Por Carolina N. Albino

MN Esp. Ritmos de Sono do Bebé

Terceira causa:
CONCILIAR O SONO DE FORMA DEMASIADO DEPENDENTE

Aos seus olhos pode parecer pouco tempo para se enraizarem conhecimentos e hábitos, no entanto,  os poucos meses de vida do seu bebé, são tudo o que ele tem de experiência e conhecimento! Se apenas e exclusivamente consolidar a aprendizagem de ser adormecido, ou seja, induzido no sono através de acções alheias à prática física e interna dos seus mecanismos próprios, é normal que venha a apresentar pouca facilidade em adormecer, e principalmente, em readormecer. Irá instalar-se uma genuína necessidade (e não uma manha como se gosta de acreditar de forma popular), construída com base nessas referências ou expectativas.

É típico que no início, os pais se possam esquecer da importância de orientar e regular o bebé, canalizando a sua energia para tentar perceber o que se passa e agindo por reacção em vez de pro-acção. É uma atitude normal e importante de conhecimento e descoberta, mas quando levada ao extremo, e prolongada por vários meses, inverte a ordem natural de quem de facto precisa de ser orientado. neste novo contexto. Ao invés de acolher as suas acções/reacções, e atribuir-lhes significado, os pais podem manter por demasiado tempo a resposta de curto prazo no atendimento às necessidades do bebé. Isso gera inadvertidamente um dos hábitos mais comprometedores da educação e que se manifesta deste muito cedo, no sono. Mas no fundo, e sem intenção disso, os Pais dedicados, iniciam algo que não desejam prolongar, e, quando muitas vezes assumem que poderá haver um problema, é comum que certos maus hábitos no sono já estejam discretamente enraizados.

Exemplos como adormecer ao colo, com embalo, toque (festinhas, palmadinhas), companhia, à “mama” ou biberon, carrinhos de passeio, ou mesmo uma combinação baralhada de todas estas possibilidades, são algumas soluções de induzir o sono de curto prazo. Estas dão inevitavelmente  uma percepção ao bebé, de que para dormir, qualquer um destes recursos pode ser necessário, e que destes está dependente! No entanto, são todos métodos de adormecer que não podem ser, na sua maioria, mantidos na duração ideal do sono ou crescimento do bebé, incentivando assim o estado de alerta para dormir, e a demarcação do despertar.

Porque serão então estas soluções para adormecer causa do despertar à noite?

Se são estas as únicas “soluções” que o bebé reconhece e pratica para conciliar o sono, as mesmas agem também como um “incentivo” ao seu demarcar de despertar na noite. O sono é feito por ciclos de 45 minutos, e cada ciclo no seu fim (e início) é feito de fases de sono leve, onde o bebé pode despertar muito facilmente. Nem sempre o despertar é demarcado com choro (e aí muitas vezes os pais nem sabem se o bebé acordou ou não), mas caso o bebé interiorize que o processo de readormecer precisa de mais meios dos que este poderá accionar autonomamente, tenderá a manifestar-se por hábito, e nessa expectativa. Ou seja, em vez de simplesmente suspirar e entrar num novo ciclo, o bebé esperará algo, demonstrando essa expectativa (e mais tarde uma genuína necessidade de segurança), através de choro.

Não se pode esperar que o bebé saiba reconhecer que precisa de dormir, mesmo que seja a meio da noite, pois ele é naturalmente interessado por tudo, independentemente das horas. Caso as soluções oferecidas para adormecer ou readormecer, possam evitar que pratique o seu mecanismo interno, ou venham mesmo inadvertidamente a agir como estimulantes e interessantes acontecimentos àquela hora, poderá ser complicado voltar a readquirir a calma necessária para readormecer rapidamente. Isso é algo que se confirma ser comum, quando a “metodologia” para pôr a dormir utilizada pelos pais passa por “embalar com movimento”, uso de luz, deslocar de ambientes (por exemplo ir do quarto para a sala, passar para o carrinho, ou mesmo sair do berço para a cama dos pais, etc).

Nestas circunstâncias, à medida que o bebé cresce, poderá desenvolver e associar insegurança face ao local berço durante a noite (pois associa que quando tem dificuldade e chora, tem de sair imediatamente dali, como solução para o problema).  Poderão também intensificar-se as ocorrências de choro e aparente luta para dormir, sempre na mesma circunstância. Com a idade, e o aumento da consciência do bebé, é comum que as consequências de o adormecer em exclusiva dependência, em vez de o ensinar a dormir de forma despojada de expectativas e necessidades criadas artificialmente, tornem o sono cada vez mais difícil.

