Ensinar a dormir é um investimento de tempo e dedicação que dá trabalho (não é novidade: orientar e educar um filho dá trabalho!). Mas os frutos são de um alcance visível, altamente recompensador, e provado em diversos estudos tanto para o desenvolvimento e bem estar excelente do bebé como imediatamente para todo o conjunto da experiência Parental.

 

Algumas vezes, sou deparada com a “surpresa”! “ Ah… achei que por estar certo era mais rápido”. Ao ser confirmado que para alcançar qualquer conquista mais sólida com o bebé, no sono ou fora dele, raramente se trata de um evento mágico e imediato, mas sim de um caminho a percorrer tal como qualquer conquista que envolva processo de aprendizagem e hábitos.

 

Há benefícios de começar cedo. O bebé está a aprender praticamente tudo, aprender a viver e esta aprendizagem é mais uma necessária. Comparando o tempo que uma criança está apta a aprender a andar, sensivelmente aos 12 meses, a aprendizagem afeta ao sono é alcançada realmente rápido, no entanto, precisa consolidação, conta com desafios físicos, cognitivos e emocionais normais ao longo do desenvolvimento - isto senão se contar já com hábitos indesejados a resolver no caminho! - o sono tem “costas largas”, mas num bebé saudável, tem variáveis mais facilmente controláveis, comparativamente a uma criança ou jovem.

 

Adormecer um bebé de forma induzida é um evento mais imediato. Verdade! Mas é também uma solução de curto prazo, que tende a médio longo prazo, dar cada vez mais trabalho aos Pais e menos autonomia, autoconfiança e noção de segurança aos filhos. No que toca à qualidade, duração, distribuição e continuidade do sono, esta solução de curto prazo é comprometedora do sono - tem “perna curta”- é uma das grandes causas do mau/pouco sono dos bebés.

Mas ensinar a dormir, envolve muito mais do que articular apenas medidas no momento exclusivo de ir dormir, tal como seria apenas ao se induzir o adormecer do bebé.

 

Ensinar a dormir, no seu momento exclusivo de ir dormir, pressupõe de forma muito redutora, deitar o bebé antes de estar a dormir, ou parar de acalmar o bebé antes de ele estar a dormir, para poder conciliar o sono de forma independente! Parece tão simples! Mas isso não é garantia absoluta, porque ensinar a dormir não é evento que se encerre apenas na fórmula da conciliação do sono.

 

Ensinar a dormir pressupõe dar a oportunidade orientada ao bebé de regular a distribuição do sono, a duração e continuidade deste. E tudo isto não vive sem a harmoniosa articulação com os ritmos de alimentação, atividade e sua tipologia. Não porque dá jeito aos Pais, mas sim com base na sua fase de desenvolvimento, fornecer o número de horas de sono e sua distribuição óptima, para viver dia após dia, após semana, após mês, vivências de um bem-estar superior. Assim optimiza todos os outros campos como alimentação, comportamento, conquistas de actividade, formando no conjunto  o bom desenvolvimento de toda a estrutura física, emocional e cognitiva. Os pilares onde toda a vida futura vai acentar. 

Ensinar a dormir vai pressupor uma dedicação ao nível do desenvolvimento do autocontrolo físico e emocional do bebé postas em prática com medidas concretas, que suportem o verdadeiramente ensinar a acalmar do bebé para que em breve ele possa conquistar esse conhecimento e praticá-lo. Parte importante de ensinar o bebé a dormir passa por ensinar o bebé a mudar de ritmo, a acalmar. Por exemplo, abanar um bebé para o acalmar, na verdade não o acalma. Ele vê o mundo aos pulos, e isso distrai-o de chorar, mas caso o bebé esteja cansado, esse estímulo visual de movimento ainda o vai cansar mais. Assim que o “abano” acabe, e caso não tenha tido sorte em adormecer entretanto, ele vai chorar.

 

Provavelmente os Pais vão pensar: “ Ai tanta manha!...”. De forma objetiva neste exemplo, está a ensinar-se que para acalmar é preciso agitar. Além de não parecer fazer muito sentido, o que poderá o bebé aprender daqui? Será que ele consegue agitar-se de tal maneira sozinho e no fim estar calmo para adormecer? Ele terá essa capacidade física? Se a tiver será que esta é a melhor maneira de acalmar e relaxar? Depois do esforço físico de agitar, estará o batimento cardíaco calmo para adormecer sem descontrolo? Um bebé só adormece se estiver calmo.

