Nos anos da década de 1930, quando frequentava o equivalente à atual escola primária, a professora da ex-bailarina Gillian Lynne escreveu aos seus pais a dizer que suspeitava que a sua filha tinha um défice de aprendizagem. A criança tinha dificuldade em concentrar-se, perturbava os colegas, não fazia os trabalhos de casa e era irrequieta. Então, a sua mãe levou-a a um especialista para confirmar o diagnóstico da escola.

Terminada a consulta, o médico pediu à menina que esperasse no escritório enquanto falava com a sua mãe em privado. Deixou o rádio ligado e fechou a porta. Através de uma janela, observaram como Gillian Lynne começou logo a dançar ao ritmo da música. O especialista disse à mãe da pequena que ela não estava doente. Era uma bailarina! E recomendou que a inscrevesse numa escola de dança.

"Entrámos numa sala que estava cheia de pessoas como eu. Pessoas que precisavam de se mover para pensar", contou Gillian Lynne, que a 20 de fevereiro de 2018 completou 92 anos, numa entrevista, em 2006. Aos 89 anos, ainda trabalhava com Andrew Lloyd Weber, sendo responsável pelas coreografias de alguns dos musicais mais vistos em todo o mundo, como "Cats" e "O fantasma da ópera".

"A criatividade é algo que combina genes, com ambiente e relações com os outros. Isso faz com que cada pessoa tenha uma configuração única de neurónios e conexões entre os mesmos", explica Clementina Almeida, psicóloga e diretora do projeto ForBabies, uma clínica especializada em bebés que presta um conjunto de serviços que promovem o desenvolvimento físico e mental dos bebés.

E a criatividade é uma capacidade que pode ser aplicada em diversas áreas, não estando restringida às artes, além de que, segundo a psicóloga,"proporciona um leque de benefícios intelectuais, emocionais e até mesmo físicos". Contudo, não devemos pensar que, por ser inata, mantemos o mesmo grau de criatividade a vida toda. À medida que os anos vão passando, muita coisa vai mudando.

Como promover e estimular a criatividade

De pequenino é que se puxa pelo menino ou pela menina, consoante o caso. "Se a pessoa passar a infância sem fazer algo, perde-se", ressalva Sara Antunes, arquiteta e artista plástica que já deu aulas ao primeiro e segundo ciclo. Sir Ken Robinson, autor que em tempos entrevistou Gillian Lynne, diz que fomos educados para irmos perdendo a criatividade.

 Clementina Almeida concorda. "Há estudos que provam que a criatividade das crianças tem vindo a diminuir nas últimas décadas", sublinha. "As crianças têm vindo a tornar-se menos expressivas emocionalmente, menos faladoras, menos engraçadas, com menos imaginação, perdendo a capacidade para ver a realidade de diferentes ângulos", acrescenta ainda a especialista.

O medo de errar

Tradicionalmente, as crianças arriscam, experimentam, porque não têm receio que lhes apontem o dedo por uma falha ou um erro qualquer. Precisamente aquilo que impede os adultos de tentarem algo novo. Porém, Sir Ken Robinson sublinha que "se não estivermos preparados para errar, nunca conseguiremos nada de original". Isto é um problema, porque, do ponto de vista deste autor, a criatividade é nada mais do que o "processo de gerar ideias originais e com valor".

Um processo "que surge através da interação de diferentes formas de ver as coisas", como faz questão de sublinhar. Logo, implica que o indivíduo se exponha, que revele as suas ideias. Já dizia Pablo Picasso, artista espanhol que viveu no século XX e que foi pintor, escultor, ceramista, desenhador de palcos e poeta, que "todas as crianças nascem artistas, a dificuldade está em continuar a sê-lo quando crescem".

A relativa importância das matérias

A arquiteta Sara Antunes afirma que, em Portugal, vigora uma hierarquização das disciplinas curriculares. "A parte mais criativa, que tem a ver com as expressões artísticas, é pouco valorizada", considera. "Acho que é um ensino muito limitativo em termos criativos. As escolas deviam dar menos coisas para decorar", refere ainda. Só pode haver criatividade quando houver liberdade.

Clementina Almeida acrescenta que nem os pais nem a escola deviam distinguir entre "disciplinas de primeira como o português e a matemática e de segunda como a música e a expressão plástica", como muitas vezes sucede. Essa tendência irá continuar se não mudarmos o sistema educativo e a mentalidade vigente, de tal modo enraizada que também afeta a forma como vemos as artes.

"A pintura e a música têm, normalmente, mais importância nas escolas do que o teatro e a dança. Penso que a matemática é muito importante, mas a dança também o é", comenta também Sir Ken Robinson. Através da dança as crianças aprendem a expressar os seus sentimentos e divertem-se. Um relatório recente da Unicef também defende que "a família deve estimular a criança a criar  e valorizar o que ela faz".