Observo, em variadíssimos casos, que é típico o bebé deixar de querer adormecer, em especial a partir dos 9 meses( combinando com fase típica de “ansiedade normal de separação”), num contexto histórico de sono dependente. Esta situação tende a piorar nesta fase, pois o bebé não se sente seguro no processo de dormir, consciencializando- se cada vez mais da dependência de companhia para o fazer. Percebe também, que quando adormece perde a noção do que está acontecer à sua volta, e que a “solução” que o deixa seguro para adormecer em primeira instância (companhia, toque, colo, etc.) não é constante e controlável, pois pode sair dali a qualquer momento, em especial quando ele não dá conta( pois adormeceu entretanto). É como se pairasse para o bebé a mensagem no ar: “o sono não é de se fiar, pois coisas importantes e incorrectas podem acontecer!”

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Caso estas “metodologias” de adormecer e readormecer o bebé, consideradas de “curto prazo”, não sejam identificadas, isoladas das outras variáveis (que demarcam e enraízam o despertar e apresentadas no conjunto deste artigo “base”) e assim resolvidas, poderão, mês após mês, vir a enraizar-se igualmente no relógio biológico do bebé. Estas interrupções do sono impedem não só o descanso da família, como dificultam de forma padronizada o aprofundamento das fases de sono profundo, podendo arrastar-se para idades seguintes. O bebé poderá ficar “internamente programado para acordar”, e isto, simplesmente, porque sempre o fez, noite após noite, desde que se conhece. No entanto, mesmo estando os pais conscientes destas consequências, poderão sentir que não têm outra escolha senão aplicar o que sempre fizeram e viram fazer, experimentar de tudo um pouco, administrar fármacos, ou simplesmente esperar que passe com a idade e com o poder da “sorte”.

O processo de crescimento do Ser Humano nunca se dissocia de Aprendizagem e como tal, poderá não ser justo esperar-se de um filho, mesmo que de um bebé se trate, capacidades, conquistas e aprendizagens, quando estas não foram ensinadas de forma continuada e persistida, com Amor e resiliência! Para ensinar é preciso dar a oportunidade continuada de prática, combinada com uma rotina, e uma forte relação de confiança que respeite, e reforço, Respeite as necessidades físicas e emocionais do bebé (sempre ajustadas à sua idade e peso). Para tal, medidas em prevenção podem e devem ser desenvolvidas, e tem sido esse o meu trabalho aprofundado no campo, ao longo de vários anos, com resultados que poderão facilmente comprovar os princípios expostos.

Uma forte barreira ao ensino ou intervenção precoce neste sentido, fora de um quadro patológico, é a tendência dos pais, levados pela avaliação do tamanho físico (“pequenez”), atribuírem  incapacidade e incompreensão ao seu bebé, sentindo que este poderá não estar preparado para lidar com o sono. No entanto, é importante que saiba que o bebé, nunca estará preparado para estas aprendizagens básicas, caso não se dê essa oportunidade orientada e continuada. No fundo, adormecer constantemente um bebé, é inadvertidamente, privá-lo de se preparar, aprender a lidar, fortalecer e melhorar a sua vivência neste campo, com uma verdade expectável e desejável para o seu próprio bem, normal e segura ao longo do seu crescimento. Quanto desde mais cedo se começar essa preparação, mais natural, menor desilusão, choque ou sofrimento para o bebé, e melhores hábitos de sono protegido e profundo. Em suma, sono qualitativo e contínuo enraizado por mais tempo.

Ao não se ensinar o bebé, todos os dias, a sentir-se seguro para conciliar o seu sono de forma gradualmente mais autónoma, está a privar-se o bebé não só de aprender a adormecer, como a readormecer, sempre que necessário, de uma forma simples, descomplicada, rápida e tranquila. Este “exercício” é apoiado por estudos, e resultado de inúmeras observações, como sendo uma aprendizagem fundamental para o sono mais qualitativo do bebé. Sem esquecer que o “sono do bebé” é a matriz para um bom desenvolvimento, e que a sua qualidade influencia também o bem-estar enquanto acordado, promovendo as melhores experiências e percepções, nos alicerces da sua vida Humana.

Para muitos pais, isto será algo que consideram muito difícil, mas garanto que não dará mais trabalho do que adormecer continuamente um bebé ao longo do seu desenvolvimento, e deixar, pela força do acaso, que certas conquistas se dêem, e certos problemas de sono interrompido cessem, quando já acumulados com outras questões. É preciso considerar capaz! É preciso ensinar! Para ensinar é preciso conhecer, e para conhecer é preciso trabalhar uma relação de confiança, em especial com vidas recentes a descobrir e a tomar parte da formação.

É bom frisar, que sendo um aspecto crucial, o trabalho de promover  e proteger o  bom sono do bebé, ou criança, ao longo do seu desenvolvimento, começando desde cedo, não se centra apenas na aprendizagem do seu adormecer autónomo como o passaporte exclusivo para que durma bem hoje e amanhã. Em alguns casos, apenas este aspecto mostrar-se-á incompleto para o objectivo do sono contínuo e qualitativo, sendo por isso sempre necessária a coordenação com outras medidas e campos relevantes do seu desenvolvimento. Mas, o “adormecer sozinho” será um dos mais importantes factores de sucesso para o bom sono, e em muitos casos, “a cereja no topo do bolo”.

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