 

Caso já esteja muito cansado é normal que comece a descontrolar os movimento dos braços e pernas (é isso que o cérebro faz quando está cansado- descontrola-se) acelerando o batimento cardíaco, que combinando com o cansaço de corpo e mente aproxima o descontrolo emocional. A tensão que gera um coração “aos pulos” empurra o bebé para um choro inconsolável, o típico choro em espiral. Este choro consome cada vez mais energia e gera ainda mais cansaço.

 

Esperem, mas o bebé já estava cansado e descontrolado no início! Mais cansaço mais descontrolo, mais descontrolo mais cansaço! Temos “espiral”! Isto não é estar calmo! Como pode aprender a adormecer tranquilamente desde pequenino se está neste descontrolo? É comum que seja nestes momentos que comece o recurso dos Pais às soluções físicas de curto prazo, e os maus hábitos para dormir. Ainda mais perigoso quando não se consegue evitar e o bebé está sistematicamente neste extremo de cansaço quando os Pais o tentam pôr a dormir, vez apos vez. Ensinar a dormir então precisa de uma estrutura de ritmos de alimentação, sono e atividade que proteja os timings e tipologias que empurram o bebé para os extremos de desconforto…(fome, cansaço,” super-estimulação”).

 

As estruturas da cadência do dia quando são ajustadas à idade e peso do bebé, são fórmulas simples que providenciam o bem-estar necessário para aprendizagens melhoradas a todos os níveis! O sono é uma delas!

 

A partir de certa idade, se apenas se orientou um bebé numa boa rotina ajustada ao bebé e pró-sono, sem um trabalho ao nível do elo de confiança com os Pais, desenvolvimento da noção de segurança e auto-estima do bebé, apenas a rotina pode ser insuficiente. Rotina adequada sim, mas trabalho ao nível da sintonia, do elo de confiança com os Pais, são variáveis a desenvolver desde muito cedo, como factor crítico de sucesso absolutamente vital para todo o desenvolvimento equilibrado do bebé. O campo do sono mais uma vez aparece para confirmar se está tudo bem conjugado: Rotina funcional e equilíbrio emocional.

É comum verificar-se que os Pais para tentarem acalmar um bebé pequeno sem ser pela questão da fome, usem mais o cuidado de respostas físicas, do que o cuidado igualmente ao nível de respostas de alcance emocional e do fortalecimento do elo de confiança. De forma mais objetiva possível, um bebé que chora (quando a causa não é fome nem dores) só tem uma hipótese a seguir: é acalmar. O “como”, está relacionado com a insistência da solução escolhida.

É comum conhecer mais bebés que foram ensinados a acalmar e adormecer ao colo (solução/resposta física), do que bebés que foram ensinados a acalmar para ir dormir antes mesmo de chorar, ensinados a auto-controlar a emoções desde cedo através do desenvolvimento precoce da sintonia com o estado de espírito orientador, verbal e físico da Mãe articulado com a protecção aos momentos de extremo desgaste. No entanto, as notícias construtivas são que ambas dão trabalho e como tal na grande maioria das vezes é uma questão de escolha e lembrança. A diferença é que os Pais tendem a persistir mais tempo, e há mais tempo, com maior peso na solução física, sendo algo completamente compreensível.

 

Ensinar a dormir de forma mais autónoma beneficia muito ao potenciar as várias frentes de comunicação que temos (e nem sempre os Pais se lembram de usar): a lógica do que dizemos e palavras que escolhemos, combinando com o tom com que as usamos, a velocidade com que falamos, o volume com que o dizemos, combinando com a nossa linguagem corporal e tudo isso combinado com a nossa respiração. Esta outra solução/resposta desenvolve mais cedo a atenção à comunicação e elo de confiança com os Pais e potencia melhor o desenvolvimento ao nível da estrutura emocional. Tendo um largo alcance, toca diretamente na questão do sono.

 

Os bebés são peritos em associações, e aprendem mais depressa do que se imagina popularmente! É de aproveitar em seu benefício (o deles é o nosso), pois o privilégio de criar e educar uma nova vida para crescer e se desenvolver de forma saudável, mentalmente produtiva, gradualmente capaz e futuramente autónoma, é o trabalho mais importante para a Humanidade e tem tanto de gratificação como de altruísmo. Ensinar a dormir deve ser encarado como umas das aprendizagens vitais, que ao contrário de não ensinar a dormir, o trabalho que dá, compensa largamente todo o empenho e esforço na direção certa, tornando-se gradualmente menos trabalhoso e desgastante para todos. É nesta direção que se promove o sono reparador como fonte de energia a proteger para fantásticos momentos acordados - Pais e Filhos!

 

Carolina Nogueira Albino
Especialista em Ritmos de Sono do Bebé