com elementos do mesmo género e a demonstrar preferência por algumas brincadeiras de forma espontânea.

"Há meninos que, aos 5 ou 6 anos, têm plena consciência de que são meninos e que gostam de cozinhar e brincar às cozinhas e outros, que ao verem a mãe a tratar dos irmãos mais novos, afirmam que querem ser mães. E isso não tem nada de desviante, de perturbador ou de estranho. É muito relevante que os educadores, os pais, as famílias e os profissionais das creches e das escolas estimulem as crianças nesse sentido", diz.

"Devem incentivá-los, desde cedo, a aprender a brincar sem colocar rótulos nas brincadeiras, para que estas sejam livres e construtivas", sublinha a psicóloga, autora de "Dar a volta - 66 dias para construir uma vida com propósito". Para a especialista, é importante que os adultos olhem para a construção da identidade de género de uma forma dinâmica e, sobretudo, baseiem a educação em premissas de humanidade.

"Quando nos baseamos em valores mais transversais, de respeito, de liberdade, de autonomia, estamos a combater estereótipos de género porque estamos, verdadeiramente, a centrar-nos no que é um cidadão ativo, integrado, uma pessoa que vai poder ter um papel construtivo na sociedade e não tanto uma educação baseada no género, do que é um bom rapaz ou uma boa rapariga", adverte mesmo Filipa Jardim da Silva.

Quanto mais cedo forem fomentadas brincadeiras em que há tempo para estar com pares de diferentes idades e géneros e também com adultos, melhor", refere. Frases como "um homem não chora" ou "pareces uma menina", que ainda hoje continuam a ser muito utilizadas, são tóxicas. Muitas destas afirmações são mesmo reproduzidas em conteúdos televisivos, uma situação que muitos profissionais desaprovam.

"Os rapazes que crescem com este tipo de educação vão ser adultos que não choram quando têm vontade e que vão dizer o oposto do que sentem por não ser de homem, o que por vezes leva a grandes desencontros relacionais", condena Filipa Jardim da Silva. O que é aprendido numa primeira infância dificilmente é questionado na adolescência ou na vida adulta, "já que ganha estatuto de verdades inquestionável", adverte ainda.

Texto: Susana Torrão

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