Uma informação incompleta quase sempre induz em erro. É o que acontece regularmente no campo do sono do bebé e este é um exemplo claro disso. É muito comum ouvir-se que “não se deve acordar um bebé que dorme”. Concordo com esta afirmação, mas apenas no que respeita ao período da noite.

 

É verdade que não se deve acordar um bebé recém-nascido durante o dia, e com um intervalo máximo de 4 horas durante a noite, assim como em situações de baixo peso ao nascimento e de prematuridade. Porém, esta situação não deve ser estendida a todo o universo dos bebés, especialmente quando se trata de dar oportunidade de regular os seus ritmos, o que é muito importante para o seu bem-estar geral, e claro para o ensinar a dormir.

 

É relevante saber (e a maior parte dos Pais espanta-se quando lhes digo) que os bebés gostam de ser acordados pelos Pais – que, atentos e previdentes, têm já a sua refeição pronta, mais do que gostam de acordar por si, muitas vezes, já no extremo do desconforto físico provocado pela fome (devo aqui reforçar que esta situação se refere apenas ao período do dia).


A partir de certo peso e tempo de vida, acordar um bebé é tão importante como ensiná-lo a dormir. É comum associar a capacidade dos bebés regularem os sonos com o seu temperamento, uma competência ou um dom com o qual nascem ou não, ou então como um problema que se resolve, porventura, com o tempo. No fundo, a crença geral de que é algo que provém da sorte e que dita o sucesso do seu descanso, esperando-se injustamente que o bebé percorra este caminho sozinho. No entanto, é aos pais que compete ensinar o bebé a dormir e, para tal, é fundamental orientá-lo na regulação dos seus ritmos de sono, pois eles não sabem fazê-lo por si. Como? Com diversas medidas, entre elas, acordando-o durante o dia quando é necessário! É certo que existem bebés que começam bem no campo do sono, no entanto, caso não se vá consolidando os bons hábitos e uma adequada sincronização de ritmos de alimentação, atividade e sono, facilmente poderá perder essa aptidão.

 

O relógio biológico do bebé, a partir do momento em que nasce, vai sendo programado progressivamente através das vivências e dos hábitos diários. O ritmo de sono pode e deve estabelecer-se precocemente e caso os pais não compreendam que podem fazê-lo desde cedo, tenderão a seguir o ritmo errático (porque inexperiente) do bebé, esperando dele a sua autorregulação e incutindo-lhe uma “autorresponsabilização” para as quais naturalmente não está preparado. Se, muitas vezes, uma criança de 3 anos não sabe reconhecer a fome e o sono atempadamente, como se pode esperar de um bebé, com tão pouca experiência de vida, que saiba qual o melhor momento para comer ou dormir antes mesmo de chegar ao extremo do desconforto provocado pela fome ou pelo cansaço?


Alimentar um bebé durante o dia quando já está cheio de fome, ou pô-lo a dormir quando já está muito cansado, nunca é a melhor altura para o fazer. No caso da alimentação,  mediante uma resposta exclusivamente reativa, o bebé estará predisposto a mamar pior, mais sôfrego, mais propenso a engolir ar e, consequentemente a desenvolver cólicas. No caso do sono, o bebé terá mais dificuldade em acalmar-se (condição fundamental para poder adormecer), pois, já exausto e na eminência de entrar numa espiral de choro, tem tendência a descontrolar-se e, como tal, já só adormecerá de forma induzida (sendo tipicamente aqui que se iniciam os maus hábitos para dormir).

Durante o dia é obviamente muito importante para o bebé dormir, no entanto, sestas que se estendam por mais de 3 horas acabam por atrasar refeições e é certo que o bebé procurará repor a quantidade suprimida, despertando quando não o deveria fazer - no período da noite.

 

O tempo que um bebé consegue ficar acordado entre períodos de sono é limitado e variável de acordo com o seu peso e a sua idade, sendo que o mesmo se aplica ao intervalo de tempo entre refeições. Não acordar um bebé que dorme há mais de 2,5 horas seguidas (e reforço que aqui se excluem os recém-nascidos, os prematuros, os bebés com baixo peso à nascença e os que têm mais de 12 meses, que poderão fazer apenas uma sesta diurna, com a duração máxima de 3 horas), aguardando que este acorde por si, significa permitir que tal aconteça já no limite da sua capacidade de estar sem comer. Ao final do dia, dará provas do seu desconforto e a tarefa de ensinar a dormir ou simplesmente conseguir que o bebé adormeça num horário compatível com as suas necessidades de sono, ficarão seriamente comprometidas.


Os bebés cujos pais seguem o seu ritmo de forma reativa (respondendo por reação de forma padronizada), são bebés tendencialmente mais “chorões”, que aprenderam a usar o choro como primeiro recurso e que estão predispostos a dormir menos. Um bebé que chora com fome já deveria estar a comer, um bebé que chora de cansaço, já deveria estar a dormir.

 

A melhor forma de evitar que as necessidades do bebé venham a ser atendidas no seu limite é orientá-lo segundo uma rotina diurna ajustada ao seu peso e idade. Mais especificamente em relação ao sono, um bebé terá melhores oportunidades de encaixar a distribuição/duração do sono, durante o dia e a noite, se for orientado. Mas orientar um bebé implica, sempre que for necessário, acordá-lo.

 

Assim, ensinar um bebé a dormir, só é possível através de uma rotina diária, que sirva as suas necessidades reais mesmo antes que as sinta de forma manifesta; esta rotina serve para o ajudar a regular-se nas 24 horas e, desta forma, contribuir para um melhor aprendizagem dos padrões do dia e da noite.


Fica assim claro que sem um ritmo ajustado de alimentação, sono e atividade durante o dia, é muito provável que a desregulação se venha a manifestar ao fim do dia e durante a noite.

 

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Carolina Nogueira Albino
Especialista em Ritmos de Sono do Bebé