Passava pouco das 14:00 quando um grupo de alunos da Escola Básica 2,3 Professor Delfim Santos, em Lisboa, chegou à praia de Algés, mas o plano não era ficarem durante muito tempo. Aquele não era dia para ir a banhos, o objetivo era outro, era limpar a praia.

Munidos de luvas e pinças, os 16 alunos dos 5.º e 6.º anos puseram mãos à obra e, durante meia hora, vasculharam o areal. No final, regressaram para perto da professora carregando vários sacos com resíduos que, de outra forma, acabariam no oceano.

“Apanhei muitas beatas, esferovite, esponjas, muito plástico, garrafas de vidro e até um batom”, descreveu Nicole, com um misto de desilusão por ter encontrado tanta coisa e satisfação por ter contribuído para deixar a praia mais limpa.

Foi o projeto “Brigada #AMARoMar” que os levou à praia naquele dia, uma iniciativa do programa Eco-Escolas que desafia os mais novos a recolher resíduos na praia, que depois serão analisados e reciclados na escola.

Entre jardins-de-infância, colégios, escolas e até universidades e politécnicos, estão envolvidos na “Brigada #AMARoMar” 151 estabelecimentos. Do ensino público são pouco mais de uma centena, menos de 2% das mais de cinco mil escolas do país.

A Delfim Santos é uma delas, mas a única do agrupamento. “É uma coisa que dá trabalho e os professores não ganham nada com isso”, lamentou a professora Natália Almeida, considerando que, em muitas escolas, os colegas “não estão para se chatear”.

Professora há mais de 40 anos, Natália Almeida já poderia ter-se aposentado este ano, mas diz que não o fez por não ter a quem deixar os vários projetos do Eco-Escolas que dinamiza e coordena na escola, agora com a ajuda de outra docente da escola e de Madalena Carvalho, do centro de atividades Level Up.

Na disciplina que leciona, Ciências Naturais, os temas relacionados com a proteção dos oceanos são pouco discutidos até os alunos chegarem ao 3.º ciclo.

“Somos nós que incentivamos os alunos a irem mais além”, disse a professora para justificar a importância de iniciativas extracurriculares dedicadas ao ambiente e à sustentabilidade para colmatar aquilo que considera serem falhas no currículo, sobretudo nos primeiros anos de escolaridade.

“A sensibilização para estes temas deveria começar logo no 1.º ciclo e ser reforçada no 2.º ciclo, é aí que está a nata”, sublinhou.

Com a atenção novamente voltada para os alunos, Natália Almeida foi tirando fotografias para documentar a atividade, enquanto tentava controlar o entusiasmo dos alunos que, se a professora deixasse, até molhavam os pés para tirar da água os resíduos que as ondas tentavam roubar à beira-mar.

“Todas as escolas deviam ter projetos destes, porque incentivava outras pessoas a não poluir tanto e ajudávamos todos o ambiente”, disse Flora, 11 anos, no final da atividade.

Ao lado, a colega Sofia, 10 anos, acrescentou que todos deveriam seguir o exemplo do grupo e recolher o lixo que vissem na praia, e deixou um alerta aos adultos: “Acho que as pessoas não se importam e se nós continuarmos a deixar o mar assim, cada vez que viermos à praia vai estar mais suja e vai ser mais desagradável”.

Antes do trabalho de campo, os alunos aprenderam sobre a problemática dos resíduos e do lixo no mar, as causas e consequências desse problema. O próximo passo, que vai envolver os cerca de 50 alunos da escola que participam na brigada, será analisar os resíduos recolhidos, debater os resultados, divulgar o projeto na comunidade, com um concurso nacional no final.

Já de sacos cheios, os alunos preparam-se para regressar à escola, mas antes de entrarem no autocarro, disponibilizado pela autarquia, enchem um último saco com as luvas que utilizaram para apanhar o lixo. Nada fica para trás.

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